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14 de setembro de 2018 Depressão faz mais vítimas entre quem vive longe de casa

A psicóloga Luciana Straub vive na pele as maravilhas e agruras de ser uma estrangeira em solo suíço. O lado positivo ela confirma pela família que construiu e pelo trabalho que realiza como moderadora terapêutica de grupos de brasileiras no cantão da Turgóvia e tradutora. Já o negativo ela mostra em números: estudos indicam que a depressão acomete quase duas vezes mais o grupo de migrantes que o restante da população.

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Luciana Straub: "No auge do desencantamento, as dificuldades enfrentadas no país estrangeiro tomam uma proporção enorme."

(swissinfo.ch)

Quando a comparação é o gênero, a mulher também apresenta desvantagem: a doença atinge 21% de mulheres e 13% dos homens. Como a migração brasileira na Suíça é em maioria feminina, o tema ganha mais relevância.

Dificuldades em se aprender uma nova língua, a obrigação da reinvenção, a saudade da família e dos amigos, a falta do sol e mais uma série de adversidades enfrentadas por um migrante podem levar ao desenvolvimento da doença. Entre as mulheres, há ainda alguns personagens extras para atrapalhar: as mudanças hormonais.

Por sua experiência pessoal e acadêmica como psicóloga, foi convidada para palestrar, no dia 19 de setembro, em evento promovido pelo Centro Brasileiro de Integração (Cibra), em Solothurn. O tema do encontro será Depressão no Processo Migratório. swissinfo.ch conseguiu conversar com a psicóloga antes da palestra e adiantar um pouco o que será falado.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Você profere palestra no Cibra sobre depressão. Como essa doença afeta os migrantes na Suíça?

Luciana Straub: As pessoas geralmente chegam encantadas ao país. Como diz a minha irmã, a Suíça é uma casa de bonecas de tão bonitinha, tão diferente do Brasil que a gente conhece. Dessa forma, logo que se chega, vive-se essa fase do encantamento. Eu mesma, quando desembarquei aqui, olhava pela janela do trem e via aquelas plantações lindas, as cores mudando com a troca das estações, e ficava maravilhada.

Só que esse encantamento passa. E aí começa o choque. Tudo que era lindo começa a incomodar. Quem está no Brasil, entretanto, não vê isso, nem ouve falar. Apesar do país viver esse momento complicadíssimo, o migrante que está aqui vivendo essa fase de decepção quer voltar, porque esquece desses fatores econômicos ou das mazelas. O Brasil, ou o país da onde a pessoa vem, nesse período, é o único que serve, que é bom.

O primeiro choque dá-se na confrontação com a língua. A gente tem que reeaprender quase tudo, volta para antes do jardim de infância; não sabemos nem falar. Conforme o tempo passa, vamos acumulando muitas perdas. E quando nos damos conta, começamos a viver o luto por essas privações.

Para aqueles que migram para a parte germânica, é ainda mais complicado. Se deparam com a língua alemã, que é mais difícil de aprender. Costumo dizer que trata-se de um idioma que se estuda muito, mas cujos resultados demoram para serem mostrados. E quando a pessoa tem coragem de iniciar uma conversa na rua, ainda precisa lidar com as respostas em dialeto.

No auge do desencantamento, as dificuldades enfrentadas no país estrangeiro tomam uma proporção enorme. Até o silêncio incomoda. E nesse processo, o migrante pode começar a se deprimir.

É quando percebemos que as conquistas não vêm, seja pelo aprendizado da língua ou pela busca de um emprego. Tem gente que se isola, o que acaba piorando a situação.

swissinfo.ch: Pelo seu relato e pelo que ouço de vários estrangeiros que vivem aqui na Suíça, concluo que esse migrante não esperava encontrar essas dificuldades. O fator surpresa acaba por não prepará-los para esses desafios, não é verdade?

L.S.: Concordo. Esses pequenos detalhes, que nos passam despercebidos quando estamos na nossa terra, são muito mais pesados aqui. Quando deixamos o Brasil, perdemos status social, emprego, nossa cultura, amigos, família, nosso solo, sol e mais uma infinidade de coisas. Todas essas supressões podem fazer com que a pessoa adoeça, seja por doenças psicossomáticas ou até uma depressão.

swissinfo.ch: Obviamente nem todos irão desenvolver uma depressão.

