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O presidente eleito do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, em Lima, no dia 26 de julho de 2016

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Pedro Pablo Kuczynski assume a presidência do Peru na quinta-feira (28) com planos de transformar o país numa estrela da região, mas precisará do apoio de uma poderosa oposição que pode condicionar isso a um indulto para Alberto Fujimori, seu máximo líder político.

Para o ex-banqueiro de Wall Street de 77 anos, que promete uma "revolução social" no Peru, foi custoso ganhar o afeto dos cidadãos.

Com virtudes mais técnicas que políticas, depois de sua apertada vitória nas eleições, aumentou em cinco pontos percentuais sua popularidade (subindo para 55%), menos do que seus antecessores possuíam no início.

"A eleição esteve polarizada e há uma porcentagem de pessoas que simpatiza com o fujimorismo. Ele vai precisar do respaldo da sociedade para fazer reformas, mais ainda se não tiver maioria no Congresso", disse à AFP o diretor da consultora Vox Populi, Luis Benavente.

As prioridades do novo presidente são combater a insegurança dos cidadãos, reduzir a pobreza que afeta 22% da população e estimular a economia reativando projetos de mineração, paralisados pela burocracia e conflitos sociais.

"O principal objetivo é a falta de serviços básicos para 30% a 40% da população. Não há colégios, segurança, água potável ou acesso a hospitais. Isso, a informalidade do trabalho e dos empresários, que atrasa o desenvolvimento", disse o presidente eleito. A isso, ele chama de "revolução social".

Para tal, irá requerer da "Fuerza Popular", o partido fujimorista que, apesar de perder a eleição, obteve a maioria absoluta no Congresso unicameral com 73 das 130 cadeiras, e que será crucial para aprovar reformas, algumas ajudas em troca de outras.

Desde sua estreita vitória no segundo turno de 5 de junho, Kuczynski, que só conta com 18 deputados, lançou mensagens de aproximação às principais forças políticas do país.

Há duas semanas, apresentou seu governo, com um perfil nitidamente técnico. Dos 19 ministros, só um pertence ao seu partido "Peruanos Por el Kambio" (PPK) e já chamou alguns ex-ministros e ex-funcionários dos governos de Alejandro Toledo (2001-2006), Alan García (2006-2011) e do presidente em fim de mandato, Ollanta Humala.

Apostando no indulto

Conhecido por suas iniciais, PPK deverá decidir sobre uma solicitação de indulto de último minuto apresentada pelo ex-presidente Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e que foi recebida para o trâmite na gestão de Ollanta Humala.

"Se não foi feito pelo atual presidente, é altamente improvável que eu faça", assegurou PPK, que teve o apoio-chave do anti-fujimorismo em sua vitória eleitoral.

Para analistas, indultar Fujimori, com a saúde debilitada, seria uma traição. A comissão que avalia o indulto dará seu relatório em dois meses.

Entretanto, Kuczynski não se oporia em promulgar uma lei aprovada pelo Congresso permitindo que prisioneiros idosos com má saúde possam cumprir a pena em prisão domiciliar. Fujimori completa 78 anos neste 28 de julho. "Isso eu assinarei, o indulto não assinarei", destacou PPK.

O fujimorismo "não quer a prisão domiciliar sem um Fujimori indultado, com todos os seus direitos, que faça política e até seja candidato", considerou o analista Benavente.

Conflitos sociais

O PIB do Peru pode crescer 4% neste ano, melhor que seus vizinhos, e a mineração é um importante motor na economia deste país, que é o terceiro maior produtor mundial de cobre.

Mas os 152 conflitos de caráter ambiental contabilizados em junho deste ano impediram projetos-chave, com cidadãos, agricultores e pecuaristas temendo a contaminação de seus recursos naturais.

Para Kuczynski, a oposição radical a projetos de mineração no Peru, que marcaram a gestão de Humala, se deu ao fato de não terem sido resolvidos alguns problemas relacionados com serviços básicos e demandas históricas das comunidades.

Por isso, apresenta o chamado "adianto social" para que, antes do investimento na mineração, sejam resolvidos assuntos vinculados à saúde, educação ou trabalho nas localidades onde planeja-se desenvolver um projeto e, se necessário, flexibilizar a rigorosa norma de meio-ambiente para alinhá-la com a do Canadá.

Dois investimentos milionários - Conga, da americana Newmont e da local Buenaventura; e Tía María - de uma filial peruana de Southern Copper - estão paralisados.

No Peru, um dos maiores produtores mundiais de cocaína segundo a ONU, o narcotráfico é uma epidemia e PPK reforçará a substituição dos cultivos da folha de coca por outros como de cacau ou o café, um plano que o Peru aplica há vários anos.

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