AFP

Bolsas são expostas em uma loja "Prison Art" no bairro de Polanco, na Cidade do México, no dia 14 de junho de 2016

(afp_tickers)

A "vida fácil" seduziu David Guzmán. Ainda jovem começou a consumir drogas e roubar, perdendo-se em um mundo "nefasto". Mas após cinco anos atrás das grades, este mexicano parece em paz e tatua concentrado uma peça de couro que logo será uma bolsa de luxo.

Guzmán reconduziu seu caminho graças à arte. Desde que soube de sua longa condenação por homicídio, só se consolava pintando. Por isso, quando descobriu que em algumas prisões do México existiam presos que recebiam salário para estampar desenhos em acessórios de moda em um programa de reabilitação chamado "Prison Art", batalhou até ser levado para a prisão de Tulancingo, Hidalgo, no centro do país.

"Minha estupidez foi por conta da necessidade", explica à AFP este homem de 34 anos enquanto, sentado junto com uma dezena de homens e mulheres na modesta biblioteca da prisão, dá os últimos retoques na caveira que tatua com sua rudimentar máquina de tatuagens.

Ainda que normalmente trabalhem nas peças de couro em seus beliches, dentro dos dormitórios de até 100 pessoas, ou sentados em potes de plástico nos espaços comuns, hoje os presos tatuam, nesta sala, comodamente pássaros, mariposas, tigres, mas sobretudo caveiras e esqueletos de todo tipo.

Logo, estas peças serão as estampas centrais de elegantes bolsas, que serão vendidas por 400 dólares em lojas exclusivas de todo o México.

De tatuar a pele... para tatuar bolsas

Mas antes disso, na cadeia, os presos se juntam aos jovens condenados a penas de décadas, se esforçando para colorir suas criações.

Dão um novo uso às máquinas de tatuagem - montadas com uma caneta, uma agulha e um motor impulsionado por um carregador de celular - que os presos usam comumente para tatuarem uns aos outros, gerando graves problemas de saúde.

"Com isso, o dia é um pouco mais curto. Não vejo nem que horas são. Tomo café da manhã, como e o resto do dia estou metido nisso", assegura Ezequiel Pérez, alto, com musculosos braços tatuados e que aos 24 anos é acusado por duplo homicídio.

No "Prison Art" não importa o crime cometido, o sexo ou a idade: as únicas condições para entrar neste projeto idealizado por uma fundação privada são manter o corpo limpo de drogas, ir à terapia de desintoxicação e dar a metade do salário para a família.

É uma oportunidade de ouro para os presos, a maioria com as vidas desvirtuadas pelos vícios e pela pobreza.

E a alegria vista entre os 18 selecionados é evidente nesta prisão mista construída nos anos 1970, que é a quinta pior do México pelo amontoado de pessoas e insalubridade, segundo um informe do Ombudsman.

Mesmo que a maioria dos 550 internos de Tulancingo elaborem objetos nos ateliês de carpintaria e artesanato da prisão, sofrem para liquidá-los através de seus familiares e amigos, sem conseguir atingir o dinheiro que necessitam para comprar sabonete, pasta de dentes ou papel higiênico para sua permanência, e muito menos para ajudar financeiramente suas famílias.

"A família muitas vezes não tem para me dar. Isso é uma fonte de trabalho", diz com um fraco espanhol Leonor Reyes, uma bordadeira indígena de 48 anos, mãe de seis filhos e acusada por roubo de joias.

Uma ideia que surgiu atrás das grades

Uma das chaves do sucesso de "Prison Art" é que mantêm motivados os réus com um pagamento que pode chegar a 400 dólares mensais, os aproximando de um projeto de reinserção que espera contratá-los em seus ateliês uma vez que cumpram a pena.

"Não é que as prisões no México sejam universidades do crime, já que a mesma sociedade está obrigando os mesmos presos que saem a não terem oportunidades, que voltem a cometer delitos ou que os grupos do crime organizado dentro da cadeia os recrutem muito facilmente", assegura Jorge Cueto, o cérebro por trás do "Prison Art".

Este mexicano de origem espanhola fala com conhecimento de causa. Em 2012 esteve preso durante 11 meses por fraude, mas acabou saindo inocente da cadeia de Puenta Grande.

E agora acredita que, com dois anos e meio de vida, o programa já funcione em seis prisões do México e tenha dado emprego a 240 presos e ex-presos.

Mas o sucesso não acontece somente dentro das cadeias.

As bolsas, cintos, carteiras e outros acessórios do "Prison Art", peças únicas assinadas por cada preso, são desenhos da moda feitos com couro de alta qualidade e vendidos em bairros exclusivos como o de Polanco, na Cidade do México, ou em elegantes lojas nas turísticas San Miguel de Allende ou Playa del Carmen, e também na internet.

"É uma opção para a sociedade se quiser ajudar. E a ideia é criar um produto de qualidade e gosto que as pessoas desejem", diz Cueto, que espera abrir lojas nos Estados Unidos, em Londres e Ibiza.

Enquanto isso, na biblioteca de Tulancingo, Pedro Eulalio Vera, um senhor acusado de sequestro, assina sua última peça e sonha em voz alta: "Se as pessoas gostam, talvez digam: 'Eu quero que ele me faça algo especial' e para mim isso seria algo muito bom, não?".

afp_tickers

 AFP