Martin McGuinness: do comando do IRA ao convívio com a rainha

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(2016) O político norte-irlandês Martin McGuinness

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O político norte-irlandês Martin McGuinness, morto nesta terça-feira, aos 66 anos, transitou do comando do IRA a um papel de destaque no processo de paz, e conviveu com inimigos como a rainha Elizabeth II e o unionista Ian Paisley.

"Continuo viva", respondeu sorrindo a rainha ao seu interlocutor, McGuinness, um antigo comandante da organização armada republicana e pró-irlandesa que combateu as tropas britânicas e assassinou o primo de Elizabeth II, Lord Mountbatten, explodindo seu barco de pesca.

A cena, captada pelas câmeras, transcorreu em Belfast em junho de 2016, durante uma visita da rainha, e não era o primeiro encontro entre estes dois antigos inimigos.

McGuinness também chegou a desfrutar de uma boa relação com o homem que, a partir do outro lado da barricada, aceitou a paz para a província britânica, o feroz unionista Ian Paisley. Formavam uma dupla tão marcante que foram batizados de "irmãos Chuckle", como os comediantes ingleses.

As boas relações entre Paisley e a rainha simbolizam o percurso de James Martin Pacelli McGuinness desde seu nascimento, em 23 de maio de 1950 em Derry, um dos pontos mais quentes dos anos de chumbo da província britânica, até se assentar como vice-primeiro-ministro regional, posto que ocupou entre 2007 e 2017 sob três primeiros-ministros unionistas: Paisley, Peter Robinson e Arlene Foster.

- De subcomandante à mesa de negociações -

"A liberdade só pode ser conquistada com a ponta de um fuzil do IRA", disse em certa ocasião, antes de moderar o tom como líder do Sinn Fein, o braço político do Exército Republicano Irlandês.

Apesar disso, nunca renegou seu passado. "Fiquei orgulhoso de ser membro do IRA. Estou há 40 anos orgulhoso de ter sido membro do IRA. Não serei hipócrita, me sentar aqui e dizer algo diferente".

McGuinness abandonou a escola cedo, aos 15 anos, para trabalhar como aprendiz em um açougue.

No início dos anos 1970, entrou no IRA e ascendeu até subcomandante da organização em Derry, e em 1972 formou parte de uma delegação secreta que negociou em Londres um breve acordo de cessar-fogo.

Naquela década, passou tempo na prisão por sua adesão ao grupo, mas depois começou a se mover exclusivamente no plano político, junto a colegas como Gerry Adams, e em 1982 foi eleito deputado regional, embora não tenha assumido o assento em protesto pela situação na Irlanda do Norte.

Em 1997, o IRA decretou um cessar-fogo e McGuinness foi designado negociador-chefe do Sinn Fein nas negociações de paz que terminaram no Acordo de Sexta-Feira Santa de 1998, colocando fim a três décadas de confrontos abertos entre partidários de se integrar à Irlanda e leais ao Reino Unido que deixaram mais de 3.500 mortos.

McGuinness morreu apenas alguns meses depois de ter renunciado ao governo de unidade liderado por Arlene Foster, do Partido Unionista Democrático (DUP), em protesto pelas suspeitas de corrupção que cercavam a chefe de governo, filha de um fazendeiro a quem o IRA tentou matar.

A renúncia de McGuinness levou à convocação das eleições de 2 de março, às quais já não se apresentou, alegando razões de saúde.

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