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Leonardo Boff e sua visão planetária


“Cuidemos da Terra: não haverá outra Arca de Noé”


Por Sergio Ferrari


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A solidariedade entre o Norte e o Sul é o ponto de partida para buscar soluções para a profunda enfermidade ecológica e de paradigmas da Terra. “E a solidariedade suíça é exemplar”, sublinha Leonardo Boff, um dos criadores da Teologia da Libertação e principal promotor da nova Ecoteologia.

Em seu relatório "Crise Silenciosa  na Amazônia" Greenpeace dununcia a redução ilegal do pulmão do planeta. Na foto, vista aérea de uma área desmatada. (AFP)

Em seu relatório "Crise Silenciosa  na Amazônia" Greenpeace dununcia a redução ilegal do pulmão do planeta. Na foto, vista aérea de uma área desmatada.

(AFP)

Começa hoje em Túnis (Tunísia) uma nova edição do Fórum Social Mundial (FSM). Boff analisa a vigência desse espaço da sociedade civil internacional. “Se a modernidade propunha o progresso ilimitado, choca contra o mundo de um planeta com recursos limitados”, enfatiza o intelectual brasileiro que, aos 77 anos, continua a assessorar movimentos sociais brasileiros. É necessário integrar indignação, rebeldia e propostas alternativas para salvar a ‘Mãe Terra’ de uma tragédia anunciada, afirma o prêmio Nobel Alternativo 2001.

swissinfo.ch: Qual seu balanço do estado atual de nosso planeta?

Leonardo Boff: Uma situação complexa de crise social e do modo de produção fundado na ilimitada exploração da natureza. O projeto de modernidade propunha o progresso ilimitado. Porém a Terra, planeta com recursos limitados, não suporta esse projeto. A Terra tornou-se insustentável. Chegamos aos seus limites físicos e é preciso um ano e meio para repor o que tiramos em um ano.

swissinfo.ch: O ser humano é o principal responsável desse modelo?

L.B.: Sem dúvida. Nos confrontamos a uma crise mental, de valores, de conceitos. Nossa mente está contaminada pelo antropocentrismo. O ser humano se entende como centro de tudo e os demais seres têm valor somente na medida em que se adequam a ser utilizados pelo ser humano. Essa compreensão é muito daninha para o equilíbrio da Terra porque não reconhece o valor intrínseco de cada ser, o que leva ao desrespeito do outro.

swissinfo.ch: No entanto, existem muitos exemplos de solidariedade internacional. Como interpretar essa solidariedade?

L.B.: A solidariedade pertence à essência do ser humano. Quando nossos ancestrais antropóides iam buscar alimentos, não os comiam individualmente mas levavam ao grupo para repartir entre todos. Essa solidariedade permitiu passar da animalidade à humanidade.

swissinfo.ch: E a solidariedade atual? O senhor sempre foi muito ligado às ONG e associações europeias e suíças em particular.

L.B.: Estou convencido do valor do encontro de pessoas de diferentes partes do mundo que se descobrem como iguais, com os mesmos sentimentos básicos de querer amar e ser amadas. Todas se dão conta de que podemos ser humanos de múltiplas formas, como suíços, como andinos, como guaranis, como africanos ou asiáticos.

Conheci muitos suíços que vieram para o Brasil e viveram nas favelas identificando-se com o cotidiano dos mais pobres. Também conheci gente pobre das favelas que foi à Suíça para descobrir outra realidade social, mas próximo de gente que tem o mesmo espírito de solidariedade e de verdadeiro amor. Sem dúvida, para mim tais iniciativas, esse intercâmbio ida e volta, Norte e Sul, constitui uma antecipação do que poderia ser a humanidade futura.

Boff em poucas palavras

Genésio Darci Boff, conhecido como Leonardo Boff, nasceu em Concordia,(SC,) em 14 de dezembro de 1938.

EÉ teólogo, religioso, filósofo, escritor, professor e militante social. Desde sua juventude promove e acompanha aas Comunidades Eclesiais de Base no Brasil e a movimentos sociais de seu país e da América Latina.

Foi um dos cofundadores da Teologia da Libertação, o que o levou a duras interpelações do Vaticano que, em 1984, o submeteu a um processo que, um ano mais tarde, o condenou a um ano de silêncio (suspensão ‘a divinis’). Em 1992 renunciou o sacerdocio e se autoproclamou como laico.  

