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Cultura acima de tudo A Suíça visita Bolsonaro, em chave artística

O artista brasilero-suíço Marcelo Galvão Tomaz de Castro, o Marcelot, também arte-terapeuta, atirou no que viu e acertou também no quê não viu mas intuiu, ou seja, o nervo descoberto da alma política brasileira e exposto numa eleição quase histérica. 

O artista Marcelot ao lado do busto que fez de Bolsonaro

O busto de Bolsonaro faz parte de uma série intitulada "Heads of Power", e ganhou projeção ao ilustrar a capa do semanário brasileiro Época. 

(Arquivo pessoal)

“Bolsonaro... eu me lembro bem que eu levantei, fiz o meu café, e pensei no meu prazo: 'não vai dar mas tem que dar'.  Consegui terminar a escultura um dia antes, sexta feira, às oito e meia da noite. Depois tomei banho, fiz uma foto minha ao lado do busto do Bolsonaro e mandei para os meus amigos. Se eu não tivesse essa pressão do prazo, aquela data, 8 de dezembro, ainda hoje estaria procurando a sombracelha no Bolsonaro”, afirma ele para a swissinfo.ch por skype, do seu atelier em Zurique, sobre a polêmica exposição da sua obra em pleno território de confronto de ideias, a FAAP, uma fundação/universidade em São Paulo.

Na realidade, o busto é um trabalho plástico e não, exatamente, uma escultura. “Eu acho que em português não existe esta distinção. Em alemão, a gente chama de 'Skulptur' (escultura) quando retiramos do bloco aquilo que não queremos. Já o termo 'Plastik' seria quando você pode moldar, tirar ou adicionar algo, como quando trabalhamos com argila”, explica o brasileiro, com precisão suíça.

A obra de arte tem um metro e dez centímetros de altura e pesa vinte quilos e mais uma tonelada de polêmica. “Como eu não conhecia o Bolsonaro, na verdade, foi até mais fácil. Eu não tinha nenhuma reação emocional a ele, eu não gosto e nem desgostava. Apenas foquei o meu olhar na forma e nas proporções do rosto”, conta ele, que usou agulhas de costurar colchão e fios de lã na construção da obra.

O busto do novo presidente, de papel amassado e armadura de crochê, segundo uma técnica especial, foi o trabalho final da residência artística de Marcelot na FAAP, entre os meses de outubro e dezembro de 2018. Como artista, ele pressentiu a tempestade no ar, antes de todos, e a imobilizou para a eternidade. 

“Conversando com as pessoas, eu sabia que ia dar Bolsonaro. E deu uma confusão quando fiz uma palestra na FAAP,  porque os alunos eram de esquerda. Eles perguntavam porque eu não fazia o busto do Haddad, e eu respondia, 'gente, a proposta era a de fazer o presidente do Brasil'”, lembra ele.

Marcelot abre sua obra ao público na FAAP, em São Paulo

Apresentação do busto na FAAP, em São Paulo, onde Marcelot desenvolveu seu projeto durante uma residência artística. 

(Aline Canassa/FAAP)

O lado positivo do confronto, Marcelot não demorou a descobrir.“Eu  fiquei puto da vida, lógico. Eu sou político mas não sou partidário. Se não fosse a situação de alunos me confrontando, eu não saberia isso”, conta ele. “Como artista e terapeuta eu percebo que tem artista que, muitas vezes, pinta com a intuição mas parece que não tem uma intenção. Quando eu fui para a FAAP, eu queria passar isso aos alunos lá”, conta Marcelot. Ele usou a sua experiência e sensibilidade com a arte-terapia para alcançar o inconsciente coletivo.

Marcelot faz uma análise mais profunda da histeria nessa eleição. “Como arte-terapeuta, eu sei que as pessoas que pensam preto e branco são simples. Existe o bom e o ruim. Quando cheguei na FAAP, vi as faxineiras conversando com a secretária, que perguntou: 'vocês vão votar em quem?',  'no Bolsonaro!', 'o que, neste monstro?'. Aproveitei e perguntei a elas quem era ele. Elas me responderam que não sabiam e nem conheciam o seu partido político. Mas ambas tinham a mesma opinião e desencadeavam um otimismo no pensar e no agir e por isso ele foi eleito.”

O artista gostou da reação emocional ao trabalho. Durante a mostra, tentou explicar a origem da ideia, o projeto 'Heads of Power' (Cabeças do poder), de bustos de personalidades históricas para museus clássicos. 

“Com quem tive a chance de conversar, eu dizia, 'olha, esse projeto tem muito a ver com a cultura grega'. Eu, como artista, trabalho a pré-ideia. Todo o projeto Heads of Power, é baseado no jornal enquanto comunicação, assim, se eu tivesse interesse apenas no aspecto estético, eu usaria papel japonês, papel de algodão, que não descolore, podia fazer com um papel bonito, mas eu uso o jornal dentro desta simbologia de informação e acho que por isso o trabalho pegou forte, porque é informação, pois a mídia foi quem o fez ”, explica Marcelot, que imagina Putin com o Pravda, Trump, com o New York Times, e fez Napoleão Bonaparte com as folhas de Le Monde, além de Barack Obama.

