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#WeAreSwissAbroad Yvette Meisser: onde o pastor prega o fogo do inferno

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Há uns cinco anos Yvette Meisser deixou a Suíça. Divorciada, com três crianças pequenas. O objetivo inicial era o México, mas depois os quatro permaneceram em Trinity, no Texas, uma pequena cidade no meio do nada. "Nós não queremos voltar para a Suíça. Nós não poderíamos retornar", disse ela, que é nativa de Davos. 

Yvette Meisser cavalgando nos Estados Unidos. 

Yvette Meisser cavalgando nos Estados Unidos. 

(zvg)

Yvette Meisser, 41, está sentada no Starbucks em Huntsville, uma pequena cidade do Texas, distante a pouco menos de cem milhas de Houston. Nós tínhamos combinado em fazer a entrevista via Skype. Na verdade ela queria fazer isso de sua casa, nos arredores de Trinity. Mas logo depois veio uma tempestade e um pinheiro caiu sobre as linhas telefônicas, que passam pela floresta onde Meisser vive, um pouco isolada com seus três filhos.

Por isso a cidade vizinha, Huntsville, por isso a Starbucks. Antes de começar a conversação pelo Skype, Meisser respondeu à pergunta se ela gostaria de contar a sua história: "Se ela ajuda alguma pessoa a ter a coragem de ir para o exterior e começar uma vida nova, eu apreciaria isso." 

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(swissinfo.ch)

Um povoado com dois semáforos

Trinity. Em algum lugar a leste da estrada interestadual 45, que liga Houston a Dallas. O povoado é pequeno. Trinity tem dois semáforos, diz a Wikipedia sobre as  "características geográficas". Tão minúsculo. Lá Meisser e seus filhos Ian, 17, Noelle, 16, e Diogo, 14, chegaram por acaso. Também na  casa: cães. "Temos dois enormes e dois pequenos", explica ela. Os cães pertencem àqueles que os salvam, com seus colegas, das brigas de cães locais, os reabilitam, passam para outros ou até mesmo ficam com eles - como um dos dois grandes. Estes também têm um propósito: "Aqui quase todo mundo está armado. Nós não. Nós temos cães ..."

O grande já expulsou uma vez, em plena luz do dia, um assaltante. E por esta área não tem só pessoas boas. De vez em quando ela se sente como na série de TV "Breaking Bad", lembra: "pessoas que tem uma fabricação caseira de metanfetaminas. E pessoas que sabem: alí vive uma estrangeira sozinha com três filhos." Então, o medo é uma companhia constante em Trinity? "Não, eu basicamente não me preocupo", diz ela com firmeza.

O país de Trump

Medo. Isto é um peso para uma grande parte dos seus conterrâneos. Por exemplo, os eleitores de Donald Trump. Estes são maioria em  Trinity, mais de 80 por cento. "Eles votaram nele por medo" Meisser está convencida. "Pela tradição republicana. E porque o nível de educação é muito baixo aqui." Eles têm consciência de que são dependentes da "Obamacare", a lei federal que dá o acesso a um seguro de saúde mais fácil para todos – contra o qual Trump sempre lutou. "No entanto, eles escolheram Trump. Porque eles só entendem seus slogans curtos."

Mas quando o mundo exterior ataca o Texas e suas retoricas republicanas campesinas, a suíça se irrita: "Porque isso não é uma verdade padronizada." Ela refere-se às principais cidades: Houston, Dallas, Austin, San Antonio e El Paso, que elegeram, todas elas, democratas e, portanto, também nesta eleição estavam contra Trump. "Mas isso não foi suficiente", ela sabe.

Uma coisa Meisser percebeu rapidamente em Trinity: “aqui poucos leem o jornal. Em todos os lugares a televisão está ligada. Mas só o canal Fox, nunca a CNN. E o que é dito lá eles acreditam aqui. Um slogan como 'democratas querem roubar sua liberdade' é o suficiente, e as pessoas já ficam com medo. As mentiras de Trump já nem perturbam mais. Medo da perda da "liberdade", uma palavra cujo significado muitos já nem podem explicar, diz Meisser. Medo dos imigrantes ilegais. "Sim, nós temos", diz ela. "Principalmente crianças. Elas vêm de ônibus do México, a apenas 150 milhas de distancia. Os que protestam depois gritam com as crianças dizendo que elas devem retornar. E muitos dos que amaldiçoam os imigrantes ilegais empregam mexicanos, que cortam a grama para eles por cinco dólares americanos por hora."

