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Dilma responde a perguntas no julgamento de seu impeachment

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Dilma Rousseff convocou o Senado a votar contra o seu impeachment e impedir "um golpe de Estado" no país, antes da votação final, que deverá decidir por sua saída da presidência.

"Estamos a um passo da consumação de uma grave ruptura institucional. Estamos a um passo da concretização de um verdadeiro golpe de Estado", denunciou Dilma durante sua emocionante defesa no Senado, na fase final de um julgamento que, se as previsões estiverem corretas, colocará fim a mais de 13 anos da esquerda no poder no Brasil.

"Um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador", acrescentou a ex-guerrilheira de 68 anos, que repetiu que é inocente.

Esta é a primeira oportunidade que a presidente, suspensa de seu cargo desde maio, teve para se defender no Congresso, antes da votação que decidirá sobre seu impeachment.

"Luto pela democracia, pela verdade e pela justiça. Luto pelo povo do meu País", afirmou.

"E por isso, como no passado, resisto", acrescentou.

- Isolada -

Cada vez mais isolada politicamente, em meio à pior recessão econômica desde a década de 1930 e com seu partido bombardeado por denúncias de corrupção, Dilma foi suspensa de seu cargo em maio, acusada de maquiar as contas públicas.

Após seu discurso, Dilma é interrogada por opositores e aliados diante do olhar de Luiz Inácio Lula da Silva, seu padrinho político e a figura que encarnou a decolagem do Brasil, o êxito da luta contra a pobreza e o presidente mais popular da história moderna.

Uma vez concluído o interrogatório, o plenário de 81 senadores decidirá o futuro governo do país em apenas uma rodada de votação.

Este será o ponto final de um processo que abala o país há nove meses, junto com uma economia em apuros e o descrédito de uma classe política atingida por escândalos de corrupção.

Os aliados de seu vice-presidente e presidente interino Michel Temer dizem ter entre 60 e 61 votos para garantir a condenação, mais dos 54 necessários, e todas as pesquisas apontam que apenas um milagre evitará a destituição de Dilma.

A presidente dá sua última cartada diante de um Senado que tem ao menos um terço de seus membros sob a lupa da Justiça ou já processados por casos de corrupção.

- Congresso cercado -

Desde que Dilma começou seu segundo mandato, o PIB retrocedeu 3,8% em 2015 e é projetada uma queda de 3,1% neste ano, o desemprego subiu até alcançar um recorde de mais de 11 milhões de pessoas, a inflação chegou aos dois dígitos e o déficit fiscal estimado supera os 45 bilhões de dólares.

A isso se somaram as revelações da Operação Lava Jato, uma rede política-empresarial de subornos que custou à Petrobras mais de 2 bilhões de dólares.

Dilma sempre alegou que o julgamento é, na realidade, "um golpe orquestrado" por Temer, que se tornou seu arqui-inimigo político e o provável presidente do Brasil pelos próximos dois anos.

No entanto, há tempos Dilma perdeu contato com suas bases. Nos arredores, o Congresso foi cercado e está protegido por mais de 1.300 policiais.

Mas até o momento as manifestações foram muito escassas.

"Estou na luta pela defesa da democracia e da dignidade do povo. Isso foi uma perseguição contra o PT, Dilma e o povo brasileiro", afirmou Marlene Bastos, uma professora aposentada de 65 anos.

Dilma foi acusada de autorizar gastos pelas costas do Congresso e adiar pagamentos ao banco público para melhorar artificialmente as contas públicas e seguir financiando programas sociais no ano de sua reeleição e no início de 2015, algo proibido pela Constituição.

Sua defesa afirma que as práticas questionadas também foram usadas de forma recorrente por governos anteriores, sem que fossem punidas.

Se for destituída, Dilma se tornará a segunda chefe de Estado a ser submetida a um processo de impeachment no Congresso brasileiro. O anterior foi Fernando Collor, mas ele renunciou antes de chegar a enfrentar os senadores na fase final do julgamento.

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