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Hillary Clinton, em Atlantic City, Nova Jersey, no dia 6 de julho de 2016

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Hillary Clinton pode respirar mais aliviada após evitar acusações que poderiam acabar com a sua campanha, apesar das críticas do FBI sobre seus e-mails poderem ainda complicar uma campanha cada vez mais apertada diante do republicano Donald Trump.

A procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, anunciou nesta quarta-feira que aceitou a recomendação do FBI para encerrar a investigação contra Hillary por uso indevido de um servidor particular para e-mails oficiais quando era secretária de Estado.

"Recebi e aceitei a recomendação unânime para que a longa investigação, que durou um ano, seja encerrada e que não se apresente qualquer acusação com parte deste trabalho", anunciou Lynch.

A procuradora-geral, que também ocupa o cargo de secretária da Justiça, informou ainda que se reuniu com o diretor do FBI, James Comey, e com "agentes que conduziram a investigação...".

Na terça-feira, Comey disse que Clinton e sua equipe foram "extremamente descuidados" na manipulação de informação secreta ou reservada, mas concluiu que não havia base para qualquer acusação contra a ex-secretária de Estado e recomendou o arquivamento do caso.

Em um comício em Cincinnati, Ohio, na noite desta quarta-feira, Trump afirmou que Hillary Clinton "fez muitas declarações falsas" e questionou: "Será levada diante do Congresso? Acontecerá algo? Isto é uma desgraça".

"Com base em tudo o que foi dito, todos assumiram que ela seria julgada (...) mas não apresentaram acusações. Isto é realmente formidável", ironizou.

"Hillary é enrolada. Isto é algo que todos devem saber", concluiu o candidato republicano.

A ex-secretária de Estado foi interrogada por agentes durante o feriado da independência dos Estados Unidos - no dia 4 de julho -, e o FBI anunciou suas conclusões na terça-feira (5), quando muitos eleitores ainda estavam relaxando, sem prestarem atenção nas notícias.

Mas se Hillary Clinton "se esquivou de um tiro", as críticas públicas do diretor do FBI, James Comey, podem antecipar uma briga política ainda mais dura no caminho das eleições de novembro, advertem os analistas.

Comey disse que 110 e-mails continham informações sigilosas (Clinton afirmou que nenhum deles tinha conteúdo sigiloso no momento em que foi escrito) e descreveu a candidata democrata como "extremamente descuidada" com informações sensíveis e disse que seus e-mails poderiam ter sido hackeados. A rigor, todas as notícias são ruins.

O lado positivo para Hillary, concordam os analistas, é que compete contra um homem ainda mais criticado, com opiniões mais questionáveis e que representa um partido que até agora não se uniu com ele.

Por sorte é o Trump

Trump se apoiou nas conclusões do FBI para qualificar Hillary como mentirosa e afirmar que o sistema está manipulado, fazendo um paralelo com David Petraeus, ex-chefe da CIA (Central de Inteligência americana), que foi declarado culpado por lidar de maneira equivocada com informação sigilosa.

O magnata republicano, que nunca desempenhou um cargo público, está quase cinco pontos atrás de Clinton, segundo uma pesquisa do Real Clear Politics.

"[Hillary] Tem muita sorte de competir com um homem com mais problemas", disse à AFP o analista político Stuart Rothenberg. "Ela é ruim, ele é pior".

Desde o surgimento do escândalo dos e-mails no ano passado, os críticos o interpretaram como uma evidência mais que desonesta, enquanto seus seguidores insistiam que ela não fez nada ilegal e que foi objeto de uma "caça às bruxas" dos republicanos.

"Não muda muita coisa na campanha", disse Rothenberg.

"A menos que fosse processada, a menos que o Departamento de Justiça acreditasse que ela incorreu em um comportamento criminoso, na realidade todo o dano já foi feito".

Se concorresse com um republicano como o carismático presidente da Câmara, Paul Ryan, o impassível moderado John Kasich ou, inclusive, Mitt Romney, que perdeu duas vezes para Barack Obama, os efeitos colaterais seriam piores, dizem especialistas.

A campanha de Hillary publicou rapidamente um comunicado em que se declara "satisfeita" com a decisão de encerrar o caso, enquanto a candidata passava a tarde de terça-feira (5) sorridente durante sua primeira aparição em campanha com Obama.

Sem mencionar em nenhum momento o FBI, o presidente ofereceu um entusiasmado apoio a sua ex-rival, afirmando que nenhum homem ou mulher é tão qualificado para o cargo.

Julian Zelizer, professor de História e assuntos públicos na Universidade de Princeton, assinala que a "linguagem bastante dura" de Comey provocará mais perguntas sobre a atuação de Clinton, mas duvidou que pudesse se tratar de algo decisivo.

"Talvez tenha ajudado um pouco o Trump. Se você não gosta dele, tampouco gostará mais dela, se for um republicano", disse Zelizer.

"O que eu acredito é que a declaração geral ainda ajuda e consolida o apoio que continua tendo, inclusive se é crítica, ainda que de novo ela se beneficie do fato de Trump ser seu oponente e a existência de muitas perguntas sobre seu critério".

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