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A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, em Bruxelas

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Os Estados Unidos, a União Europeia e a Otan incentivaram nesta segunda-feira a Turquia a respeitar o Estado de direito e evitar empreender uma repressão generalizada após o fracassado golpe contra o presidente Recep Tayyip Erdogan.

"Pedimos ao governo da Turquia que respeite as instituições democráticas da nação e do Estado de direito", insistiu o secretário de Estado dos Estados Unidos John Kerry, depois de uma reunião em Bruxelas com os ministros das Relações Exteriores da UE.

Durante uma coletiva de imprensa com a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, Kerry disse que os Estados Unidos e a UE vão acompanhar de perto a situação na Turquia.

"O nível de vigilância e monitoramento será importante nos próximos dias", advertiu Kerry.

A tentativa de golpe de sexta-feira deixou ao menos 308 mortos, incluindo mais de 100 amotinados. Um total de 7.543 suspeitos presos sob custódia nesta segunda, entre eles 6.038 soldados, 755 juízes e 100 policiais.

"Nós ressaltamos hoje que o Estado de direito deve ser protegido para o benefício" da Turquia, já havia declarado anteriormente Mogherini.

A diplomata italiana, que coordena a ação externa da UE, também advertiu a Turquia que a sua candidatura à adesão à UE poderá ser questionada após as declarações do presidente Recep Tayyip Erdogan, no domingo à noite, evocando uma possível reintrodução da pena de morte no país.

"Nenhum país pode aderir à UE se introduzir a pena de morte", disse Mogherini. Uma declaração que ecoou a do porta-voz do governo alemão pronunciada quase ao mesmo tempo em Berlim.

"A introdução da pena de morte na Turquia significaria para a Ancara o fim das negociações de adesão à União Europeia", garantiu Steffen Seibert, porta-voz do governo alemão, durante uma coletiva de imprensa.

A Alemanha é o país europeu com a maior comunidade turca fora da Turquia. No sábado, a chanceler Angela Merkel, pivô do acordo UE-Turquia sobre os refugiados, já havia exortado Erdogan a tratar os golpistas respeitando o "Estado de direito".

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, telefonou para o presidente turco, indicou a Aliança Atlântica, da qual a Turquia é membro estratégico.

"É essencial para a Turquia, como para todos os outros aliados, respeitar plenamente a democracia e suas instituições, a ordem constitucional, o Estado de direito e as liberdades fundamentais", disse Stoltenberg.

Mas o chefe da Otan também voltou a condenar a tentativa de golpe e deu "apoio total às instituições democráticas turcas".

Washington pede provas

O pedido de adesão da Turquia à UE já havia esbarrado nas crescentes preocupações dos Estados-Membros do bloco quanto aos excessos autoritários do regime do presidente Erdogan em matéria de liberdade de imprensa e direitos humanos.

Ao chegar em Bruxelas nesta segunda-feira, o comissário europeu para as Adesões, Johannes Hahn, responsável pelo caso da candidatura da Turquia, sugeriu que o governo turco já havia preparado, antes mesmo da tentativa de golpe, um lista de pessoas a prender.

"Eu acredito que o fato de que as listas já estavam disponíveis logo após o evento mostra que elas foram preparadas para serem utilizadas em algum momento", observou.

Questionado sobre o pedido apresentado pelo presidente Erdogan a Washington para que extradite o pregador muçulmano no exílio Fethullah Gulen, acusado por Ancara de planejar o golpe, Kerry considerou que o regime turco deve apresentar "evidências, e não alegações" contra o opositor de 75 anos que vive recluso no nordeste dos Estados Unidos desde 1999.

Gülen, um inimigo jurado do presidente turco, é o líder de um poderoso movimento na Turquia, que tem escolas, ONGs e empresas sob o nome de Hizmet (Serviço, em turco).

Kerry, no entanto, disse em Bruxelas que uma solicitação de extradição não tinha sido encaminhada para Washington através de canais oficiais.

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