Your browser is out of date. It has known security flaws and may not display all features of this websites. Learn how to update your browser[Fechar]

Batalha pelo Gripen


Eleitores decidem compra de aviões de caça




O Gripen e comandante do exército suíço André Blattmann enfrentarão um teste decisivo na votação de 18 de maio. (Keystone)

O Gripen e comandante do exército suíço André Blattmann enfrentarão um teste decisivo na votação de 18 de maio.

(Keystone)

Na década de 1990, pacifistas e políticos de esquerda fracassaram na tentativa de impedir compra de novos caças para a Força Aérea Suíça. Vinte anos depois, eles voltam à carga, desafiando decisão parlamentar de adquirir 22 aviões da marca sueca Gripen.

No dia 18 de maio deste ano de 2014 cabe ao povo referendar ou não o projeto do Ministério da Defesa de gastar CHF 3.1 bilhões (US$3.5 bi), no próximo decênio, para a compra de aparelhos de caça leves, JAS-39, fabricados pela empresa aeroespacial Saab.

Os caças, ainda em fase de aperfeiçoamento, visariam substituir os já envelhecidos Tigre F-5 e corroborar na proteção do espaço aéreo suíço até o ano de 2050.

O desfecho dos votos deve pôr fim a dez anos de avaliações técnicas e debates políticos sobre o caráter de uma renovação parcial da Aeronáutica Suíça.

Em setembro de 2013, ambas as câmaras do Parlamento aprovaram a aquisição dos 22 caças, apesar de oposição manifestada pela esquerda e por um pequeno partido centrista.

Uma aliança dos Socialistas, dos Verdes e do minúsculo Verdes Liberais - bem como do grupo pacifista, ‘Suíça sem Exército’ – lançou um referendo sobre a questão, depois de coletar 66.000 assinaturas, suficientes para exigir um pronunciamento decisivo pelo povo.

Jo Lang, députado ecologista

Os riscos reais, os perigos e ameaças são de natureza civil. A segurança deveria passar pela saída do nuclear e uma política climática e não pela compra dos caros Gripen.

Desperdicio de dinheiro público

Para Evi Allemann, proeminente senadora socialista, a compra do Gripen, além de desnecessária, é um desperdício do dinheiro público, de custo excessivamente alto.

“A aquisição e a manutenção da frota vai custar mais de 10 bilhões de francos,” diz a senadora. Esta soma seria mais bem empregada em educação, transporte público ou apoio ao seguro de aposentadoria e invalidez.

Evi Allemann alega que a Suíça, estando rodeada por países amigos, não precisa de novos aviões de caça para vigiar seu espaço aéreo. Além do mais, argumenta ainda, há o risco de comprar um tipo de caça que ainda não passa de protótipo e é inferior ao F/A-18 Homet, que, atualmente, constitui o pilar da Força Aérea Suíça.

O modelo Gripen que a Suiça deseja adquirir existe, de fato, unicamente no papel. Ele deve ser desenvolvido a partir de um avião a jato existente.

Jo Lang, conceituado membro do Partido Verde e cofundador do grupo ‘Suíça sem Exército’, acredita que o Parlamento e o Governo optaram por prioridades erradas.

“Os verdadeiros riscos, perigos e ameaças são de natureza civil. Segurança, entende Lang, seria desistir da energia nuclear e adotar uma política ambiental em vez de gastar bilhões na compra de caças Gripen.”

Força Aérea Suíça

A Aeronáutica Suíça é constituída atualmente de 32 F/A 18 Hornet e 54 F-5 Tiger.

A frota de Tiger deve ser substituída por 22 caças JAS-39 Gripen.

A Força Aérea inclui ainda aviões de treinamentos suíços da marca Pilatus e mais de 40 helicópteros, bem como ‘drones’ e aviões especiais de transporte.

O Gripen sueco concorre com o Rafale francês, da empresa Dassault, e com o Eurofighter, do consórcio europeu EADS.

Primeiro segurança

No entanto, partidários da aquisição do aparelho dizem que a segurança do país é o principal motivo da modernização da frota da Força Aérea.

Jacob Buchler lidera um comitê multipartidário em campanha pelo caça Gripen.

