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John Kerry discursa ante plenário da reunião de Kigali

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A comunidade internacional adotou neste sábado, em Kigali, um acordo que visa à eliminação progressiva dos hidrofluorocarbonos (HFC), um dos gases do efeito estufa considerados muito nocivos para o clima.

"No ano passado, em Paris (durante a COP21), prometemos proteger o mundo dos piores efeitos da mudança climática", afirmou o diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Erik Solheim, citado em um comunicado. "Hoje honramos esta promessa".

Juridicamente vinculante, o acordo de Kigali supõe um passo importante na luta contra o aquecimento climático e permite dar um sinal positivo a menos de um mês da próxima grande conferência anual sobre o clima, a COP 22, em Marrakesh (Marrocos).

Alcançado depois de uma noite inteira de negociações, o acordo, que introduz uma emenda ao Protocolo de Montreal sobre a proteção da camada de ozônio, foi amplamente celebrado, apesar de alguns lamentem que países como a Índia ou os do Golfo tenham decidido iniciar sua transição mais tarde que outros.

"Não era totalmente o que desejávamos, mas continua sendo um bom acordo", declarou o representante das Ilhas Marshall, Mattlan Zackhras. "Todos sabemos que temos que fazer mais e faremos mais".

A eliminação dos HFC, usados em geladeiras, frigoríficos e aparelhos de ar condicionado, é um tema espinhoso para a Índia, e foram requesitadas várias reuniões bilaterais na sexta, inclusive com a participação do secretário de Estado americano, John Kerry, para desbloquear as conversações.

"A diplomacia não é algo fácil, mas podemos trabalhar juntos para deixar para nossos filhos um planeta mais seguro, mais próspero e mais livre do que o que herdamos", declarou o presidente Barack Obama em comunicado.

- Primeiro teste sério -

O calendário adotado este sábado prevê que um primeiro grupo de países, os chamados desenvolvidos, reduza sua produção e consumo de HFC em 10% antes do final de 2019 em relação aos níveis de 2011-2013, e 85% antes de 2036.

Um segundo grupo de países em vias de desenvolvimento, entre eles a China - o maior produtor mundial de HFC - e os africanos, se comprometeu a iniciar sua transição em 2024. Deverão alcançar uma redução de 10% em relação aos níveis de 2020-2022 para 2029 e de 80% para 2045.

Um terceiro grupo de países em desenvolvimento, incluindo Índia, Paquistão, Irã, Iraque e os países do Golfo, não começará, por sua parte, até 2028, para chegar a uma redução de 10% em relação ao período 2024-2026 em 2032 e de 85% em 2047.

"É uma vergonha que a Índia e alguns países tenham escolhido um programa mais lento", criticou a ONG Christian Aid, admitindo, no entanto, que a comunidade internacional em seu conjunto "superou seu primeiro teste sério" em termos de política climático desde a COP21.

Com o Pacto de Paris, a comunidade internacional se comprometeu em atuar para conter o aumento da temperatura médiua a menos de dois graus centígrados em relação à era pré-industrial e vai continuar com os esforços para limitá-la a 1,5ºC.

A eliminação dos HFC, também utilizados em alguns aerosóis ou na fabricação de espuma isolante, poderá reduzir em 0,5 ºC o aquecimento mundial até 2100, segundo um estudo publicado em 2015.

Até 2030, permitirá evitar a cada ano até 1,7 gigatoneladas de equivalente de CO2, ou seja, as emissões do Japão.

- Alternativas -

Os HFC são gases de efeito estufa sumamente nocivos, proporcionalmente muito piores que o dióxido de carbono, e as emissões aumentam a um ritmo de 10-15% por ano.

São utilizados desde os anos 1990 em substituição ao CFC (clorofluorocarbonos), principais responsáveis pela destruição da camada de ozônio.

Mas apesar de serem bons para o ozônio, são desastrosos para o clima.

Segundo Paula Tejón Carbajal, do Greenpeace, o acordo de Kigali só terá êxito se a comunidade internacional optar por soluções de mudança que preservem o meio ambiente.

Os participantes confirmaram, além disso, seus compromissos para financiar a transição. No final de setembro, 16 países e 19 organismos e doadores privados reunidos em Nova York prometeram uma ajuda de 80 milhões de dólares para os países em desenvolvimento.

O custo da transição, avaliado em milhares de milhões de dólares em escala mundial, voltará a ser discutido no final de 2017, dentro do Protocolo de Montreal.

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