Inspetores sanitários mostram pouca preocupação com qualidade da carne

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Especialistas analisam carne animal de diferentes mercados no Rio de Janeiro, em 20 de março de 2017

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Em meio ao escândalo da carne que ameaça uma das maiores indústrias do Brasil, três cientistas do governo mostraram pouca preocupação com uma pilha de carne picada em uma bandeja de laboratório.

"Isso parece muito bom", disse Roberta Ribeiro, coordenadora do Laboratório Municipal de Saúde Pública do Rio de Janeiro, enquanto olhava para o monte avermelhado de carne.

Ribeiro disse que os inspetores deram início a uma campanha para avaliar os vendedores de carne em todo o Rio, em resposta às alegações de que grandes frigoríficos estavam falsificando certificados de saúde e mascarando carne estragada para exportação.

"Com todas as notícias na mídia, com tudo o que aconteceu, decidimos intensificar nossa operação", disse Ribeiro.

Mas os cientistas, que trabalham em uma instalação de alta tecnologia, não esperam encontrar grandes problemas.

A higiene da produção brasileira de alimentos "é boa, acho que geralmente isso não é uma preocupação. Então, quando há uma operação policial como essa, ela se torna um escândalo", disse Ribeiro.

Quando lhe perguntaram se as revelações tinham feito com que ela pensasse duas vezes antes de comer carne produzida no Brasil ou de ir a uma churrascaria, Ribeiro, de 34 anos, riu.

"Eu sou carnívora", disse.

A polícia alega que a gigante do setor BRF e outras empresas exportaram carnes aprovadas por inspetores subornados para deixar passar produtos estragados ou alterados. As práticas supostamente incluíam misturar papelão com a carne de frango.

O laboratório no Rio, equipado com um dispositivo de captura de imagens em 3D e outros aparelhos complexos, testa a comida vendida localmente.

"Estamos procurando corpos estranhos e se o produto foi alterado, ou mascarado com uma substância ilegal", disse Ribeiro.

O objetivo para os inspetores agora, diz Ribeiro, é tranquilizar o público.

Ela concorda com a insistência do presidente Michel Temer de que as vendas de carne ruim são uma exceção à regra e que os consumidores não devem se preocupar excessivamente.

"Temos mais ou menos 4.850 fábricas de processamento, apenas três delas foram fechadas e 18 ou 19 serão investigadas", disse Temer na segunda-feira.

O agronegócio brasileiro não pode ser desacreditado por causa de "um pequeno grupo", acrescentou.

Os cientistas do laboratório do Rio não têm certeza de se a carne é particularmente perigosa quando se trata de riscos para a saúde.

"Eu acho que o peixe é a área mais problemática, porque se deteriora muito rapidamente", disse Julia Simões, colega de Ribeiro, citando as feiras ao ar livre da cidade, onde o produto fica exposto ao sol tropical.

"O peixe é ótimo, mas também tem muitos contaminantes", disse Ribeiro. "As pessoas dizem para comer muito vegetais, mas eu não concordo, há agrotóxicos. Você controla a água, o solo?"

Simões tentou pensar em algum alimento em que haja garantia de pureza, mas não conseguiu.

"Realmente, a comida apresenta um risco", disse.

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