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Democracia 2.0


Quando a internet reinventa o fórum político







A democracia direta entrou na era digital. As campanhas são feitas cada vez mais na internet e na Suíça o sitewecollect.ch permite de assinar iniciativas e referendos on line. Uma evolução que dinamiza a vida política, mas que não é isenta de riscos para a coerência e a credibilidade do sistema. 

Coleta de assinaturas para uma iniciativa nas ruas de Aaarau, em 24 de outubro de 2009. (Keystone)

Coleta de assinaturas para uma iniciativa nas ruas de Aaarau, em 24 de outubro de 2009.

(Keystone)

Um clique para escolher seu assunto, três itens a preencher (sobrenome, nome, e-mail) e você recebe um formulário que basta imprimir, assinar, dobrar no meio e colocar em uma caixa do correio. O selo é pago pelo destinatário. No futuro, esse tipo de coleta de assinaturas para os instrumentos da democracia direta (iniciativas e referendos) poderá substituir os tradicionais estandes na feira ou outras operações porta-a-porta. 

Em poucos dias wecollect.ch já recolheu 71.111 (até 10/5) assinaturas de três assuntos (em breve quatro), em que faz a promoção. O fato de tratar-se de textos lançados pelo Partido Socialista e outros grupos de esquerda – é assim que o site se posiciona – no fundo não muda nada. A direita também vai fazer o mesmo rapidamente, se necessário lançando sua própria plataforma. 

“Uma start-up sem fim lucrativo”

“Os alguns milhares de francos que custou o lançamento de wecollect saíram do meu bolso”, confessa Daniel Graf para swissinfo.ch. “Por enquanto, somos uma start-up e as estruturas definitivas estarão prontas até o final do ano. O objetivo e ser uma associação sem fim lucrativo”.

No entanto, o dinheiro não é tabu para o ativista de Zurique. Ainda mais que seu cumplice nessa aventura, Donat Kaufmann, estudante que ficou conhecido em 2015 por ter coletado 140.000 francos suíços junto ao público para pagar no jornal gratuito 20 Minutos uma publicidade contra a poderosa máquina de propaganda do Partido do Povo Suíço (SVP). O “crowdfunding”, portanto, faz parte dos projetos de wecollect, mas serviria apenas a diminuir os custos das campanhas para os que a lançam. A ideia é colocar os instrumentos da democracia direta à disposição de pequenas associações que geralmente não dispõem de recursos. “Queremos ser facilitadores; somos apenas dois e não cabe a nós ditar a agenda política”, precisa Daniel Graf.  

O impacto digital

Os atores na política suíça não esperaram wecollect para entrar na internet. E como ocorre frequentemente nos últimos anos em matéria de comunicação, foi a direita conservadora que mostrou o caminho. “A campanha do SVP para as eleições legislativas de 2015 marcou o início de uma revolução na comunicação política na Suíça, que passa a utilizar sistematicamente as redes sociais e a internet como fonte de informação e sobretudo de mobilização”, explica para swissinfo.ch Lukas Golder, cientista político no Instituto gfs.bern.

A estratégia deu certo: em outubro de 2015, o número de deputados SVP passou de 54 a 65. Jovens votaram SVP, seduzidos sobretudo por Welcome to SVP, um vídeo clip em dialeto suíço-alemão, com música eletrônica de fundo e que se tornou viral – mais 900.000 vistas até agora.

Alguns meses depois, em fevereiro de 2016, é a campanha feita pela esquerda, parte da direita e a sociedade civil contra a iniciativa “de aplicação sobre os criminosos estrangeiros” e que provocou a derrota clara do SVP. Não houve clip para os jovens, mas uma mobilização e coleta de fundos nas redes sociais que os observadores descrevem como “sem precedentes”.

Portanto, a Suíça já tinha tido campanhas políticas muito dinâmicas, como em 1989, quando mais de um terço dos eleitores votaram pela abolição do exército, ou em 1992, quando recusaram em votação apertada entrar no Espaço Comum Europeu (EEE). Na época não havia internet nem celular.

