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Papa Francisco reza com representantes de diferentes religiões na praça do lado de fora da Basílica de São Francisco, em Assis, no dia 20 de setembro de 2016

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O papa Francisco encerrou nesta terça-feira (20) a jornada pela paz em Assis, centro da Itália, com um apelo contra as guerras e contra a indiferença frente a esses conflitos, à violência e ao terrorismo que abalam o mundo.

"Temos sede de paz. Queremos ser testemunhas da paz", clamou o papa argentino, falando na cidade medieval berço de São Francisco, o santo dos pobres, o qual inspira seu pontificado.

Assim como João Paulo II fazia há 30 anos, quando o mundo temia um holocausto nuclear, Francisco se reuniu com os líderes das grandes religiões do mundo para mexer com as consciências de todo o planeta, independentemente de seu credo.

"Nós não temos armas, mas acreditamos na força mansa e humilde da oração. Nessa jornada, a sede de paz se transformou em uma invocação a Deus para que cessem as guerras, o terrorismo e a violência", disse o pontífice.

Sentado ao lado do rabino argentino Abraham Skorka, do vice-presidente da Universidade sunita egípcia Al-Azhar, Abbas Shuman, e de Sugitani Gijun, conselheiro da Escola budista japonesa Tendai, Francisco condenou "a indiferença", "a grande doença do nosso tempo", um vírus que - completou - "nos torna inertes e insensíveis".

Sem mencionar o terrorismo islâmico, o sumo pontífice voltou a condenar os que matam em nome de Deus.

"Nós não nos cansamos de repetir que nunca se pode usar o nome de Deus para justificar a violência", frisou.

Ao final da cerimônia, da qual mais de 500 líderes religiosos participaram, firmou-se um apelo pela paz, documento que resume em grande parte as palavras do papa.

'Não à guerra!'

"Não à guerra! Que não se fique sem ouvir o grito de dor de tantos inocentes. Imploramos aos líderes das nações para que sejam desativadas as causas das guerras: a avidez por poder e dinheiro, a avareza de quem comercia com armas, os interesses partidários, as vinganças pelo passado", diz o texto.

No documento, os líderes religiosos - entre eles representantes muçulmanos, judeus, budistas e cristãos de diversas igrejas, como a ortodoxa - também rejeitaram "a guerra em nome da religião, que se transforma em uma guerra à própria religião".

Desse encontro, que contou com a presença de seis Prêmios Nobel da Paz e da ativista antiminas pessoais Jody Williams, participaram cerca de 5.000 pessoas.

No encerramento, as vítimas de guerra foram lembradas com um minuto de silêncio.

Entre os convidados, que relataram sua própria experiência durante a cerimônia, estava a síria Tamar Mikalli, uma professora de Inglês que vive em Aleppo, norte da Síria.

"Quando falo em Aleppo, a cidade onde nasci, cresci e me casei, meu coração se despedaça", desabafou, depois de ter perdido tudo sob os bombardeios.

Ovacionado em seu testemunho, o rabino israelense David Brodman, deportado aos 7 anos para um campo de concentração nazista, defendeu a convivência entre os povos.

"Quero dizer ao mundo que é possível sermos amigos e vivermos juntos em paz, mesmo que sejamos diferentes", destacou.

Durante a visita, também se comemora o 30º aniversário dos encontros de Assis, inaugurados em 1986 pelo papa João Paulo II e dos quais participam movimentos e associações eclesiásticas, assim como entidades civis.

Pela terceira vez de visita a essa cidade, o papa Francisco almoçou com os líderes religiosos e com cerca de 25 refugiados de guerras de vários países, que descreveram o que é sofrer bombardeios, ou saques.

"Estarmos unidos é a resposta ao terrorismo que quer dividir. Porque o terrorismo quer desestabilizar nossas vidas, quer levar violência a nossa sociedade", explicou Marco Impagliazzo, presidente do grupo católico Comunidade de São Egídio, organizador do evento.

"Há muita sede de paz, pedem os pobres, as vítimas do terrorismo e das guerras em muitos países do mundo. Queremos ser sua voz", afirmou.

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