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A presidente afastada Dilma Rousseff, em Brasília, no dia 24 de agosto de 2016

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A presidente afastada Dilma Rousseff enfrenta, a partir desta quinta-feira, a fase final de seu julgamento político, que provavelmente concluirá com a sua destituição e com a saída da esquerda do poder no maior país da América Latina.

Se este for o desfecho, o mandato de Dilma será completado até 2018 por Michel Temer, seu ex-vice-presidente transformado em arqui-inimigo, e que governa desde maio, quando a presidente de 68 anos foi afastada do poder por acusações de violar as normas fiscais, ao maquiar o déficit orçamentário em um procedimento que ficou conhecido como "pedaladas fiscais".

"Vou votar a favor do impeachment, que é um instrumento político que nos permite tirar do podem quem está fazendo mal uso dele", afirmou Simone Tebet PMDB-MS), após o início dos debates no Senado.

O final deste dramático julgamento político ocorre após meses de tensões, que dividem um país castigado por uma recessão galopante, um desemprego crescente que afeta mais de 11 milhões de pessoas e um maciço escândalo de corrupção que atinge toda a classe política, tanto na esquerda quanto na direita.

"Qual é a moral desse Senado para julgar a presidente Dilma?", questionou a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

Mais da metade dos 81 senadores que decidem o futuro político da chefe de Estado afastada são citados ou investigados em casos de corrupção.

As pesquisas indicam uma tendência praticamente irreversível em favor da destituição, que requer uma maioria especial de 54 votos (dois terços) dos 81 senadores.

Na segunda-feira, a própria Dilma Rousseff fará a sua defesa. Assim que for concluída, terá início a votação final, em que se decidirá pelo fim antecipado de seu mandato ou por seu retorno ao poder.

Um final inesperado

"Começa o dia da vergonha nacional", condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, padrinho político de Dilma, durante ato no Rio de Janeiro.

A destituição de Dilma também é um final inesperado de governo para o emblemático Partido dos Trabalhadores, a gigantesca força de esquerda de Lula e Dilma que assumiu as rédeas do poder há 13 anos.

Dilma recebeu um país com o legado de uma economia em expansão deixado por seu padrinho político, galgada por programas sociais, como o Bolsa Família, reconhecidos internacionalmente.

Nos primeiros anos de glória do PT, o país foi escolhido para celebrar a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos, este ano, os primeiros da América do Sul.

Mas este "boom" econômico, que foi motor de crescimento para a região, começou a cambalear durante o primeiro governo de Dilma. E atualmente já ficou para trás.

O descontentamento social cresceu, as mobilizações ao som de "Fora Dilma!" se multiplicaram e a popularidade da presidente desabou. Dilma não conseguiu dar a guinada que o país precisava para fazer sua economia voltar aos trilhos.

A tempestade perfeita aconteceu com as revelações de grandes escândalos de corrupção. O maior e mais noticiado foi a gigantesca trama de desvio de dinheiro na Petrobras que custou mais de 2 bilhões de dólares à empresa.

As acusações atingiram em cheio o PT e chegaram ao próprio Lula (2003-2010).

"Golpe de Estado"

Caso seja condenada, Dilma ficará impedida de ocupar cargos públicos por oito anos. Se for absolvida, a economista de caráter estoico e que militou na guerrilha marxista durante a ditadura (1964-1985), retorna imediatamente ao comando do país.

Dilma insiste que é "inocente" e denuncia ser vítima de um "golpe de Estado" orquestrado por Temer, do PMDB, seu companheiro de chapa em 2014 para vencer as eleições.

Além de manipular dados que permitiram ocultar a verdadeira situação das contas públicas de seu governo, Dilma é acusada de emitir linhas de crédito extraordinárias sem o aval do Congresso.

Dilma afirma que estas eram práticas correntes no País.

Isolada, a presidente viveu uma espécie de exílio no Palácio da Alvorada, a residência oficial.

A suspensão temporária, em maio, de Dilma Rousseff melhorou levemente a confiança no país, sob o governo interino de Temer.

Recuperar a economia, com prováveis medidas de austeridade, é apenas um dos desafios enfrentados por Temer, caso ele permaneça no cargo. E tudo isso com uma popularidade de apenas 13% e sem a legitimidade das urnas.

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