Mas era difícil explicar o conceito da mostra e convencer os visitantes desnorteados com a ressaca eleitoral. ”Depois da exposição, um casal me falou assim, 'você conseguiu desagradar todo mundo', e me perguntei por que ele falou aquilo? Mas isso não me irritou, nem me machucou, não me doeu, porque o interessante é este aspecto do objeto em si falar mais sobre o processo eleitoral do que o jornal, como informação”, conclui Marcelot.

Entre quem queimaria o busto do Bolsonaro em praça pública, junto com o seu autor, e quem admirou a coragem do artista de colocar o dedo na ferida, sem ser linchado, salvaram-se todos, e a cultura acima de tudo. 

“Quando você apresenta-se como artista corre o risco, as pessoas te perguntam, se confrontam, te elogiam e tudo o mais. E você, se apresentando neste espelho, neste papel, você tem um feedback. Agora, o teu trabalho vai ter uma ressonância maior se ele provocar, enquanto objeto, uma reação qualquer que seja, no cognitivo, no emocional, na pessoa que está vendo. Então, eu acho, como terapeuta, que o processo é mais importante; como professor, o aprendizado é mais importante; e para o artista é fundamental o resultado, independentemente do processo”, comenta o Marcelo Galvão.

Detalhe de busto de Bolsonaro, feito com folhas do jornal Folha de S.Paulo, alvo rotineiro de críticas do presidente. 

(Arquivo pessoal)

O busto está guardado num depósito da família de Marcelot, no interior do estado. O destino final ainda é uma incógnita, assim com o enigma deste novo governo de Pasárgada. Nem a FAAP se manifestou, segundo Marcelot. Talvez, num futuro próximo, a obra veja a luz num museu ou galeria, dentro da casa de algum colecionador, eleitor ou não de Jair Messias Bolsonaro, ou leitor da Folha de São Paulo, matéria-prima usada na realização da escultura. 

”Você tem os valores greco-romanos, tem o jornal que está desaparecendo. Hoje, para mim, a internet é o Olimpo, um lugar que não existe e existe e onde você pode criar um perfil falso, pode criar um deus de você.” Ou um mito, assim por dizer.

Na Suíça, pela porta dos fundos.

A trajetória de vida de Marcelo Galvão Tomas de Castro, desde a cidade natal, em Guaratinguetá de Potim, interior paulista, até Zurique, passa antes por Pindamonhangaba, onde estudou Educação Artística, e depois por Munique, na Alemanha, onde, sem falar alemão, entrou na Akademie der Bildenden Künste (Academia de Belas Artes), para, finalmente, trabalhar em Münsterlingen, no cantão de Thurgau.  “Eu vim para a Europa atrás de cultura”.

O artista e pós graduado em arte-terapia conseguiu um estágio, em 1999,  na Psychiatrische Klinik Münsterlingen através de um convênio com a Academia de Belas Artes de Munique. O projeto era de fazer arte com os pacientes da renomada clínica suíça.

No meio de idas e vindas, ele acabaria ficando lá entre 2002 e 2011. “Foi como ganhar na loteria. Na época, havia muito dinheiro na Suíça para a saúde. Os pacientes permaneciam muitas vezes um ano e meio em tratamento psiquiátrico, em regime semi-aberto. Nos fins de semana, eles retornavam para casa. Mas ao longo do meu tempo ali as coisas mudaram. A clínica foi a primeira a se tornar uma empresa, acabaram as verbas públicas do cantão. E os seguros de saúde diminuíram o tempo máximo de pagamento para um tratamento psiquiátrico de 9 meses para um mês”, explica Marcelot, que chegou a ter 36 pacientes sob a sua supervisão.

A clínica era famosa por ter sido o laboratório de criação do primeiro remédio neurolético, em 1959, e onde trabalhou o pesquisador Hermann Rorschach, inventor do teste psicológico que leva seu nome. Já na década de 60 e 70 ela se transformaria mais numa prisão do que num hospital. “Neste período decadente, quando se dizia que alguém iria se tratar em Münsterlingen significava uma passagem somente de ida”, conta ele que chegou a suceder quem o tinha empregado. “Foi muito difícil. Eu era um 'Auslander', um forasteiro e, mais ainda, eu era um terceiro-mundista.”

E antes de ser promovido e contratado, a clínica foi obrigada, pelo tratado de Schengen, a procurar nos países membros uma pessoa para o lugar. “Passaram-se seis meses e nada. Mas a Suíça é muito nepotista e meu antecessor só conseguiu o meu visto quando eu estava decidindo voltar ao Brasil”, lembra Marcelo Galvão.  

Identidade

Ele acabaria pedindo demissão. “Quando saí da clinica psiquiátrica fiquem assim, quem sou eu ? Não sou mais terapeuta, não sou mais artista, não sou mais brasileiro, eu não sou nada. Engraçado, pela primeira vez eu fiquei muito tempo sozinho”, lembra Marcelot.

