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Embaixador da Suíça


"Olimpíadas darão uma carga de oxigênio ao povo brasileiro"


Por Alexander Thoele, Brasília


Assim como ocorreu com a Copa do Mundo de futebol, também as Olimpíadas serão um sucesso no Brasil. É o que acredita o embaixador da Suíça, André Regli. Em entrevista à swissinfo.ch, o diplomata fala sobre a crise política e econômica no país e explica o que falta para o mercado brasileiro se tornar mais interessante para os investimentos suíços. 

O embaixador da Suíça no Brasil, André Regli, durante um evento cultural no Rio de Janeiro.  (swissando.com.br/)

O embaixador da Suíça no Brasil, André Regli, durante um evento cultural no Rio de Janeiro. 

(swissando.com.br/)

Após assumir o posto máximo em setembro 2013 na embaixada da Suíça em Brasília, André Regli não domina somente o português, mas também se mostra um entendido da cultura brasileira. Em fevereiro de 2015 chegou a organizar a participação da Suíça no carnaval, quando a escola de samba Unidos da Tijuca recebeu o apoio oficial para realizar um enredo helvético, onde personagens como Guilherme Tell e Clóvis Bornay se misturaram na avenida.

swissinfo.ch: Como o senhor vê a atual crise política no Brasil?

André Regli: Seguramente essa é a pior crise já vivida nos últimos vinte anos. É uma crise política muito grave, sob um quadro de crise econômica aguda.

swissinfo.ch: A Suíça preocupa-se com a situação no país?

A.R.: Somos observadores atentos. Observadores inquietos, pois o Brasil é o um parceiro muito importante para a Suíça. De longe o mais importante parceiro na América do Sul, do ponto de vista de comércio, dos investimentos. A Suíça está entre os dez maiores investidores no Brasil. Desde 2008 temos uma parceria estratégica com a qual colocamos em marcha vários diálogos: políticos, com vários encontros por ano; um diálogo econômico e financeiro e também nos setores de ciência e tecnologia. De fato, nos últimos cinco ou seis anos as relações entre o Brasil e a Suíça se intensificaram fortemente. Por isso a Suíça tem interesse que o Brasil se recupere o mais rápido possível. 

Biografia

André Regli, 58 anos, nasceu em Altdorf, cantão de Uri.

Se tornou embaixador da Suíça no Brasil em setembro de 2013.

Antes foi embaixador da Suíça no Chile e na República Tcheca.

Formou-se em direito na Universidade de Friburgo. 

swissinfo.ch: Ao definir a sua estratégia para os países do Brics, a Suíça apostava nas boas perspectivas econômicas do Brasil. Hoje o país vive uma das suas piores recessões. O que deu errado?

A.R.: Em minha opinião foi uma crise anunciada. Foi o fim do ciclo das commodities devido à queda de crescimento na China e a sua menor necessidade de importar matéria-prima.
Chegou uma forte baixa na arrecadação. O déficit publico foi grande e a inflação aumentou com o desemprego.

swissinfo.ch: Com tantos problemas, o Brasil deixou de ser interessante para investimentos suíços? Dados oficiais mostram que a Suíça caiu da 4a. para 8a. na posição de maiores investidores do Brasil...

A.R.: Não concordo. Eu falo muito com empresários suíços. Ontem mesmo almocei com o presidente da Novartis. Todas as grandes empresas suíças já estão no Brasil há muito tempo. Isso mostra que elas estão aqui há longo prazo. Não é porque temos uma crise que elas iriam sair. Eu sempre falo para os empresários interessados em vir ao Brasil, que esse não é um país para iniciantes, onde se ganha dinheiro fácil. Você tem de chegar e investir a longo prazo. Os empresários suíços pensam nesse sentido. Logico que existem algumas empresas que estão sofrendo com essa crise. Mas outros aproveitam da situação, que o real está muito fraco, então vêm e investem de forma anticíclica: comprando empresas brasileiras para colocar um pé nesse mercado.

swissinfo.ch: O senhor tem alguns exemplos de novos investimentos suíços?