E o medo dos muçulmanos. "Mas nós aqui não", disse Meisser. Isso se tornou medo, com a experiência de seus filhos na escola: "O professor de história, um ex-pastor, lhes ensina que os muçulmanos destroem o mundo" 

swissinfo.ch

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Igreja influente

Trinity e a religião. Trinity também significa trindade na teologia cristã. "A Igreja tem grande influência aqui", diz Meisser. "Você vai lá duas vezes por semana." Ela mesma foi uma vez, por curiosidade no Natal, com o filho Ian. "Nós entramos, o pastor falou do fogo do inferno que nos espera. Saímos para nunca mais voltar." Ela conhece pessoas que se deixam impressionar: "Seja o fogo do inferno, o ódio contra gays e lésbicas, ou racismo, todos são doutrinados." Ela fala dos colegas de pele escura do time de futebol de Ian, que foram provocados por colegas brancos no dia após a eleição de Trump, que diziam que sua hora havia chegado. Ou a amiga de escola de sua filha Noelle, que morava com suas duas mães, mas enfatiza que elas não são lésbicas – afinal elas são devotas.

Meisser já tirou seu filho Ian da escola em Trinity, e o matriculou em uma escola particular em Huntsville. Ela planeja o mesmo para as duas crianças mais novas.

Zona de recrutamento de delinquentes

Meisser trabalha em Woodlands, um subúrbio de Houston. Ela dirige seis vezes por semana 70 milhas de ida e volta, e vende seguros de vida. "A indústria de seguros aqui é assustadoramente complicada. Se você sabe, pode ganhar dinheiro com isso." Meisser tem esse emprego, ela tem um seguro, ela está satisfeita. "Porque isso é mais do que a maioria tem aqui. Daqueles empregos, prometidos pelos republicanos, por um pagamento de pouco menos de sete dólares por hora, você precisa de três deles. Por fim há pessoas aqui que vivem em um estábulo e ainda assim estão satisfeitas".

Ele exerce seu emprego atual pela segunda vez. Entremeios Meisser trabalhou na prisão juvenil local, supervisionando jovens detentos de 15 a 18 anos de idade. Depois de dois anos, não pôde mais: "Porque eu levei trabalho para casa, isso foi brutal." Ela viu as coisas cruéis que podem ser feitas às crianças. "As prisões são aqui o melhor lugar para o recrutamento de delinquentes. Isso é triste, estas são crianças que tem  a mesma idade que as minhas." 

Yvette Meisser posa para a foto em um canyon em Amarillo, no Textas.

Yvette Meisser em um canyon em Amarillo, no Textas.

(zvg)

Esforço com as crianças

Sobre os seus próprios filhos, ela não tem medo, diz Meisser. No Texas elas tem que provar o que podem. No início, em 2011, antes do primeiro ano escolar, eles não podiam falar Inglês. "Eu os ensinei duas ou três frases fundamentais para a escola." As metas a serem alcançadas, dadas pela  escola eram: três meses para aprender Inglês, seis meses para obter boas notas. A mãe tomou as rédeas. "Eu solicitei o pagamento da pensão na Suíça e fiquei um ano em casa, a fim de aprender com as crianças. De qualquer maneira eu não tinha permissão de trabalho nos Estados Unidos naquele momento." Agora, cinco anos depois, ela tem um cartão verde, seus filhos também devem, assim ela espera, recebe-lo em breve.

Esse foi um dos motivos pelos quais Meisser deixou a Suíça. Querer ser deixada em paz. "Na Suíça, ninguém te deixa em paz. Pior ainda quando se é uma mãe solteira. Constantemente te dizem o que você tem que fazer. Todo o tempo a pessoa tem dúvida se pode fazer algo certo. Eu não preciso disso." Meisser estava acostumada a viajar: "Eu estava na estrada sempre que podia", diz ela. "Eu sinto falta de Davos e da neve no inverno", diz ela. "E eu gostaria de ver meus pais mais frequentemente."

E mesmo que possa parecer inacreditável para muitas pessoas na Suíça, Meisser ama esta vida no Texas. Só falamos até agora sobre as loucuras e sobre Trump, e de como ele entrega aos tolos a justificativa para a misoginia, racismo, violência e tudo o que é feio" como descreve Meisser. Ainda assim, isso não é certo, diz ela. Pois  há coisas boas no Texas e, acima de tudo, pessoas de bem, diz ela, e fala de seu vizinho de 80 anos que lhe deu, espontaneamente, um carro quando o seu quebrou, para que ela pudesse continuar indo ao trabalho.

"As pessoas aqui podem ser realmente muito legais quando elas querem, e isso é mais importante do que a mera cortesia", diz ela. No entanto, a razão mais importante é "a liberdade, que aqui é maior do que em qualquer outro lugar." Em casa Meisser colocou uma placa na parede: "Viva selvagem e livremente - ou morra." E ela tem a esperança de que muitas das coisas ruins para eles no Texas se transformem em coisas boas. "Os meninos já votaram em sua maioria democratas, então em quatro anos tudo será melhor."

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Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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