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"Espero um dia pagar nossos investidores"



Gebana é uma empresa diferente na Suíça. Eles começaram como protesto de mulheres e hoje são grandes atacadistas de soja orgânica, frutas secas e outros produtos ecológicos do Brasil, África e Tunísia.

swissinfo entrevista seu gerente-geral, Adrian Wiedmer, um suíço que vive hoje em Capanema no Brasil com a sua família, perseguindo o sonho de provar que é possível fazer lucro com a agricultura orgânica e comércio equitável.

Apesar de estar tão escondida num prédio ao lado da estação de trens de Zurique, ela pode se considerar uma multinacional. Gebana AG, a empresa criada em 1998 e com pouco mais de 40 funcionários, atua em países como Brasil, Burkina Faso, Tunísia e Holanda para atender o mercado europeu.

Sua especialidade é a produção, importação e distribuição de produtos agrícolas orgânicos e de comércio equitável. O mais importante deles é a soja, em grande parte originária da produção de 300 famílias de Capanema, no estado do Paraná, Brasil.

Adrian Wiedmer é o gerente-geral da Gebana. O jovem suíço, formado em engenharia ambiental na Escola Politécnica de Zurique, passa a maior parte do seu tempo no Brasil, onde já vive também a sua família. À swissinfo ele conta como é possível unir ecologia com administração de empresas.

É verdade que vocês surgiram a partir da iniciativa de um grupo de mulheres?

Adrian Wiedmer: Sim, a Gebana começou através de um grupo de mulheres da igreja, que se perguntavam na época por que a banana era mais barata na Suíça do que a maçã, uma fruta nativa nossa. Elas chegaram à conclusão que era pelo fato do produtor não receber nada pela banana nos seus países de origem. Assim elas decidiram comprar a banana nos supermercados e vendê-las fora por um preço maior. Depois elas enviaram o valor adicional aos produtores de banana. Esse foi o início do trabalho da Gebana no início dos anos 70, um projeto político e de conscientização.

E agora vocês se profissionalizaram?

A.W: Há oito anos atrás nos transformamos numa empresa, cuja principal meta é combinar sustentabilidade social e ecológica com a econômica. Hoje nossa visão é que pequenos agricultores no mundo inteiro criam muitos valores - sociais, ecológicos e econômicos - que muitas vezes não são pagos pelo mercado. Por isso queremos agora que eles sejam remunerados de forma condigna. Somos uma ponte entre os produtores e os clientes.

Como e por que a Gebana, que era simplesmente uma ONG, necessitou se transformar numa empresa?

A.W: Nós éramos de fato uma ONG, mas sem o objetivo de fazer compra e venda. Nosso trabalho era mais político. Porém chegou o momento em que foi necessário encontrar uma estrutura comercial para concretizarmos alguns objetivos. Um deles é o de ser uma ponte entre os produtores e os clientes, algo que só poderia ser realizado através de uma empresa. E como toda empresa, precisamos ser sustentáveis economicamente.

Então vocês precisam lucrar assim como os outros competidores no mercado?

A.W: De fato temos fins de lucratividade, mas os acionistas da Gebana, umas duzentas pessoas, estão dentro desse negocio pelo fato de apoiarem a idéia. Até agora eles não ganharam nada. Um dia eu espero poder pagá-los (dividendos). A idéia que temos é de crescer e de fortalecer nossa presença no mercado. Atualmente temos projetos de produção na Burkina Faso, Brasil e na Tunísia.

Com 105 euros de consumo per capita de produtos orgânicos, a Suíça está na liderança de todos os países europeus. Muitos falam que 30% dos produtos vendidos nos supermercados do país são "bio" ou tem outros selos de qualidade como Max Havelaar ou de comércio equitável. Esse é o mercado que vocês procuram atender?

A.W: Sim, de fato a Suíça é líder mundial no consumo de produtos orgânicos e de comércio equitável per capita. Porém ela tem um mercado muito pequeno. Já outros países como a Inglaterra, Alemanha e França têm um crescimento muito forte, onde queremos também estar presentes com nossos produtos. Em números, o crescimento deste mercado será de 10 até 50% a cada ano.

