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Soldados sul-coreanos assistem a uma reportagem sobre o teste nuclear, em uma estação de trem de Seul

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A Coreia do Norte anunciou nesta sexta-feira que conseguiu detonar uma ogiva nuclear com capacidade de ser instalada em um míssil, no quinto teste nuclear do país, denunciado por Seul como um ato de "autodestruição" que mostra a "imprudência maníaca" de Kim Jong-Un.

O teste, o mais potente já realizado pelo Norte, de acordo com Seul, aumenta a tensão na península, onde as ambições nucleares e militares do isolado regime já foram condenadas em várias oportunidades pela comunidade internacional, com direito a duras sanções.

De acordo com a imprensa estatal norte-coreana, o teste desta sexta-feira permitiu a Pyongyang alcançar seu objetivo: miniaturizar uma ogiva nuclear para conseguir armar um míssil.

Nossos cientistas realizaram a detonação de uma ogiva nuclear de um novo tipo no sítio de testes do norte do país. O partido lhes envia uma mensagem de felicitação pela realização do teste bem sucedido", anunciou a TV oficial do país.

"Este teste nuclear confirmou a estrutura e as características específicas de uma ogiva nuclear que foi padronizada de maneira a ser montada em mísseis balísticos estratégicos", afirmou a agência estatal norte-coreana KCNA.

O presidente americano, Barack Obama, reagiu rapidamente e advertiu para "sérias consequências".

Os Estados Unidos estudarão, junto a seus aliados na ONU, novas sanções contra a Coreia do Norte, afirmou Obama, que denunciou uma "ameaça para a paz internacional".

"Nós chegamos a um acordo para trabalhar com o Conselho de Segurança da ONU (...) e a comunidade internacional para aplicar rigorosamente as medidas existentes impostas em resoluções precedentes e tomar medidas significativas suplementares, principalmente novas sanções", destacou Obama em um comunicado da Casa Branca.

A presidente sul-coreana, Park Geun-Hye, reservou palavras duras para o vizinho do Norte.

"O regime de Kim Jong-Un receberá apenas mais sanções e isolamento (...). Esta provocação acelerará sua autodestruição", disse.

Ela também destacou que o teste demonstra "imprudência maníaca" do dirigente norte-coreano.

Em um comunicado, a embaixada da Coreia do Norte em Moscou afirma que o teste não provocou "nenhum vazamento de substâncias radioativas".

O secretário de Estado americano, John Kerry, e o chanceler russo, Serguei Lavrov, expressaram preocupação após o teste nuclear.

O Conselho de Segurança da ONU vai se reunir nesta sexta-feira para abordar o quinto teste nuclear da Coreia do Norte.

Os 15 membros do Conselho se reunirão às 19H00 GMT (16H00 de Brasília) para consultas urgentes a pedido dos Estados Unidos e Japão, anunciou a delegação da Nova Zelândia, que este mês exerce a presidência rotativa do organismo.

- Busca de indícios -

As primeiras suspeitas sobre um novo teste surgiram depois que os sismólogos detectaram um tremor de 5,3 graus de magnitude perto da principal área de testes nucleares do país, na região nordeste da Coreia do Norte.

O tremor, registrado à 0H30 GMT (21H30 de Brasília, quinta-feira), aconteceu perto de Punggye-ri, no dia do aniversário da fundação da Coreia do Norte, instaurada em 1948.

"A explosão de 10 quilotons foi quase duas vezes mais potente que o quarto teste nuclear e um pouco menos que o bombardeio de Hiroshima, que tinha quase 15 quilotons", afirmou Kim Nam-Wook, da Agência Meteorológica Sul-Coreana.

O teste será analisado com cuidado pelos especialistas, que devem determinar se permitiu a Pyongyang fazer novos progressos e se envolveu uma bomba atômica ou uma bomba de hidrogênio, muito mais potente.

Os analistas se inclinam, de acordo com os dados disponíveis, pela hipótese de um artefato clássico.

Se a Coreia do Norte conseguir fabricar uma bomba nuclear suficientemente pequena para equipar um míssil e reforçar sua precisão, alcance e a capacidade de seus vetores, o país se aproximaria de seu objetivo final: alcançar alvos americanos.

A análise será difícil, destacou Melissa Hanham, do Instituto Middlebury de Estudos Internacionais.

"Não é realmente possível verificar que se trata de uma ogiva compacta a partir dos dados sísmicos", disse à AFP.

"Teria que ser observada em um teste com um míssil como a China fez nos anos 1960. Ninguém quer presenciar isto. Não há nenhuma forma de fazer isto de maneira segura, poderia ser o que desencadeia uma guerra", completou.

O Japão condenou um ato "absolutamente inaceitável", enquanto a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) citou uma operação "muito preocupante e lamentável".

- Pyongyang 'continuará' -

Desde o primeiro teste nuclear em 2006, o Conselho de Segurança da ONU aprovou cinco série de sanções contra Pyongyang.

A China, de quem as outras potências esperam que influencie Pyongyang a mudar de posição, "estará na posição mais delicada", afirmou Shunji Hiraiwa, professor da Universidade Kwansei Gakuin.

Pequim anunciou sua firme oposição ao teste nuclear.

Mas a margem de manobra de Pequim é limitada. A China tenta evitar a queda do regime norte-coreano, algo que criaria uma crise em sua fronteira e o risco de ver o país inclinado aos Estados Unidos.

O Instituto de Estudos Coreia-EUA da Universidade Johns Hopkins, que na quinta-feira já havia citado "novas atividades" em Punggye-ri, considera que o quinto teste comprova "o flagrante fracasso" da estratégia de Washington e de Seul para conter a corrida armamentista da Coreia do Norte.

"Ninguém deve ficar surpreso com o fato da Coreia do Norte continuar realizando testes nucleares para melhorar as capacidades de seu crescente arsenal. Ninguém deveria esperar da China que resolva o problema para os Estados Unidos", afirmou o analista Joel Wit.

Pyongyang anunciou que seu quarto teste nuclear, em 6 de janeiro, utilizou uma bomba de hidrogênio. A reivindicação foi questionada pelos especialistas, porque a energia desatada no teste era insuficiente para ser considerada uma bomba de hidrogênio.

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