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A caverna de Bruniquel, na França, é vista em foto cedida pelo Centro Nacional Francês para Pesquisa Científica (CNRS), no dia 25 de maio de 2016

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Durante muito tempo considerado embrutecido, o homem de neandertal já construía estruturas complexas subterrâneas à luz do fogo, possivelmente para celebrar rituais, há 176.500 anos, afirma um estudo publicado nesta quarta-feira na revista científica britânica Nature.

Estes povos antigos arrancavam fragmentos de estalagmites (formações sedimentares) do chão da caverna e os empilhavam nas paredes, formando estruturas circulares ásperas até a altura dos joelhos, encontradas por pesquisadores de várias nacionalidades no sudoeste da França.

O estudo revela que a exploração de cavernas já acontecia dezenas de milhares de anos antes do que se acreditava até agora, e classifica as estruturas encontradas como as construções humanas mais antigas conhecidas.

No fundo da caverna de Bruniquel, no sudoeste da França, a mais de 300 metros da entrada, os neandertais construíram seis destas estruturas, uma delas com quase sete metros de largura, dezenas de milhares de anos antes de o chegar à Europa.

Até agora, tinha sido "formalmente comprovado" que a mais antiga caverna habitada por neandertais era a de Chauvet, no sudeste da França, com pinturas rupestres de 30.000 anos de antiguidade, disse um pesquisador francês citado no estudo.

"Isso muda nossa visão do homem de neandertal", completa o cientista.

O trabalho contribui para uma imagem mais inteligente do homem de neandertal, e mostra que eles sabiam trabalhar em grupo, afirma o estudo.

"Os neandertais eram inventivos, criativos, sutis e complexos", disse à AFP o coautor do estudo, Jacques Jaubert, da Universidade de Bordeaux.

"Não eram meros brutos focados em desbastar com ferramentas de pedras ou em matar bisontes para comer", completou Jaubert.

Os únicos

Entre os fragmentos de pilares de estalagmites, sedimentos minerais que sobem do chão ao teto de uma caverna, os pesquisadores descobriram vestígios de fogo e pedaços de ossos queimados.

"Os primeiros neandertais eram a única população humana vivendo na Europa durante este período", escreveram os pesquisadores, que se referiram aos homens de neandertal como os "primeiros espeleólogos do mundo", em referência à ciência que estuda cavernas e grutas.

"Nossas descobertas sugerem que sua sociedade incluía elementos da modernidade", acrescentam os pesquisadores no texto.

Os neandertais viveram em partes da Europa, da Ásia Central e do Oriente Médio por até 300.000 anos, e acredita-se que eles tenham sido extintos há cerca de 40.000 anos.

O período coincide mais ou menos com a chegada do , há cerca de 200.000 anos.

Vários estudos recentes descobriram que os neandertais eram muito mais sofisticados do que sugeria a teoria que prevaleceu por muito tempo de que eles desapareceram porque eram menos espertos que o Homo sapiens.

Nesses trabalhos, foi revelado que os neandertais fizeram gravuras rupestres cerca de 40.000 anos atrás, foram provavelmente os primeiros a caçar, preparar e cozinhar pombos selvagens, comiam legumes, cuidavam dos seus idosos, enterravam seus mortos, e podem ter sido os primeiros joalheiros.

Ritual?

O novo estudo afirma que "o grupo neandertal responsável por essas construções tinham um nível de organização social que era mais complexo do que se pensava".

Com base em outros exemplos dos primeiros usos das cavernas por humanos, os pesquisadores podem "supor" que as construções de estalagmites atribuídas aos neandertais tinham funções simbólicas ou rituais, embora possam também ter sido utilizadas para fins "domésticos" ou como refúgio, segundo o estudo.

"O que mais nos surpreende é a capacidade do homem de neandertal de ter explorado cavernas muito profundas (...), longe da luz natural", disse Jaubert.

"Acreditamos que estamos oferecendo provas da capacidade dos neandertais de entrar em um ambiente hostil, subterrâneo, usando fogo para iluminar o caminho, para fazer coisas que vão além da mera sobrevivência", completa.

Comentando o estudo, a arqueóloga Marie Soressi, da Universidade de Leiden, na Holanda, concordou que os neandertais teriam construído as estruturas sozinhos.

"Só o homem de neandertal poderia ser o autor, já que não havia outros tipos de humanos na Europa naquela época", disse em um podcast divulgado pela Nature.

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