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Passageiros do voo desembarcam em Cuba

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O primeiro voo regular entre Estados Unidos e Cuba em mais de meio século aterrissou nesta quarta-feira (31) no aeroporto de Santa Clara, no centro da ilha, iniciando uma nova era nas relações entre os antigos inimigos da Guerra Fria.

Com 150 passageiros a bordo, entre eles o secretário dos Transportes dos EUA, Anthony Foxx, o A320 da companhia aérea americana JetBlue pousou às 10h57 locais (11h57 de Brasília) em Santa Clara. À tarde, Foxx se reuniu com o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, e com seu homólogo, Adel Yzquierdo.

O voo 387 foi recebido com uma "saudação com canhão de água", pouco mais de uma hora depois de decolar do aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida.

Os dois primeiros passageiros a sair da aeronave desceram as escadas carregando cada um deles uma bandeira, dos Estados Unidos e de Cuba e, ao pisar em terra firme, abraçaram-se diante das câmeras de televisão, observou uma equipe da AFP.

"Foi uma emoção incrível, todos os passageiros, a imprensa que estava nesse voo histórico, estavam sorrindo e emocionados ao chegar", declarou à AFP a diretora do Aeroportos Internacionais da JetBlue, Giselle Cortés, descrevendo o ambiente que reinou durante o voo.

"Minha avó é cubana, levou minha família há 60 anos. Sou a primeira da geração de minha família a chegar a Cuba, que é minha segunda casa. É possível sentir a emoção de voltar para casa", acrescentou Cortés, de 34 anos.

Giselle nasceu nos Estados Unidos, mas sua família é cubana. Sua avó foi tirada da Ilha com a vitória da Revolução, em 1959.

"Foi uma viagem muito emocionante. Celebramos, aproveitamos muito. Tiramos fotos com as bandeiras cubanas", contou à AFP a americana Leanne Spencer, uma organizadora de eventos, que foi pela primeira vez a Cuba, com sua filha Natalie, de 17.

Em sua conta no Twitter, o secretário de Estado americano, John Kerry, saudou "um novo passo de avanço" nas relações, "um ano depois de se ter içado a bandeira americana em Havana".

Este foi o primeiro voo regular entre os dois países desde 1961, quando o tráfego aéreo foi suspenso, vítima da Guerra Fria.

"É um marco histórico nas relações entre os dois países", disse à AFP o diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida (FIU), Jorge Duany.

Os voos regulares "permitirão um movimento mais fluído de pessoas, mercadorias, informação e ideias entre dois lugares muito próximos geograficamente, mas muito distantes politicamente", acrescentou.

Cuba está na moda

Washington e Havana acordaram em fevereiro deste ano restabelecer os voos comerciais, uma virada no progressivo restabelecimento dos laços diplomáticos que começou em julho de 2015. Em maio, também foram reativados os cruzeiros.

Embora persista o embargo americano imposto em 1962, os governos de Barack Obama e Raúl Castro deram passos mais significativos para a normalização de suas relações.

Obama flexibilizou as restrições para as viagens dos americanos a Cuba, mesmo que o embargo de Washington ainda proíba o turismo à Ilha. Assim, hoje, os americanos podem viajar dentro de outras 12 categorias. As mais utilizadas são o intercâmbio cultural, ou educacional.

"Há muito interesse em Cuba, é um lugar que está quente agora. Ficou na moda", disse Frank González, dono da agência Mambí Tours, que oferece pacotes para americanos com estúdios de música, ou candomblé.

Desde que, no ano passado, foi liberada a possibilidade de viajar para Cuba, as visitas bateram um recorde. Foram 161.000 em 2015, 77% a mais do que no ano anterior, de acordo com o Ministério do Turismo da ilha. Entre janeiro e março de 2016, 71.815 americanos chegaram a Havana, 93,9% a mais do que no mesmo período de 2015, ainda segundo as autoridades locais.

Mas ainda "será preciso esperar (para saber) os efeitos socioeconômicos no longo prazo do aumento de contatos 'povo a povo' entre Cuba e Estados Unidos", disse o professor Duany.

Desde 1979, os voos "charters" supriram a demanda e até esta semana havia apenas 30 voos diários para a ilha. No entanto, os operadores desses aviões alugados têm os dias contados.

Normalmente, a passagem em um "charter" a Cuba custa entre US$ 400 e US$ 500, enquanto a JetBlue cobrará US$ 99 a ida, e cerca do dobro ida e volta.

Pilotos cubanos

O voo inaugural foi pilotado pelo capitão Mark Luaces e pelo primeiro oficial Francisco Barreras, ambos americanos de pais cubanos, informou a JetBlue.

Ele será seguido na quinta-feira por um da Silver Airways, também para Santa Clara, e depois pelos da American Airlines, que voará para cinco destinos cubanos a partir de 7 de setembro.

Ao longo dos próximos meses, a regularidade dos voos aumentará até chegar a 110 diários, 20 deles para Havana.

As autoridades americanas ainda não decidiram quais companhias servirão à capital. Por enquanto, voarão para nove aeroportos provinciais as companhias JetBlue, American, Silver, Frontier, Southwest e Sun Country.

Partirão de Miami, Fort Lauderdale, Chicago, Minneapolis e Filadélfia e chegarão às cidades cubanas de Camagüey, Cayo Coco, Cayo Largo, Cienfuegos, Holguín, Manzanillo, Matanzas, Santa Clara e Santiago de Cuba.

Hoje, a Secretaria dos Transportes divulgou uma nota, informando que oito linhas começarão a voar para Havana nesta primavera: Alaska Airlines, American Airlines, Delta Air Lines, Frontier Airlines, JetBlue Airways, Southwest Airlines, Spirit Airlines e United Airlines.

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