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Ciência Suíço cria laboratório em Portugal para combater o cancro

Reto Gassmann em seu laboratório.

(swissinfo.ch)

Reto Gassmann é um pesquisador suíço que trabalha na área da biologia molecular com o objectivo de encontrar um caminho para a cura do cancro. Perceber como as células, quando da divisão celular, processam a segregação do seu genóma, constitui o alvo principal da pesquisa que desenvolve no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), no Porto, onde swissinfo.ch falou com Gassmann.

Recentemente distinguido com uma EMBO Installation Grant, uma bolsa de 50 mil euros por um período de três a cinco anos, o jovem cientista viu assim reconhecido o alto padrão da sua pesquisa e agora pode criar o seu próprio laboratório e recrutar investigadores para a sua equipa no IBMC.

Para além do prémio monetário, a EMBO Installation Grant permite também que Gassmann faça parte da prestigiada rede de trabalho EMBO Jovens Pesquisadores.  O que para o cientista representa “uma forma de ter muito apoio.” E esclarece: “Está desenhada especificamente para quem está a começar a ser independente. É muito bom teres essas ligações, aproveitar a experiência de toda essa gente e falares das tuas experiências com outras pessoas.”

(swissinfo.ch)

Perceber a divisão celular para combater e prevenir doenças

A grande motivação de Gassmann no IBMC é o continuar do trabalho que começou no pós-doutoramento, no Ludwig Institute for Cancer Research, em San Diego (EUA), observando mecanismos fundamentais de divisão de células e perceber como funciona a segregação cromossómica usando o nemátode C elegans como organismo modelo.

“Por exemplo, nós sabemos que nas células cancerígenas, que se dividem muito rapidamente e de forma descontrolada, falham a segregação do seu genoma com uma certa frequência. E acredita-se que esta falha de segregação de informação genética, contribui para a forma como as células cancerígenas podem fazer evoluir o cancro e tornarem-se mais malignas,” esclarece Gassmann.

A esperança é que, através da observação dos mecanismos fundamentais de como a informação genética é distribuida durante a divisão celular, seja possível perceber o que acontece de errado nestas células cancerígenas que de forma consistente segregam informação genética de forma errada.

“Estamos a tentar descobrir os mecanismos fundamentais que estão por de trás do processo de divisão de células e em particular a forma como os cromossomas são segregados.”

É do conhecimento que muitos destes “caminhos”  que operam na divisão celular estão de alguma forma implicados na doença, quer seja o cancro ou outras doenças.” Se entendermos as “ligações” ao nível molecular, temos um potencial território onde poderemos interferir usando medicamentos especificos.” A ideia é que quanto melhor se entender como funciona o sistema, maiores serão as oportunidades de atacar as doenças.

“Então, a determinado nível, e em determinado momento, e isto estará para além daquilo que estamos a fazer, as companhias farmaceuticas vão ficar interessadas em procurar potenciais alvos para medicamentos. É neste momento que a pesquisa de base se transforma em pesquisa aplicada. Espero que venhamos a contribuir para isso.”

O contacto com a realidade portuguesa

A viver no Porto desde março de 2012, Reto Gassmann já é um fã do estilo de vida português. Aprecia  a faceta acolhedora e amigável dos portugueses, assim como a gastronomia e o vinho de Portugal.

“Acho que aqui as pessoas disfrutam realmente da vida e levam-na com calma. Acho que isso é uma atitude saudável. Espero ficar por aqui um bom tempo e que os meus filhos cresçam aqui,” considera o helvético que também está contente com o facto de ter o mar por perto para praticar surf, o seu desporto de eleição.

Uma das supresas de Gassmann em Portugal foi quando abriu as candidaturas para a constituição da sua equipa: “Fiquei surpreendido com a qualidade dos candidatos. A maioria são portugueses, alguns vivendo no estrangeiro mas com vontade de regressar. Acho que significa que há muita gente à procura de trabalho na nossa área. É quase triste ver tanta gente com tantas qualificações que não encontra trabalho. De certa maneira, para mim é bom ter tanta gente tão boa disponível para trabalhar comigo. São pessoas altamente treinadas e com imenso potencial que agora são obrigadas a estar em casa porque não encontram trabalho.”

Mas a “história de sucesso da ciência em Portugal” faz com que Gassmann manifeste a esperança de que o país continue a investir em ciência, “pelo menos tanto quanto o fez no passado recente.” E deixa um alerta: “Os laboratórios portugueses são reconhecidos lá fora. Há muitas pessoas que são formadas aqui, que vão para fora e têm muito sucesso. Agora a preocupação é com o facto de os fundos poderem ser restringidos e todo o esforço que tem sido feito ao longo de mais de vinte anos se possa perder.”

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De Bülach até ao Porto

Reto Gassmann nasceu na pequena cidade de Bülach, perto de Zurique, onde viveu até ser adolescente. E lembra que, “muito provavelmente, ter tido um bom professor de biologia no ensino secundário atraiu sua atenção para observar e questionar: O que é a vida? Como é que funciona? Quais são os mecanismos que estão por detrás?” E, por isso, decidiu estudar bio-química. Depois vieram os estudos em Zurique, no ETH (Escola Politécnica Federal de Zurique).

Em 2001 mudou-se para Edimburgo, Escócia, para iniciar o doutoramento na área de biologia celular. A ida para San Diego aconteceu quando optou por mudar ligeiramente os métodos experimentais e iniciou o trabalho com outro modelo de sistema que é o nemátode C elegans. Após seis anos e meio de California aconteceu a decisão de dar início ao seu grupo de investigação e rumar até à capital do norte de Portugal, Porto.

“Então, juntamente com a minha mulher, comecei a procurar colocações. Ou seja, no fundo tinhamos de encontrar duas colocações. O que nestes dias não é muito fácil. Estávamos à procura na Europa e, de repente, surgiram duas oportunidades neste Instituto (IBMC). Acontece que a minha mulher é do Porto e a sua família está aqui. Então, pensámos que era uma boa coincidência e resolvemos vir para cá e começar os nossos laboratórios aqui.”

swissinfo.ch


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