 “Pelo EEE, mais de 10% das pessoas que foram votar tinham participado fisicamente a um ato da campanha”, lembra Lukas Golder. “É um recorde jamais igualado, pois a mobilização também foi muito visível nas ruas. A mídia de massa era então a televisão. Hoje, ela resta muito presente, mas perda lentamente sua importância”.

As redes sociais a substituem como nova mídia de massa. Uma mídia de massa paradoxalmente também muito individual, uma vez que cada um pode se isolar no seu canto de informação ou só verá os conteúdos que lhe interessam e só lê as opiniões de pessoas que pensam como ela, destaca o cientista político.

Não muito rápido!

Nesse contexto de « tudo na internet”, o surgimento de wecollect foi lógico. Daniel Graf, seu iniciador, foi secretário do Partido Verde e porta-voz da Anistia Internacional. Atualmente ele trabalha na campanha pela renda básica incondicional. Com sua plataforma, ele pretende formar uma força “rápida, eficaz e viral”, contando com as fichas dos partidos de esquerda e de certas ONG. “Quem pode contar com uma comunidade viva que se pode ativar por e-mail, possui um tesouro”, declarou recentemente Daniel Graf à imprensa.

Internet recuz os custos

“Ninguém ousa dizer realmente quanto custa de uma iniciativa popular”, lamenta Lukas Golder. A esse respeito é curioso que o primeiro texto para o qual a coleta de assinaturas se faz on line é justamente a iniciativa do Partido Socialista sobre a transparência, no único país da Europa onde não existe regra para o financiamento dos partidos e das campanhas.

Se a coleta de assinaturas tradicional é frequentemente feita por militantes que dão parte de seu tempo à causa, sabe-se que também existem caçadores de assinaturas mercenários, pagos por peça. Tem ainda todo o trabalho anterior e posterior, da impressão das folhas até depositá-las na Chancelaria Federal.

Por experiência, o cientista político estima que coletar (em 18 meses) as 100.000 assinaturas necessárias para uma iniciativa, custa entre 500.000 a 1 milhão de francos suíços, ou seja, 5 a 10 francos por assinatura.

wecollect promete baixar claramente os preços. A folha de assinaturas que sai da impressora leva um selo de 85 centavos, pagos pelos promotores da iniciativa. A coleta de 100.000 assinaturas custará, no máximo, 85 mil francos. Aí também tem custos anexos. Portanto, Daniel Graf diz que, com o tempo, o custo de uma assinatura ficará abaixo de 1 franco.

Inicialmente, tudo parece positivo para a democracia direta. Facilitando o acesso a seus instrumentos, a internet só pode torna-la mais dinâmica e mais viva. Mas há riscos, que Lukas Golder vê no contexto mais amplo de aceleração dos processos políticos.

 “Já vimos essa evolução há anos desde que a televisão reinava em mestre”, afirma o cientista político. “Quanto mais as mídias se tornam rápidas, mas a política deve reagir rápido. Ora, a classe política na Suíça geralmente não tem grande velocidade de reação, ela procura o compromisso que pode levar anos”.

“E com um instrumento como wecollect estamos em outra dimensão”, prossegue Lukas Golder. “Porque torna-se muito fácil e barato coletar assinaturas, veremos uma nova aceleração com o risco de termos assuntos bagatela ou então temas elaborados demais, sem ter tempo de pensar em todas as eventualidades”. Sem contar que iniciativas muito numerosas acabariam por deixar a política ilegível pelos cidadãos e pela mídia, cujo papel de explicação e perspectiva continua sendo, apesar de tudo, central.

De qualquer maneira, a experiência está apenas no início e Lukas Golder está ansioso por acompanha a evolução. “Primeiramente é um meio de suscitar mais interesse pela política. E com o sistema de milícia que temos, principalmente nas prefeituras, que é mais próxima do cidadão, será uma evolução muito importante para o nosso país”.


Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch

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