Por que vocês são tão otimistas quanto à potencialidade do mercado de produtos orgânicos e de comércio equitável?

A.W: Pois o consumidor se preocupa cada vez mais com a sua saúde e também com a situação social no mundo. Muitas destas pessoas acreditam que o mercado tem um papel na solução desses problemas. Isso se explica através do surgimento de diversos selos de qualidade ou de iniciativas na Suíça. Mas esse desenvolvimento ocorre não apenas na Europa, mas também nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil, aonde chegamos a vender uma parte da nossa produção de soja orgânica.

Qual é o mercado consumidor para produtos orgânicos?

A necessidade das pessoas é realmente ter mais contato com a comida que compram. Hoje se compra o alimento no supermercado e não se sabe de onde que vem e o que é. Nos jornais são muitas vezes publicadas reportagens sobre problemas ambientais ou até mesmo trabalho infantil nas plantações. Infelizmente não é a maioria das pessoas que se preocupa com isso, pois elas querem comprar comida barata. Por outro lado existe um grupo, que cada vez mais cresce, que quer saber mais sobre o que compram. Essa necessidade é atendida por empresas especializadas como a nossa e até mesmo as grandes.

Hoje então existe mais aceitação aos produtos orgânicos no mercado?

A.W: Não apenas para o produtor é melhor trabalhar com produtos orgânicos, pois ele tem uma margem melhor. Também para o comércio, que antes relutava em investir nessa área, a situação mudou. Os supermercados perceberam que a comercialização de produtos melhores também possibilita cobrar mais por eles. Entre os países existem algumas diferenças: os países latinos como Espanha, Portugal e Espanha ainda são fracos no setor de produtos orgânicos. Forte é no norte da Europa como os países escandinavos, a Inglaterra e a Alemanha.

Como uma pequena empresa como a Gebana consegue competir com as grandes redes de supermercado, que hoje também investem pesado na área. Eles não poderiam ditar os preços do mercado?

A.W: Eu acho que não, por duas razões. De um lado, somos especializados em produtos como a soja orgânica. Somos bem competitivos nela. Nós vendemos para um grande número de redes de supermercados na Suíça, Inglaterra e outros países. Ao mesmo tempo, somos também bem competitivos com os pequenos agricultores, pois pagamos bem e temos um bom volume. Por outro lado, trabalhamos um nicho pequeno do mercado, com a venda direta para o consumidor através da Internet. Eu acho que esse nicho vai continuar, pois sempre haverão pessoas que buscam contato com os produtores que querem saber mais. E se nós temos 1% do mercado, isso já são uns cem milhões de euros.

Quer dizer que a internet também se transformou em canal de distribuição da soja brasileira?

A.W: Nós vendemos por internet e também paras as grandes redes de supermercados. Porém nelas somos apenas fornecedores especializados, não vendendo produtos com a marca da Gebana. Então nós entregamos para um grande produtor de tofu, que quer uma soja de comércio equitável e orgânico, e depois ele vende nos mercados com a sua marca. Já os produtos da nossa marca são vendidos para o consumidor final através da Internet. Atualmente são uns dez mil e quinhentos.

Além da soja, o que vocês também vendem pela Internet?

A.W: Os nossos mais importantes produtos para o consumidor final são os frutos desidratados como tâmara, abacaxi, banana e manga. No lado industrial é a soja. Depois temos um pouquinho de café e chocolate. Nós também trabalhamos com outras marcas que produzem esses produtos e distribuímos para eles.

Agora falando da experiência de vocês com os agricultores brasileiros. Como vocês chegaram nesses produtores de Capanema, no Paraná?

A.W: Na verdade foram os produtores que nos procuraram. Eles eram um grupo de agricultores que, nos anos 80, resolveram não mais trabalhar com produtos químicos, isso sem existir um mercado para produtos orgânicos. Depois eles fizeram contatos na Europa para vender seus produtos. Assim nós entramos. Em primeiro lugar nós compramos de um exportador. Conhecendo melhor a região e depois de formar a nossa própria empresa junto com um empreendedor brasileiro para trabalhar com os produtores de Capanema.

E por que Capanema?

