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O artista contemporâneo Nazim Dikbas, em Istambul, no dia 30 de julho de 2016

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Os artistas de Istambul tentam sobreviver sem ceder ao pessimismo apesar dos atentados, dos ataques à liberdade de expressão e dos expurgos maciços após o frustrado golpe de Estado que estremeceram a Turquia nos últimos meses.

A cidade, que no início desta década era considerada um centro de arte contemporânea "já não é um lugar de sonhos e estamos isolados", disse à AFP Vasif Kortun, diretor do Salt, um centro particular de arte inaugurado em 2012 no bairro de Gálata.

"Antes, ao menos uma vez por mês, curadores ou artista estrangeiros vinham me ver. Mas este ano não vi quase ninguém", explica uma artista de Istambul, preocupada com as dificuldades dos jovens criadores turcos em serem conhecidos no exterior.

Os atentados, a retomada da guerra contra os curdos e o endurecimento do regime do islamita-conservador Recep Tayyip Erdogan têm tido consequências no mundo da arte.

"É um país onde cada vez mais é difícil viver, sobretudo no mundo da arte, que necessita de liberdade de expressão", explica Kortun, que também dirigiu um museu em Nova York e há anos coloca em contato artistas turcos com estrangeiros.

O centro Salt, com um cinema, uma midiateca e vários ateliês, é como uma fonte de oxigênio, segundo vários estudantes que frequentam o espaço e que lamentam o aumento da intolerância no país, principalmente dos partidários do poder.

Entretanto, Vasif Kortun e os artistas consultados pela AFP rejeitam a tentativa de golpe de 15 de julho contra Erdogan. "Não quero ver nunca mais um 'putsch' (golpe de Estado) neste país", afirmou Pinar Ögrenci, artista visual e escritora que já viveu as consequências "perigosas e nocivas" do golpe de 1980 na Turquia.

Vasif Kortun também denuncia o "perigo" que supõe o movimento de Fethullah Gülen, o religioso exilado e acusado pelo governo de ter organizado o golpe.

Pressões das autoridades

A guerra contra a rebelião do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PEKK), que foi retomado em 2015, também tem consequências para os artistas.

Há algum tempo, um policial civil se mostrou indignado e quis protestar no centro Salt, que iria fazer uma projeção de um filme sobre os curdos. "Não está proibido", disse Kortun, mas que à noite recebeu uma ameaça pelo telefone: "Se voltar a ensinar esse tipo de coisa terá problemas".

Em janeiro, mais de 1.200 intelectuais e artistas assinaram uma "petição pela paz" que denunciava a violência do exército em suas operações contra os curdos.

Foram acusados de "traição" pelo presidente Erdogan e muitos estão sendo perseguidos ou perderam seus cargos de professor. "Nosso espaço de expressão está cada vez menor", disse à AFP uma dessas artistas que não quis se identificar.

As manifestações de 2013 para defender o parque Gezi, em Istambul, deu esperanças de uma mudança na Turquia, mas foram duramente reprimidas.

"É um erro pensar que de repente tudo fica pior pela tentativa de golpe, a Turquia já tinha problemas graves da liberdade de expressão antes, aprisionou jornalistas e defensores dos direitos humanos", recorda o cartunista Nazim Dikbas, que também traduziu Orhan Pamuk em inglês e Vladimir Nabokov em turco.

Na Turquia o Estado financia muito pouco a arte contemporânea e o diretor do Salt planeja agora converter o centro em um "monastério", um local para desenvolver novas ideias longe do entorno hostil.

Nazim Dikbas é menos pessimista e prefere continuar a luta.

"Não nos queixemos, acreditemos!", pede o cartunista, assegurando que inclusive as obras de arte que parecem não ter "uma relação direta com o que estamos vivendo (...) irão colaborar com algo positivo ao invés do medo, o estancamento e a divisão".

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