AFP

(4 jul) Mulheres de advogados presos deixam um encontro com oficiais em Pequim

(afp_tickers)

Vigiadas, assustadas, tratadas como criminosas... Estas mulheres cometeram um único o erro, o de serem casadas com advogados perseguidos pelas autoridades chinesas. Mas um ano depois do desaparecimento de seus maridos, elas, agora, pretendem desafiar o poder.

Uma vasta campanha de repressão no verão de 2015 resultou na China na prisão de mais de 200 advogados e ativistas de direitos humanos.

Uma dúzia deles, ainda detidos, foi acusada ​​de "subversão do poder do Estado" - um crime punível com prisão perpétua.

Quanto a suas esposas, estão sujeitas a uma vigilância contínua.

Esta semana, cinco delas, trajando vestidos com os nomes de seus cônjuges, manifestaram em frente à Procuradoria Popular Suprema, em Pequim - cercadas por dezenas de policiais.

Segurando firmemente em suas mãos, cartas acusando as autoridades da cidade de Tianjin (norte) - onde quase todos os maridos estão detidos - de uma série de erros processuais.

As autoridades "limitam a nossa liberdade e nos assediam", explicam Wang Qiaoling, cujo marido Li Heping está entre os detidos.

"Somos obrigadas a riscar as paredes como criminosos."

Nas proximidades, diplomatas observavam a cena na segunda-feira, testemunhando as inquietudes internacionais provocadas pela repressão. A União Europeia e os Estados Unidos chegaram a pedir pela libertação dos advogados.

Desde a chegada ao poder do presidente chinês Xi Jinping, o Partido Comunista chinês (PCC) busca reforçar seu controle sobre a sociedade civil. As prisões no verão de 2015 constituíram o ápice deste comportamento.

"Vigiadas constantemente"

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos considerou estas detenções como "perturbadoras". Mas Pequim rejeita todas as críticas, consideradas como uma ingerência nos seus assuntos internos.

O PCC se comprometeu a implementar a sua versão do "Estado de Direito" com características chinesas. A repressão dos advogados mostra, no entanto, os limites de tal promessa, consideram os analistas.

Os tribunais chineses são rigidamente controlados pelo PCC, as confissões forçadas são correntes e os casos criminais terminam em condenação... em 99,9% dos casos, segundo dados oficiais.

O escritório de advocacia Fengrui, que defende vítimas de violência sexual, membros de grupos religiosos proibidos e intelectuais dissidentes, este no centro da repressão do governo em 2015.

Cinco de seus funcionários ainda estão detidos e não tiveram acesso às suas famílias ou a um advogado independente.

Li Wenzu, esposa do advogado Wang Quanzhang, do escritório Fengrui, disse que é espionada constantemente na rua.

Uma câmera, ela disse, foi instalada em frente à porta de sua casa.

"Estamos com medo de que, se organizarmos algo juntas, vão nos manter em casa. Desta forma, saímos de casa com vários dias de antecedência. E dormirmos em hotéis", explica ela.

Agentes do ministério da Segurança de Estado tentaram, segundo ela disse, fazê-la gravar um vídeo implorando que seu marido admitisse sua culpa. Ela se recusou.

'Assustador'

A televisão estatal CCTV afirmou no ano passado que os advogados detidos abusaram de seus clientes e "criaram incômodo" nas salas de audiência ao discutir com funcionários e realizar gravações de áudio e fotografias.

Quanto ao escritório Fengrui, ele foi descrito pela imprensa estatal de "organização criminosa".

Desde a prisão de seu marido Xie Yang, Chen Guiqiu explica que foi proibida de deixar o território chinês.

"É o mesmo para cada uma de nós. Foi-me dito que era por causa de uma ameaça à segurança do Estado. Não vejo como eu poderia ser uma ameaça para a segurança do Estado", afirmou surpresa.

As polícias de Pequim e Tianjin não responderam aos pedidos de comentários da AFP.

A procuradoria ainda analisa o caso e se irá indiciar os advogados, de acordo com as suas esposas.

Se este for o caso, os detidos serão, quase que certamente, condenados a longas penas de prisão.

"Agora estou sempre na estrada", resume Fan Lili, esposa do ativista Gou Hongguo, entrando num vagão de um metro em direção ao seu próximo destino, mantido em segredo.

"Eu nunca imaginei que as coisas seriam tão assustadoras", resume.

afp_tickers

 AFP