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Opinião


Dados para o desenvolvimento


Por Jeffrey D. Sachs, Nova Iorque


A revolução de dados está transformando rapidamente toda a sociedade. As eleições são gerenciadas por biometria, florestas são monitoradas por imagens de satélite, o sistema bancário migrou das agências para os smartphones e raios x são examinados no meio do caminho ao redor do mundo. 

Por Marco Scuriatti e Mahmoud Mohieldin

Com um pouco de investimento e precaução, detalhado em um novo relatório, preparado pela Rede de Soluções em Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. (SDSN), em Dados para o Desenvolvimento, a revolução de dados pode levar à revolução do desenvolvimento sustentável e acelerar o progresso em direção à erradicação da pobreza, promover a inclusão social e proteção do meio ambiente.

Os governos mundiais adotarão as novas Metas de Desenvolvimento Sustentável (MDSs) na conferência especial das Nações Unidas em 25 de setembro. A ocasião provavelmente será o maior encontro de líderes mundiais da história, pois quase 170 chefes de estado e de governo adotarão metas compartilhadas que orientarão os esforços de desenvolvimento global até 2030. Obviamente, objetivos são mais fáceis de aceitar do que de alcançar. Então precisamos de novas ferramentas, incluindo novos sistemas de dados, para transformar as Metas de Desenvolvimento Global em realidade até 2030. No desenvolvimento destes novos sistemas de dados, os governos, empresas e grupos da sociedade civil devem fomentar quatro propósitos distintos.

Jeffrey D. Sachs

Professor de Desenvolvimento Sustentável, de  Saúde Pública e diretor do Instituto Terra da Universidade de Columbia. Também é conselheiro do Secretário-Geral da ONU para os Objetivos do Milênio. Entre seus livros estão The End of Poverty, Common Wealth, e, mais recente, The Age of Sustainable Development

O primeiro e mais importante refere-se a dados para entrega de serviços. A revolução de dados proporciona aos governos e empresas maneiras novas e muito melhores de fornecer serviços, combater a corrupção, diminuir a burocracia e garantir o acesso a locais antes isolados. A tecnologia de informação já está revolucionando a prestação de serviços de saúde, educação, governança, infraestrutura (por exemplo, eletricidade pré-paga), serviços bancários, resposta a emergências e muito mais.

O segundo objetivo é refere-se a dados para gestão pública. Agora, os funcionários podem manter os painéis de controle em tempo real, com informações do estado atual das instalações do governo, redes de transporte, operações de socorro de emergência, vigilância em saúde pública, crimes violentos e muito mais. O feedback do cidadão também pode melhorar o funcionamento como, por exemplo, através de colaboração com informações aos motoristas sobre o trânsito. Os sistemas de informações geográficas (GIS) permitem monitoramento em tempo real entre os governos locais e distritos nas regiões mais distantes.

O terceiro objetivo refere-se a dados para a responsabilização dos governos e das empresas. É um clichê dizer que a burocracia governamental faz coisas mal feitas, esconde lacunas na prestação de serviços, exagera no desempenho ou, no pior dos casos, simplesmente rouba quando não podem dar um fim nela. Muitas empresas não são melhores que isso. A revolução de dados pode ajudar a garantir que dados verificáveis estejam acessíveis ao público em geral e aos destinatários dos serviços públicos e privados. Quando os serviços não chegam no horário devido, (digamos, um gargalo na construção ou corrupção na cadeia de abastecimento), o sistema de dados permitirá que o público identifique problemas e cobre a responsabilidade dos governos e das empresas.

Finalmente, a revolução de dados deverá permitir ao público saber se um objetivo global ou meta foi realmente alcançado ou não. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que foram criados no ano 2000, estabeleceu metas quantitativas para o ano de 2015. Mas, apesar de estarmos agora no último ano dos ODM, ainda falta saber exatamente se determinadas metas dos ODM foram atingidas, devido à ausência de dados de alta qualidade e oportunos. Alguns dos alvos mais importantes dos ODM são relatados com uma defasagem de vários anos. O Banco Mundial, por exemplo, não publica dados detalhados sobre a pobreza desde 2010.

A revolução de dados pode acabar com as longas defasagens e melhorar drasticamente a qualidade dos dados. Por exemplo, em vez de confiar em pesquisas domiciliares feitas periodicamente para calcular a taxa de mortalidade, os sistemas de registro civil podem coletar dados de mortalidade em tempo real, com o benefício adicional de informações sobre a causa da morte.

Da mesma forma, dados de pobreza poderiam ser levantados a um custo relativamente baixo e com frequência muito maior do que hoje, através do uso de telefones inteligentes para substituir pesquisas feitas em papel. Alguns analistas sugeriram que o uso de celulares pode reduzir o custo das pesquisas em até 60% em alguns países da África Oriental ao longo de um período de dez anos. Empresas privadas, tais como o Gallup International,  poderiam trabalhar em conjunto com as agências públicas de estatísticas mais tradicionais para acelerar a coleta de dados.

A revolução de dados oferece uma oportunidade de avanço na prestação de serviços, gestão, prestação de contas e validação, graças a um concentrado ecossistema de tecnologias que coletam informações de várias maneiras: sensoriamento remoto e imagens via satélite, dados biométricos, rastreamento de SIG, instalações com base em dados, pesquisas domiciliares, mídia social, colaborativa e outros canais.

Para oferecer suporte às Metas de Desenvolvimento Sustentável, tais dados devem estar publicamente disponíveis para todos os países na alta frequência – pelo menos no prazo de um ano para os principais objetivos e em tempo real em setores onde a prestação de serviços é vital (saúde, educação e afins). Empresas privadas, incluindo telecomunicações, empresas de marketing social, designers de sistemas, empresas de pesquisa e outros provedores de informação, devem estar integradas em um "ecossistema" de dados.

Na elaboração do novo relatório, a equipe das MDS reuniu-se com várias agências parceiras para preparar uma "avaliação de necessidades" sobre como iniciar a revolução de dados para as MDSs. O relatório oferece um plano de ação que se baseia nas parcerias entre os sistemas estatísticos nacionais e empresas de informações particulares e outros provedores de dados não-governamentais. Como salienta o relatório, países de baixa renda e média-baixa renda precisarão de ajuda financeira para criar esses novos sistemas de dados.

Enquanto as estimativas de custo são provisórias, especialmente na era da mudança tecnológica que provoca rupturas, o novo estudo sugere que os sistemas de dados adequados para as MDSs exigirá pelo menos 1 bilhão por ano para englobar todos os 77 países de baixa renda. Dessa soma, cerca da metade deverá ser financiada através de ajuda oficial ao desenvolvimento, que implica em um incremento pelo menos 200 milhões por ano além dos fluxos atuais de doações.

Agora é a hora de um compromisso pelo aumento de financiamento. Em julho, o mundo vai se reunir em Addis Ababa para a Conferência Internacional para Desenvolvimento de Financiamento e apenas algumas semanas depois, na sede da ONU para adotar as MDSs no final de setembro. Com uma ação rápida antes destas duas conferências, o mundo estará pronto para lançar as MDSs com os sistemas de dados que elas precisam para ter sucesso.

(Artigo publicado originalmente no site Project Syndicate)

Ponto de vista

A nova série swissinfo.ch acolhe doravante contribuições exteriores escolhidas. Tratam-se de textos de especialistas, observadores privilegiados, a fim de apresentar pontos de vista originais sobre a Suíça ou sobre uma problemática que interessa à Suíça. A intenção é enriquecer o debate de ideias.

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Roseli Honório, swissinfo.ch

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