“Estão em jogo a segurança de nosso país e a proteção de nossa população nos próximos 30 anos,” afirma o parlamentar do Partido Democrata Cristão, de centro-direita.

Segundo ele, ninguém sabe o que o futuro nos reserva e se a Suíça será atingida por um conflito sobre recursos naturais, incluindo água, ou se irá surgir uma grave disputa sobre energia, alimentação, trabalho ou informações.

O comitê, integrado por representantes de várias agremiações – Partido do Povo Suíço, Partido Democrata Cristão, Partido Radical e Democratas Conservadores, além de representantes do setor da engenharia – insiste que a Suíça precisa dos caças suecos como garantia de uma defesa aérea confiável e acessível.

Procurando rebater alegações de compra luxuosa, Corina Eichenberger, senadora do Partido Radical, de centro-direita, afirma: “O Gripen não é uma Rolls-Royce. É um moderno e confiável tração quatro rodas.”

Dois outros aviões de caça foram eliminados durante longo processo de avaliação, realizado por autoridades suíças competentes.

Jakob Büchler, deputado democrata-cristão

A segurança do nosso país e a proteção da população nos próximos 30 anos é que estão em jogo.

Prosperidade e segurança

O ministro da Defesa, Ueli Maurer, tem sido um entusiasta defensor desses caças. Ela argumenta que a Suíça se pode permitir o luxo de despender dinheiro nesse modelo de avião para colaborar na segurança da Europa, frisando que o Gripen vale seu preço, e que a neutra Suécia é um ideal parceiro comercial.

Saab propõe “um interessante acordo de compensação” a empresas suíças à altura de 2.5 bilhões de francos aproximadamente, diz o ministro.

Em março, o grupo tecnológico estatal, Ruag, recebeu da Saab um multimilionário contrato sobre desenvolvimento e produção de “payload mountings”, ou seja, mecanismos para transporte adicional de tanque de combustível, mísseis ou sistemas de reconhecimento. 

Empresas suíças do setor de engenharia, maquinaria e indústria relojoeira, bem como pesquisadores em universidades do país esperam também ser beneficiados. Os negócios ligados ao setor devem incrementar a criação de aproximadamente mil empregos, nos próximos dez anos

Ueli Maurer diz que a projetada aquisição dos aparelhos é um compromisso político e o resultado de anos de debates, realçando que a Aeronáutica Suíça reduziu sua frota para menos de 90 aviões. Nos anos 1990, eram cerca de 300 aparelhos.

História

Para os partidários, a oposição aos caças representa a última tentativa dos pacifistas de solapar as Forças Armadas.

Em 1993, os eleitores rejeitaram proposta de moratória sobre a compra de aviões de caça após uma movimentada campanha do grupo ‘Suíça sem Exército’ e ampla campanha oposta, em favor da aquisição, liderada pelo Ministério Suíço da Defesa. A decisão popular preparou o caminho para a compra de 34 F/A 18 Hornets.

Tratava-se da segunda iniciativa dos pacifistas. A primeira, em 1989,  provocou rebuliço, pois um terço dos votantes aprovou a abolição do Exército.

Em 2009, o grupo reuniu assinaturas suficientes dos eleitores para um projeto de suspender a aquisição de aviões militares. A iniciativa esvaziou-se quando o governo abandonou seus planos.

Mas reagindo a uma decisão parlamentar do ano passado, o grupo coletou rapidamente assinaturas necessárias para exigir nova votação nacional sobre a questão.

Quatro assuntos em pauta

Além do referendo contra a compra do caça Gripen, os eleitores decidem sobre três outras questões, dia 18 de maio deste ano de 2014.

Uma das mais debatidas é a proposta sindical de instituir um salário mínimo nacional.

Outras propostas são relativas a uma proibição vitalícia, impedindo pedófilos condenados a trabalharem com crianças e, ainda, uma emenda constitucional visando incrementar o papel de médicos de família no sistema suíço de saúde.

Neste ano, preveem-se quatro votações. Esta é a segunda.

Ao mesmo tempo, haverá uma série de votos e eleições cantonais e locais, no dia 18 de maio.


Adaptação: J.Gabriel Barbosa, swissinfo.ch



Links

×