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A primeira-ministr britânica, Theresa May (E), e a chanceler alemã, Angela Merkel, participam de coletiva de imprensa, em Berlim, no dia 20 de julho de 2016

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A chefe do governo alemão, Angela Merkel, e sua contraparte britânica, Theresa May, concordaram nesta quarta-feira (20) que o Reino Unido precisa de tempo para notificar sua saída da União Europeia, uma etapa que não ocorrerá em 2016.

O Reino Unido realizou, no entanto, um primeiro passo para se separar do bloco, ao renunciar à presidência rotativa do Conselho da União Europeia no segundo semestre de 2017, cuja organização será assumida pela Estônia.

A visita da primeira-ministra britânica à Alemanha, a primeira a um sócio da UE desde que assumiu o cargo, foi produtiva em relação às futuras negociações, principalmente quando a chanceler alemã se mostrou compreensiva a respeito do calendário.

"É de interesse de todos que o Reino Unido peça esta saída quando tem uma posição de negociação bem definida", disse Merkel em uma coletiva de imprensa em Berlim após se reunir com May.

Para a chanceler alemã, "uma boa preparação é importante", e espera-se que Londres decida notificar sua saída da UE, como decidido pelos britânicos no referendo do dia 23 de junho.

May reafirmou que seu país não pedirá oficialmente a saída da União Europeia "antes do fim" de 2016, com o objetivo de preparar "uma saída ordenada e prudente".

Londres mantém, assim, o controle do calendário para ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que estipula a cláusula de retirada da UE.

Uma vez notificada da vontade de sair, as negociações têm inicialmente um prazo de dois anos, o que implicaria em uma eventual saída do Reino Unido em 2019.

Paris e Berlim "divididos"

A flexibilidade mostrada por Merkel está de acordo com os interesses da principal potência econômica europeia, dado que a Alemanha destina 8% de suas exportações ao Reino Unido, onde estão implantadas inúmeras empresas alemães.

Após se reunir com Merkel, o presidente francês, François Hollande, receberá May na quinta-feira, com quem abordará "a luta contra o terrorismo (...), a realização do Brexit" e assuntos de interesse bilateral, indicou a presidência francesa.

Para Nina Shick, do círculo de reflexão Open Europe, "Paris e Berlim se mostram muito divididos sobre qual deve ser o futuro da UE".

E a "boa vontade política [de Merkel] poderia esgotar-se se o Reino Unido demorar demais a pedir a ativação do artigo 50 do Tratado de Lisboa", previsto para casos de ruptura, acrescentou.

Outro ponto conflitante nas negociações sobre o Brexit poderia ser a liberdade dos cidadãos da UE para se instalarem e trabalharem no reino Unido.

A primeira-ministra britânica reafirmou sua intenção de obter "o bom compromisso sobre [o mercado] de bens e serviços", que junto ao de capitais e pessoas constituem a base do mercado interior europeu.

Merkel advertiu, entretanto, que Londres não pode manter seu acesso a este mercado, caso restrinja a liberdade dos cidadãos da UE de emigrar para território britânico.

Londres renuncia a presidência semestral

Ainda que Londres não inicie formalmente as negociações sobre o Brexit antes de 2017, o país começou a tomar distância do bloco ao renunciar a presidência rotativa do Conselho da UE durante o segundo semestre de 2017.

Os representantes dos 28 países do bloco acordaram que a Estônia adiantasse seu turno para substituir o Reino Unido à frente do Conselho da UE, integrado pelos ministros dos países-membros, indicou um porta-voz europeu.

May comunicou na terça-feira a decisão ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, na primeira conversa telefônica entre ambos desde que a chefe do governo conservador substituiu na semana passada David Cameron em seu cargo.

Segundo um porta-voz de Downing Street, a primeira-ministra justificou a renúncia do Reino Unido que, nesse momento, deveria "estar dando prioridade às negociações para deixar a União Europeia".

Na conversa com Tusk, May reiterou que espera que as negociações de separação, depois de 43 anos de pertencimento de seu país ao bloco, ocorram com "um espírito pragmático e construtivo", mas destacou a necessidade de agir sem precipitação.

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