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Manifestantes protestam contra Trump em Detroit, em 3 de setembro de 2016

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O candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, dirigiu-se aos americanos negros neste sábado (3) em uma igreja de Detroit, prometendo empregos e esperança à uma comunidade que o olha com desconfiança e cuja grande maioria apoia sua rival democrata, Hillary Clinton.

"Estou aqui para escutar a mensagem de vocês", disse Trump, em um discurso apaziguador - "somos todos irmãos e irmãs" -, que contrastou com o restante dos comícios de sua campanha.

Atrás de Hillary nas pesquisas a menos de 70 dias da eleição presidencial e ciente da necessidade de ampliar sua base eleitoral, o magnata do setor imobiliário de Nova York vem tentando há algumas semanas atrair votos entre as minorias.

Segundo uma pesquisa do jornal USA Today e da Universidade de Suffolk publicada na última quinta-feira (1º), apenas 4% dos eleitores negros apoiam Trump.

A comunidade negra americana, que representa 12% do eleitorado, é tradicionalmente mais próxima aos democratas. Nas eleições de 2012, por exemplo, 93% dessa comunidade votou em Barack Obama.

Hillary também exibe um alto índice de apoio entre esse eleitorado: estima-se que na primária disputada com o senador Bernie Sanders ela recebeu 90% dos votos da comunidade negra.

Insistindo no direito a viver em segurança e "com um emprego bem remunerado", o republicano prometeu, em seu discurso na igreja, uma outra política para reconstruir Detroit, com "fábricas por todos os lados e escolas".

"Vou fazer as coisas se moverem para vocês", prometeu, falando sobre "as lojas fechadas, as pessoas sentadas nas calçadas sem emprego, sem nada para fazer".

Depois, o candidato republicano participou do culto, tentando acompanhar o ritmo da música.

Mais de 100 manifestantes se concentraram em frente à igreja para esperar o magnata. "Trump não terá o meu voto", dizia um dos cartazes agitados na multidão.

Em Detroit, muitos afro-americanos reconhecem que suas condições de vida não melhoraram muito durante os dois mandatos de Barack Obama, o primeiro presidente negro na história do país, mas consideram que Trump não é nem de longe a melhor opção.

"Estudamos o programa do Partido Republicano e concluímos que é insuficiente. Escutamos o candidato deles e concluímos que é indignante", disse Eric Williams, que dá para pequenos empresários negros na Universidade de Wayne State, radicada nessa enorme cidade do norte dos Estados Unidos.

"Não há absolutamente nada que ele possa fazer para melhorar sua imagem entre a comunidade afro-americana", acrescenta.

A argumentação do magnata pode ser resumida em uma frase: "O que eles têm a perder" diante dos altos níveis de desemprego e de pobreza, que afetam esse grupo mais do que os outros? Trump convocou essa fatia do eleitorado a romper com o voto democrata que - insiste ele - não mudou nada para essas pessoas.

Charelle, que não quis dar seu sobrenome, diz que é "absurdo" imaginar que Trump responderia realmente aos problemas da sua comunidade: "É um pretexto para tirar fotos e dizer: 'Olhem, não sou racista!'".

'Não esquecemos'

O fechamento das grandes fábricas de automóveis desde a década de 1970 teve efeitos devastadores em Detroit, com bairros inteiros em estado avançado de abandono.

"Foi a classe negra a que mais sofreu", afirma o professor Reynolds Faerley, da Universidade de Michigan, que estuda a evolução étnica da população da cidade.

Além do programa de campanha, a personalidade e as posições expressadas no passado por Trump despertam fortes resistências na comunidade negra.

Os democratas lembram regularmente aos eleitores que Trump liderou uma campanha de baixo nível que questionava - com o apoio da ala de direita do Partido Republicano - a nacionalidade de Obama.

"Nós não esquecemos isso", diz Eric Williams, acrescentando que "isso diz muito sobre esse homem".

Para David Bullock, ativista dos direitos civis e candidato a conselheiro municipal da cidade, tanto os republicanos como os democratas decepcionam a população dos bairros mais desfavorecidos "há vários anos".

Mas Clinton tem uma vantagem decisiva sobre Trump: "ela construiu uma relação duradoura de confiança com os representantes da comunidade negra", comenta Bullock.

Frente à dificuldade de reverter os votos a seu favor, a estratégia do bilionário poderia consistir em convencer uma parte desse eleitorado a ficar em casa no próximo dia 8 de novembro.

Segundo Bullock, essa tática poderia ajudá-lo em estados como Carolina do Norte, onde a corrida presidencial está muito disputada, e o voto negro pode ser determinante.

"Do ponto de vista de Trump, (essa visita) tem sua lógica, mas sabemos que não se trata de ajudar Detroit", concluiu.

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