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"Há que saber parar" As viravoltas de uma vida na emigração

Muitos portugueses chegaram na Suíça como trabalhadores sazonais e ficaram. Alguns se tornaram empreendedores. É o caso de duas irmãs, donas de uma lavanderia no centro de Genebra. Entre lembranças do trabalho duro nos primeiros ano e o sonho comprar uma casa no sul de Portugal, as duas explicam porque a Suíça foi uma grande chance nas suas vidas.

Duas mulheres em uma lavanderia

Anabela e Teresa no balcão da lavanderia em Genebra.

(swissinfo.ch)

Duas irmãs, uma empresa familiar. Anabela e Teresa são apreciadas e recomendadas por quem conhece o trabalho que fazem. E pela anterior proprietária suíça, mulher de uso severo e poucas palavras, que depois de vender a lavandaria a Anabela de Oliveira rematou: "Nunca nenhuma outra aguentou o meu carácter, só tu." A história de um desapego desafeiçoado do país de origem: "Saí de Portugal, em fevereiro de 1987, contou Teresa à swissinfo.ch "A família do meu marido não gostou da ideia, mas o país era demasiado pequeno para mim."

Grande parte dos clientes do número 4 da rua de Montbrillant, por trás da estação de Cornavin, em Genebra, descobriram a "Blanchisserie Salon Lavoir" porque alguém lhes falou no trabalho de Anabela e Teresa. Reparações e costura, lavagem ou passagem a ferro, dá gosto ver o entusiasmo e desembaraço com que adiantam o serviço. A vida de emigrante tem por vezes idas e voltas, como se as raízes chamassem a planta à terra original. Foi assim com Anabela. O primeiro trabalho na Suíça foi nas estufas, em Zurique, nos três meses de férias de Verão. Trabalho não declarado. "Um calor infernal", recorda.

A Suíça não lhes abriu facilmente a porta: "Chegados aos quatro anos de trabalho sazonal, o patrão disse ao meu marido que não ia dar-nos os documentos anuais porque tinha outros trabalhadores na mesma situação e não podia dar a todos porque não tinha trabalho no Inverno para tanta gente." O marido, que nasceu em França, pensou voltar para lá. Telefonou aos irmãos, mas desencorajaram-no, que as coisas não estavam boas por lá para arranjar trabalho. "Voltámos para Portugal. O meu sogro tinha um aviário de perus que estava a dar bem. Propusemos-lhe alugar o aviário e passarmos nós a explorar o negócio, mas não a ideia não pegou. Viemos outra vez trabalhar para o patrão suíço na agricultura."

Anabela continuava sem documentos, o que tornava difícil encontrar trabalho. Também não falava alemão. Ia fazendo trabalhos ocasionais – cortar erva, limpar um jardim, apanhar fruta, etc. Descontente com a instabilidade da situação, o marido foi ao sindicato, arranjou trabalho nas estradas e conseguiu finalmente ter documentos. "Em 1994 recebeu o visto de residência ‘B’, que me deu a mim o estatuto de acompanhante, e dois anos depois o visto de permanência ‘C’. Só então pudemos mudar de cantão." Em Genebra, o marido arranjou trabalho pouco tempo depois de chegarem. Hoje continua na mesma empresa de isolamento de edifícios e já é patrão. Como o contrato de Anabela terminava em dezembro e o patrão lhe pediu que ficasse, só em abril de 1996 é que veio para Genebra.

Teresa já estava em Genebra desde 1989, com um percurso de emigração que começou cedo. Tinha 14 anos quando foi para Paris trabalhar pela primeira vez. De olhar vivo e com muito sentido de humor, conta que saiu de Portugal seis meses depois de casar, em fevereiro de 1987. "O país tornou-se demasiado pequeno para mim." O marido ficou. Dois meses depois, um tio bateu-lhe à porta: "Quando o ouvi dizer que me trazia uma surpresa, pensei que era um fio de ouro ou assim, afinal era o meu marido. Ele se não fosse por mim, teria ficado lá, é do género que gosta muito do ambiente da terrinha, do café... Não há férias que não as passe na terra."