A.R.: A Emmi (n.r.: laticínios) comprou uma empresa brasileira. A Hero (alimentação) também. A Flughafen Zürich AG (Aeroporto de Zurique) que já está aqui e quer aumentar a sua participação em aeroportos brasileiros. A Lindt & Sprüngli (chocolates) entrou e investiu forte nos últimos dois anos.

swissinfo.ch: Quais as dificuldades vividas por investidores e empresas suíças no Brasil?

A.R.: Ainda é a burocracia. Se houver um novo governo, este deveria trabalhar em cima disso. A importação de farmacêuticos, por exemplo, é um grande problema: passar um novo medicamento com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é muito complicado. Isso tem muito a ver com a falta de pessoal especializado. Acho que isso aumenta muito o custo. Quase todos os empresários suíços me falam que é muito difícil encontrar mão-de-obra qualificada.

swissinfo.ch: As investigações da Lava-Jato prejudicam as relações entre os dois países?

A.R.: Acho que não. Pelo contrário o Governo e a população vê com muitos bons olhos a Suíça, pois ajuda a Justiça brasileira. É verdade que a colaboração entre as procuradorias-gerais do Brasil e da Suíça é excelente. No ano passado tivemos no Brasil a visita de Michael Lauber, procurador-geral da Suíça. Em março deste ano, o procurador-geral do Brasil, Rodrigo Janot, esteve na Suíça.

swissinfo.ch: Faltam pouco menos de cem dias para as Olimpíadas no Rio de Janeiro. Porem a imprensa estrangeira tem feito uma cobertura bastante negativa frente aos problemas atuais nas suas preparações. O senhor compartilha desse pessimismo?

A.R.: Pelo contrário, sou bastante otimista. Eu conheço o Brasil muito bem. Aqui são organizados anualmente dois enormes eventos, todos no Rio de Janeiro: um é o carnaval e o outro, no fim do ano, o réveillon com os fogos de artifício em Copacabana. Lá, por exemplo, dois milhões de pessoas chegam à praia e saem e não ocorrem problemas. O Brasil é o campeão mundial da improvisação. A infraestrutura das Olimpíadas já está quase pronta. Seguramente ela estará pronta quando as competições começarem no dia 5 de agosto. Além disso, eu conto muito com a forma como o brasileiro acolhe os estrangeiros, como ocorreu com a Copa do Mundo. Eu até tinha mais dúvidas naquela época, pois não era fácil organizar a Copa com aqueles doze estádios, muito distantes um dos outros e com um grande temor que o transporte entre esses espaços fosse entrar em colapso. Mas no final tudo funcionou muito bem. Aliás, acho que a Copa deu um grande legado para o Brasil: os aeroportos são hoje muito bons e os aviões chegam e saem na hora, o que não era o caso antes da Copa.

swissinfo.ch: Porém o clima das Olimpíadas não estaria contaminado pela crise?

A.R.: Mas se você me perguntar se, cem dias antes de começarem as Olimpíadas, nós sentimos algum entusiasmo, então digo: nada, especialmente aqui em Brasília. Talvez a situação mude na próxima semana com a chegada da Tocha Olímpica no Palácio do Planalto e sua viagem através do Brasil. Ontem todos os prédios oficiais do pais se iluminaram as cores amarelo e verde. Acho que o clima vai chegar devagar. Três semanas antes da Copa tampouco havia esse entusiasmo. Eu também acho que as Olimpíadas darão uma carga de oxigênio para o povo brasileiro nesta situação econômica difícil.

swissinfo.ch: O sucesso das Olimpíadas no Brasil seria um argumento para convencer o eleitor suíço, que já refutou em um plebiscito receber as Olimpíadas de inverno e agora poderá tentar mais uma vez?