L.S.: Nem todo mundo terá depressão, que é uma doença. Mas a maioria irá enfrentar o choque cultural, essa fase da crise e de profundos questionamentos.

swissinfo.ch: E como é essa depressão no migrante? Como se dá?

L.S.: A depressão está ligada a alguns fatores: biológicos (genética, gênero, idade), psicológicos, sociais e uso de alguns medicamentos. Dependendo dessa mistura, pode-se ou não apresentar um quadro depressivo.

É importante saber que algumas pessoas têm mais tendência que outras. Mas isto também é influenciado pela forma como os fatores ligados à mudança se relacionam. O que se sabe é que as mulheres têm mais propensão que os homens, em termos gerais - 21% mulheres e 13% homens. Essa diferença deve-se, em muito, à turbulência hormonal que a mulher vive ao longo da sua vida. Mas se pegarmos o grupo de migrantes no mundo, teremos quase duas vezes mais incidência da doença do que na população em geral. Por quê? Porque os fatores sociais e psicológicos desse grupo jogam contra a saúde, digamos assim. O migrante saiu do seu habitat natural, tem dificuldades com a língua, tem saudade, geralmente uma nova posição social e/ou profissional, enfim, tudo que eu já mencionei. Soma-se a isso a parte psicológica, que fica fragilizada principalmente na fase de choque, com sintomas como baixa autoestima, dificuldade em lidar com o estresse, baixa tolerância à frustração e outros inúmeros.

swissinfo.ch: E o que você aconselharia às brasileiras para evitar ou pelo menos minorar o problema?

L.S.: Eu diria que uma das principais medidas é procurar ajuda profissional e grupos de apoio e não se isolar. O que me ajudou muito a não adoecer, na época do meu choque, foi reconhecer que eu não estava bem e pegar um avião para Salvador, minha cidade natal, para recarregar as energias, tomar banho de mar, de sol, de muito carinho e falar com um profissional sobre toda a mudança.vivida.

Aprenda o idioma da região onde mora, procure se integrar a vida suíça. Mas cuidado com assimilação total da rotina daqui, negando, algums vezes sua história, seu passado. É uma questão de equilíbrio, entende? A integração ajuda minimizar o choque cultural, e por sua vez, evitar o adoecimento. É importante também cultivar amigos brasileiros, falar português, procurar conversar com pessoas da nossa cultura.

Eu faço parte da organização de um grupo de brasileiras na Turgóvia, o Grupo Equilíbrio. Além de organizarmos palestras com temas diversos, também trocamos experiências, desabafamos e nos divertimos bastante.

swissinfo.ch: E como reconhecer se a pessoa sofre de depressão?

L.S.: Preste atenção em sintomas como humor deprimido, apatia, falta de interesse pela rotina, sono excessivo ou perda dele, mudança de apetite, dores sem causa física. Quem tem pai ou mãe com a doença, é importante ficar mais atento. O peso genético, às vezes, é forte

Para quem tem ou desconfia que esteja sofrendo da doença, procure ajuda profissional. Não tenha vergonha e não se apegue a rótulos. Psiquiatra e psicólogo não é sinônimo de maluquice! Procure a ajuda. Este é o primeiro passo. Tenha sempre em mente: sair do nosso país significa recomeçar. Tem que tomar as rédeas da mudança. É difícil, mas dá para superar. Se tiver depressão, vença com tratamento. Se não tiver, supere os obstáculos da migração com paciência, foco e amigos. E não deixem de comparecer no Cibra no dia 19 de setembro. Lembre-se da importância de debater essas questões para se fortalecer.

Mais informações sobre a palestraLink externo do Cibra: Do Encantamento à Depressão: A Depressão no Processo Migratório

Dia 19 de setembro, às 19 horas, no Infocenter Citywest, Brunngraberstrasse 2, Solothurn

Participação gratuita

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