Em 2001, em Estocolmo, recebeu o Prêmio Nobel Alternativo (Right Livelihood Award), distinção atribuída a destacadas personalidades da sociedade civil mundial.

Desde a eleição do cardeal argentino Jorge Bergoglio como Papa Francisco, tornou-se uma das vozes de apoio mais autorizadas na América Latina.

É um dos intelectuais mais produtivos da América Latina. Escreveu mais de 60 livros sobre Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. Muitos foram traduzidos em várias línguas.

swissinfo.ch: Se falamos da humanidade futura, começa hoje uma nova edição do Fórum Social Mundial. Desde o primeiro, em Porto Alegre em 2001, o senhor foi um dos promotores conceituais desse encontro. Qual é sua percepção atual, 14 anos depois?

L.B.: A insatisfação generalizada pelo sistema vigente tem raízes na vitória do capitalismo sobre o socialismo real. Como consequência, tanto sob Ronald Reagan como de Margaret Thatcher, ganhou um impulso nunca visto antes da lógica do capital e sua cultura de exaltação do indivíduo, da propriedade privada, da riqueza, da concorrência desenfreada e do Estado mínimo.

A política foi difamada como sinónimo de corrupção e o Estado como ineficiente. O internacionalismo, a solidariedade entre os povos, a preponderância do social sobre o individual foram desmoralizados e abandonados. A frustração e a decepção, mais ou menos coletivas, deram origem à resignação ou então aos protestos e a rebeldia. Essa rebeldia que está predominando criou um caixa de ressonância com os Fóruns Sociais Mundiais, cujo lema era: “Outro mundo é possível e necessário”.

swissinfo.ch: Nesse contexto, que importância tem hoje o FSM?

L.B.: Representa o inverso do sistema globalizado. Não se trata de resignação e sim de uma ação contrária e de mostrar a insatisfação de grande parte da humanidade ante o curso atual do mundo. Assim não pode continuar. Temos que projetar novos sonhos e utopias e articular alternativas viáveis se queremos sobreviver como civilização e como espécie. Deixado ao seu livre curso, este sistema hegemônico pode levar a humanidade inteira ao abismo. O FSM interpreta a situação atual como uma crise generalizada de nosso modo de viver, de tratar a Terra e de nos relacionarmos com os demais humanos. Esta crise purifica e nos faz amadurecer. Por isso o Fórum é um lugar de esperança que permite fazer crescer o sentimento de pertinência. Os altermundialistas não estão apenas sonhando, mas indicam que por todas as partes do mundo há reações e tentativas de novas formas de viver, de produzir, de distribuir e de consumir.  Os que vão ao Fórum não o fazem tanto para escutar palavras de celebridades mundiais mas para trocar experiências e ver como as coisas podem ser feitas de outra forma, distinta da maneira perversa imposta pelo capitalismo. Por mais dificuldades que possam ter, os Fóruns têm esse alto significado de resistência, de propostas alternativas e de esperança. Na beira do abismo vamos criar asas e voar rumo a um novo mundo diferente, no qual será menos difícil viver humanamente e mais fácil amarmos uns aos outros.

swissinfo.ch: Quais são os riscos para a humanidade se não se consegue frear, por exemplo, a crise ambiental produzida pelo aquecimento global. Ou seja, se não se encontra a fórmula de “outro mundo possível”?

L.B.: Se não se consegue modificar esse paradigma, podemos ser condenados a repetir o destino já conhecido dos dinossauros, que depois de viverem 133 milhões de anos sobre a Terra desapareceram rapidamente por causa de uma catástrofe ecológica. É preciso produzir para atender as necessidades humanas, mas respeitando os ritmos da natureza e levando em conta a capacidade de tolerância de cada ecossistema para não causar danos irreversíveis. O consumo deve ser regulado por uma sobriedade compartida: podemos ser mais com menos. Como explicamos na introdução da Carta da Terra, estamos ante um momento crítico na história planetária, em uma época em que a humanidade tem que escolher seu futuro. A questão de fundo é promover uma aliança global para cuidar da Terra – e para cuidarmos os seres humanos uns dos outros – ou então corremos o risco de uma dupla destruição. A nossa e a da biodiversidade da vida. Desta vez não haverá uma Arca de Noé. Ou nos salvamos todos ou todos teremos o mesmo destino trágico.


Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch

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