A.R.: Qualquer país se aproveita de um grande evento como esses. O Rio de Janeiro também se beneficiar das Olimpíadas, pois imagens maravilhosas serão enviadas ao mundo. Elas são uma plataforma maravilhosa para mostrar que vale a pena visitar o Brasil. Um evento dessas dimensões poderia ajudar a Suíça a melhorar a sua infraestrutura, especialmente o transporte público. Nós seriamos capazes – estou convencido -de organizar uma olimpíada de inverno sustentável como já ocorreu, por exemplo, na Noruega. 

swissinfo.ch: Entre 2014 e 2016 a Suíça realiza uma campanha para reforçar a imagem da Suíça no Brasil. Ela chegou até a apoiar o carnaval. O que foi alcançado até então?

A.R.: Saberemos disso em dois anos, quando será realizada mais uma pesquisa de opinião. Antes ela mostrava que 56% dos entrevistados não conheciam a Suíça. Nós pegamos então esses dois grandes eventos esportivos - a Copa e as Olimpíadas - para conquistar mais visibilidade. E os resultados foram muito bons durante a Copa. A Casa Suíça, também chamada pela imprensa de Baixo Suíça, foi eleita como o melhor public viewing do Rio de Janeiro. Tenho certeza que o Baixo Suíça 2 será um sucesso até maior durante as Olimpíadas, pois teremos atrações que os brasileiros gostam. E entre esses dois grandes eventos, fizemos também o carnaval (ver artigo). Era uma plataforma para um público geral. Além disso, organizamos mais de vinte eventos em outras áreas para mostrar que a Suíça também é um país inovador, da ciência e tecnologia e um país humanitário. Eu acho que isso terá um efeito. 

swissinfo.ch: Como foi ajudar a Unidos da Tijuca a organizar um enredo suíço no carnaval de 2015? Foi fácil encontrar uma ponte entre os dois países para essa tradição tão brasileira?

A.R.: Sem dúvida, o Clovis Bornay foi essa ponte. Se não tivéssemos encontrado esse personagem, seria difícil realizar esse projeto. Até o presidente da Unidos da Tijuca hesitou muito, pois era difícil encontrar essa ligação. Mas hoje as pessoas não dizem que o tema da Unidos da Tijuca foi Clovis Bornay, mas sim a Suíça. Esse era o nosso objetivo: ter uma plataforma com quatro mil bailarinos, transmitido pela Globo por muitas horas. Ao receber o feedback da imprensa, descobrimos que se a gente fosse pagar por todo esse marketing, o custo teria sido cinco vezes maior.

swissinfo.ch: Quais as chances de medalhas da Suíça nas Olimpíadas?

A.R.: A maior chance temos no mountain bike olímpico, triátlon e provavelmente no tênis, com uma das melhores equipes do mundo. Temos também o remo e o hipismo. Em Londres tivemos quatro medalhes. Agora espero ter mais. E nós iremos festeja-las todas as noites no Baixo Suíço.

Relações Brasil e Suíça

Com 14% das importações e 33% das exportações da Suíça na América Latina, o Brasil é o mais importante parceiro comercial da Suíça no subcontinente (antes do México e da Argentina).

Frente à crise financeira e econômica, o comércio com o Brasil caiu consideravelmente em 2009. Após uma recuperação no ano seguinte, o comércio bilateral está em queda. Uma das razões é a redução do preço das matérias-primas no mercado mundial.

Exportações da Suíça (2015): CHF 2.049 milhões (-1,9% em relação a 2014). Importações (2015): CHF 1.430 milhões (-10.7%)

Exportações suíças ao Brasil: produtos farmacêuticos, vitaminas, produtos químicos, máquinas, aparelhos eletrônicos, instrumentos de precisão, relógios e bijuterias.

Importações suíças: metais preciosos, pedras preciosas, produtos agrícolas, peixes, metais e combustíveis.

Investimentos suíços no Brasil: CHF 13,6 bilhões (final de 2014). Investimentos do Brasil na Suíça: 157 milhões.

Suíços no Brasil: 15.730 (2015). Brasileiros na Suíça: 19.442 (2015). 

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