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(6 jun) Venezuelanos retornam ao país após comprarem mantimentos na Colômbia

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Eugênia quer emigrar, Jenner vende menos, Elizabeth chora por seu irmão assassinado, Yasmari luta por remédios e Denia faz contrabando. Dificilmente algum venezuelano escapa da crise.

O país com mais reservas petrolíferas do mundo enfrenta uma seca de divisas devido à queda do preço do petróleo, e isso levou o governo a restringir mais o acesso aos dólares. Com menos divisas, há menos importações, e a Venezuela compra quase tudo o que consome. A inflação sobe, os salários diminuem, há escassez e crime.

Tudo isso enquanto o presidente Nicolás Maduro e a maioria parlamentar opositora travam uma luta de poderes e se culpam mutuamente pela situação. A seguir cinco pequenos relatos da crise.

A frustração

Na "El Goloso" - uma barraca de rua de fast-food em Caracas - há cada vez mais dinheiro, mas menos vendas. A inflação e a desvalorização se misturam. O dinheiro "é uma ilusão. Quando chego em casa penso que trago algo, mas quando vou pagar a conta percebo que não tenho nada", afirma desconcertado Jenner Morón, administrador da barraca.

A Venezuela tem a inflação mais alta do mundo: 180,9% em 2015 (oficial), e para 2016 o FMI prevê que chegará a 720%. Os bolívares viram fumaça. Há quatro anos, um cachorro-quente custava 22 bolívares, enquanto hoje é preciso pagar 500 (80 centavos de dólar pela taxa oficial mais alta e 48 centavos pelo mercado negro).

Jenner, de 21 anos, chegou a vender 500 cachorros-quentes por dia; atualmente esse número chega apenas a 120. "Recebemos mais dinheiro, mas ganhamos menos".

Além disso, é preciso lidar com dinheiro vivo em uma das cidades mais perigosas do mundo. Uma venda média de 120.000 bolívares representa 1.200 notas de 100 (a mais alta). Jenner leva os valores a um depósito quatro vezes por dia.

A dor

"As entranhas doem!". Sentada nos arredores do necrotério de Caracas, Elizabeth Arana chora. Seu irmão Roswill, um policial de 28 anos, morreu baleado na noite de sábado. "Os policiais também são vítimas", comenta um oficial que acompanha o caso.

No ano passado ocorreram 17.778 homicídios (58,1 para cada 100.000 habitantes), segundo o Ministério Público. A ONG Observatório Venezuelano de Violência estima que 27.875 pessoas morreram violentamente em 2015 (90 para cada 100.000). Em ambos os casos, o número é muitas vezes maior que a média de homicídios no mundo: 8,9 homicídios para cada 100.000 habitantes, segundo a Organização Mundial de Saúde.

O Ministério Público conta apenas os casos que tipifica como assassinatos, enquanto a ONG inclui todas as vítimas por armas, incluindo os mortos em ações policiais, que a priori são considerados resistência à autoridade.

Arana morreu um mês depois de seu aniversário e deixa um filho de quatro anos. A imprensa especula que quiseram roubar sua moto, mas Elizabeth acredita que "ordenaram sua morte". "A crise econômica está aumentando os crimes e a violência de uma maneira inédita", indica Roberto Briceño, diretor do Observatório.

A fragilidade

Em novembro de 2014 foi diagnosticada com câncer de mama, foi operada com êxito e iniciou a quimioterapia. Mas em janeiro deste ano não encontrou mais remédios. Yasmari Bello, uma administradora de 39 anos, temia então por sua vida e lançou uma campanha nas redes sociais para encontrar os medicamentos. Um dia saiu para protestar com 60 doentes de câncer na mesma situação.

"Suspenderam meu tratamento entre janeiro e maio. Sofri estresse, perdi peso, senti que havia lutado por meses e que podia piorar". Atualmente 85% dos remédios não são encontrados, segundo a Federação Farmacêutica Venezuelana.

A falta de divisas para pagar os laboratórios esvaziou as prateleiras. Bello se salvou de uma recaída graças ao envio a partir da Espanha dos remédios que precisava. Tem medicamentos até meados de julho. "Não culpo o governo nem a oposição, sou apenas uma paciente que busca soluções".

A desilusão

Estudante de farmácia e funcionária em uma clínica, Eugenia Parra perde tempo em longas filas e para comprar alimentos subsidiados.

"Tudo aqui é uma fila, para tirar dinheiro, para comprar comida", lamenta esta mulher de 28 anos em uma destas filas.

Embora pudesse comprar devido ao número da senha que recebeu, precisou ir embora de mãos vazias porque não queria perder aula. O alto custo de vida a leva a buscar preços regulados. Acentuada desde 2013, a escassez de alimentos básicos é de 80%, segundo a empresa Datanálisis.

Seis em cada dez venezuelanos precisam fazer filas de até oito horas para se abastecer, segundo Anauco, ONG de defesa dos consumidores. O resto paga para que façam fila ou compra nos "bachaqueros" (revendedores).

Os protestos por comida começaram a degenerar em saques, que deixaram cinco mortos em junho. "Um 'bachaquero' ganha mais que um profissional. Não tenho esperança de nada. Se houver oportunidade, vou embora (do país). Seguir aqui é perder a juventude", afirma Eugenia.

A necessidade

Denia obtém até 4.000% de lucros por um quilo de açúcar. Seu salário como zeladora não é o suficiente e revende produtos subsidiados. É "bachaquera".

"Faço fila onde há oportunidade" de comprar, conta a mulher, que também faz contrabando de arroz e farinha. Subsidiado, o açúcar custa 70 bolívares (11 centavos de dólar na taxa oficial mais alta), mas ela o vende por 3.000.

Quando está disponível, o governo entrega por pessoa duas unidades semanais de cada produto. Mas Denia consegue mais com a cumplicidade de funcionários e distribuidores corruptos. O "bachaqueo" - pela formiga "bachaco" - é uma fonte ilegal de renda em meio à voraz inflação.

O governo esquerdista vincula esta atividade com uma "guerra econômica da burguesia" e a penalizou com até cinco anos de prisão.

Denia, de 52 anos, se justifica: com um salário mínimo de 33.636 bolívares "ninguém vive". Este valor equivale a 54 dólares na taxa oficial. Mas para a escritora Thays Peñalver, o "bachaqueo" é a "exploração do pobre pelo pobre".

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