A.W: Existe uma lógica de estarmos trabalhando com eles. Os agricultores de Capanema são quase pioneiros na América Latina de produção orgânica. Além disso, essa é uma região de pequenos produtores. Nós não queremos trabalhar com latifúndios, pois achamos que não é uma forma ecológica produzir alimentos em terrenos de vinte mil hectares. Outro ponto muito positivo em Capanema é o apoio que temos da comunidade e da prefeitura e a abertura que eles têm para a agricultura orgânica. Hoje mais de 10% da produção agrícola na região é orgânica, um percentual muito elevado até para padrões europeus.

Quantas famílias no total trabalham com a Gebana em Capanema?

A.W: Hoje já são 300 famílias, mas esse número está crescendo. Isso ocorre de duas formas: ou os produtores que se aproximam de nós para perguntar como trabalhamos, ou são os nossos técnicos que vão para o campo para convencer os agricultores das vantagens da produção orgânica, sem esquecer de falar da percentagem maior que pagamos para a produção.

Falando em latifúndio, qual o tamanho das propriedades das famílias que fornecem soja para a Gebana?

A.W: A média delas é de doze hectares, mas existem alguns produtores com cinqüenta ou cem hectares.

E quanto vocês pagam pela soja produzida em Capanema?

A.W: Nós pagamos um diferencial entre cinco e oito dólares por saca de sessenta quilos. Dependendo do preço internacional, isso significa que estamos remunerando o produtor 50% a mais do que o mercado. Porém nós também exigimos muito. A produção é mais cara e trabalhosa.

De qualquer maneira, 50% a mais parece ser um bom negócio para o agricultor.

A.W: Na região o preço convencional pode estar na faixa de 14 dólares a saca, mas varia. Nós pagamos um acréscimo fixo entre cinco e oito dólares por saca dependendo da qualidade e variedade.

Agricultura orgânica é bonita, mas você mesmo fala da sua complexidade. Quem explica ao pessoal de Capanema como produzir segundo os critérios aplicados pela Gebana?

A.W: Importante para nós é que estamos sediados em Capanema, não em Curitiba ou em São Paulo. Também nosso pessoal é da região, como os técnicos e agrônomos. Durante todo o ano eles vão ao campo para visitar os agricultores para dar-lhes assistência técnica. Isso vai desde falar sobre as sementes, uma questão muito delicada lembrando a questão dos transgênicos - nossos produtos têm de ser livres deles - e outros apoios.

Você vive na região de Capanema e trabalha com as famílias. Para ela compensa financeiramente optar pelo orgânico e vender seus produtos a vocês?

A.W: A renda depende de vários fatores como o que elas recebem pela produção, seus custos e outros. Cada família tem uma realidade diferente. Eu tenho a impressão que para elas é vantajoso estar nesse programa. Talvez a prova disso está o fato deles quererem continuar participando. Para mim isso é um dado importante, pois a agricultura orgânica não é fácil. Muitos acham que é só jogar a semente num buraco da terra e não fazer mais nada. Isso é incorreto. Por exemplo, sem adubo não cresce nada. Os adubos precisam também ser orgânicos. Você também necessita na agricultura orgânica de manejo dos animais. No orgânico o produtor precisa pensar muito mais do que na agricultura convencionais. Aqueles que são mais preparados, ganham naturalmente mais.

Agora entendo: o dinheiro que vocês dão a mais para os produtores não pode ser visto como um programa ecológico ou social?

A.W: De fato, exigimos bastante deles. A mais importante da exigência é o cuidado com a natureza.

Entrevista swissinfo, Alexander Thoele

Fatos

A Gebana foi criada como associação por um grupo de mulheres de Frauenfeld no início dos anos 70.
Elas eram chamadas de "Bananenfrauen" (Mulheres da Banana), pois lutavam pela comercialização justa do fruto na Suíça.
A associação se transformou na empresa Gebana AG em 1998.
Hoje ela produz, importa e comercializa soja do Brasil, frutas secas de países Africanos, tâmaras da Tunísia ou óleo de oliva da Palestina.
A empresa tem 6 empregados em Zurique, 20 no Brasil, 10 na África e 2 na Holanda.



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