Tem dois filhos, um com 11 anos e outro com 25. Uma vida. "Comecei a trabalhar com 11 anos e estou já cansada, quero parar aos 60. Vim ver como era e no início a ideia era ficarmos dez anos, mas já passaram 27."

Porta de um comércio em Genebra

Entrada da lavanderia "Salon Lavoir" próxima do centro de Genebra.

(swissinfo.ch)

A lavandaria há muito que tinha seduzido Anabela. O "Salon Lavoir " entrou-lhe pelos olhos dentro no primeiro dia quando passou à porta, como se fizesse parte de um cenário previamente escrito. Ganhou finalmente coragem e entrou para perguntar se haveria trabalho: "A mulher intimidou-me, o marido dela disse-me que fosse procurar trabalho noutro lugar". Quando em junho de 1996, recebeu o visto, viu a lavandaria de portas fechadas. Passado algum tempo, o marido voltou ao assunto: "Disse-me um dia que a proprietária já estava velha, e sugeriu que comprássemos isto, mas eu nem liguei. Até que um dia passei por aqui e vi que voltou a abrir, havia uma montanha de lençóis."

Decidiu ir falar outra vez com a patroa. "Ela nem me reconheceu. Eu disse-lhe que procurava trabalho e ela ‘Tem visto?’ Respondi que sim e ela disse-me ‘Então venha cá fazer uma experiência na calandra’, porque ela sofria de artrose e já não tinha força para a máquina." A patroa propôs-lhe começar a trabalhar a 50%, porque não queria pagar o segundo pilar do seguro social. Em agosto, Anabela engravidou. Quando o bebé nasceu, em 1997, a patroa adoeceu e um mês depois disse-lhe, de repente: "Vou entrar de urgência no hospital e ou tu vens trabalhar ou eu fecho a lavandaria." Anabela respondeu que com o bebé ainda tão pequeno seria difícil e a mulher mostrou-se inesperadamente compreensiva, disse-lhe que a criança era mais importante e que fizesse o tempo que fosse possível. "Eu trabalhava das 7h30 às 13h. Quando ela recuperou, o marido começou a adoecer e então decidiram vender a lavandaria. O meu marido veio cá falar com eles, mas não venderam."

O assunto arrastou-se ainda dois anos e em 1999 a patroa entregou as armas: "Estou cansada, vou fazer 63 anos e vou vender." Anabela voltou à carga: "Venda-me a mim." Respondeu: "A ti ou ao teu marido? Só se tu quiseres, porque quem vai trabalhar aqui és tu. Se estás interessada, a lavandaria é tua. Vendo-te por 100 mil francos." Depois de ter ali trabalhado quatro anos, ouviu pela primeira vez uma palavra de reconhecimento. De carinho, até: "Nunca nenhuma outra aguentou o meu carácter."

O trabalho a fazer era muito, os clientes multiplicavam-se. Quando em 2001 engravidou pela segunda vez, pediu à irmã que se juntasse a ela. Teresa tornou-se rapidamente indispensável. Entretanto os anos passam e somam e Teresa repensa a vida. Inscreveu-se em aulas de salsa e de tango nos tempos livres, passa férias no estrangeiro, gosta de viajar, mas começa a planear a reforma. Não a atrai a vida na "terrinha" que tanto agrada ao marido, mas quer passar uns anos sossegados algures no sul de Portugal, onde haja sol e praia. Remata, com um brilho gaiato nos olhos: "Há que saber parar. A nossa mãe trabalhou até mais não poder. Não vou repetir o erro, a minha reforma vai começar mais cedo."

Portugueses na Suíça

Os primeiros trabalhadores portugueses chegaram na Suíça por volta dos anos 1970. Hoje são a terceira maior comunidade de estrangeiros residentes no país: segundo os números atuaisLink externo do Departamento Federal de Migração, no final de 2016 viviam aproximadamente 268.700 cidadãos portugueses no país, um número que tem crescido nos últimos anos. 

Com a melhora da economia em Portugal, essa tendência começa a ser revertida. Uma reportagem publicada (ver box acima) no final do ano pela televisão suíça afirma que a queda na chegada de migrantes oridundos de países da União Europeia foi de 26% entre janeiro e setembro de 2017. 

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