A virada foi a busca pela identidade artística. Marcelo Galvão buscou o Marcelot atravessando a fronteira da arte-terapia para o território da arte. “Atualmente, tenho 5 projetos artísticos, um deles é o Crazy. Quero trabalhar o que eu vivenciei na psiquiatria”.

“Por exemplo, hoje em dia a histeria é muito ligada a dar gritinho e chamar a atenção. A histeria real se chama histrionismo, máscara em grego. A histeria é caracterizada quando duas realidades que são conscientes não podem coexistir. Neste caso, eu usaria a pintura no lugar do jornal”, propõe Marcelot aos mecenas e galeristas do mundo das artes. “O que me falta realmente é um círculo de pessoas de influência, que me apoie, que me estenda a mão, que se interesse por aquilo que eu faço como arte”, desabafa o artista.

Marcelot em seu atelier com busto de Napoleão

Busto de Napoleão guarda o ateliê de Marcelot em Zurique.

(Arquivo pessoal)

“A Suíça não me conhece como artista, eu não entendo as pessoas. Somos 12 artistas aqui na Binz 39, uma instituição famosa aqui em Zurique, e eu não sabia, me inscrevi, fui lá, vi o atelier e acabo de me mudar, um espaço legal para caramba, gostoso. Mas eu sinto falta do diálogo, de poder perguntar paras as pessoas, o que você faz? Eu adoro falar de arte, adoro estar com pessoas, não entendo este pessoal meio autista, com uma atitude 'porque eu sou artista, sou maravilhoso, aplaudam', eu não entendo”.

Marcelot e Marcelo Galvão são duas faces da mesma moeda e um ajuda o outro. O apelido chegou através de um equívoco na Suíça.”Fui ao ao dentista e escrevi Marcelo T. Galvao de Castro, e a carta seguinte veio com Marcelot. Achei ótimo, tem a ver com Lancelot (risos), adotei como nome artístico, pois cria uma associação positiva, Lancelot, cavaleiro”, conta ele.

Frieza e contrastes alpinos

Marcelo Galvão não teve colher de chá na Suíça e nem na Europa. Para se manter fez um pouco de tudo. Foi pintor de paredes e até palhaço de rua. E criou perfomances como o homem de papel andando de metrô, saindo da lata do lixo ou deitado na praça Marienplatz. “Ganhei uns três dias de cobertura jornalística”, recorda Marcelot que, por estar muito preocupado com os estudos e o trabalho para “sobreviver”, não teve contato com o cenário artístico brasileiro nestas últimas três décadas.

Marcelot teve que se virar como pôde para sobreviver em seus primeiros tempos na Suíça, inclusive como clown.

(Arquivo pessoal)

Ainda por cima Marcelot acabaria tendo que aprender o dialeto local. “Tenho um talento para os idiomas, e eu não sabia disso. Entrando pela porta de trás da Suíça descobri que eles não cozinham com champagne mas com água mesmo. A Suíça é um país evoluído e super protegido, cercado de Europa, mas eles são normais, cozinham com água”, observa ele.

Mesmo escaldado pelo tempo na vizinha Alemanha, Marcelo Galvão, ao desembarcar na Suíça, com cavaletes e pincéis e tintas, logo percebeu que deveria usar cores quentes para aquecer as relações sociais. O frio do clima também permeava a interação com outros seres humanos. 

“Na Alemanha, eles colam, você conhece alguém legal, bate e vai. Conversa e sai em uma semana, duas, um mês, três, quatro... mas aí tudo começa a esmorecer,  eles meio que te deixam de lado, mas se você continua a manter contato, dentro de um ano e meio eles voltam e depois de dois anos vocês viram amigos. E com o suíço é muito mais difícil pois ele não se conecta. Uma amiga minha me explicou que a Suíça é um país pequeno, e você muda muito e não tem amigos, a não ser os de infância, de faculdade, a família, os colegas de trabalho, o parceiro e, enfim, todo mundo que vem de fora vem a mais”, explica Marcelot.

Depois de 16 anos de Suíça, o brasileiro conquistou três amigos nativos. “Todos dizem que a Suíça é neutra. Não é bem assim. O suíço é neutro depois de cinquenta mil francos. Ele não é neutro abaixo desta cifra. Uma amiga minha teve que fechar a conta no banco porque tinha 42 mil. O gerente a chamou e solicitou um depósito de mais oito mil para mantê-la aberta”, revela ele.

“A Suíça é um país absurdo, onde os contrastes são imensos, tem um dos maiores número de suicídios do mundo. A gente percebe essa diferença de mentalidade, e eu digo isso como brasileiro que não sou mais. Hoje eu sou brasileiro com brasileiro, alemão com alemão e suíço com suíço. Se entro numa festa e dou boa noite e ninguém responde, eu e meu copo nos mudamos para outra sala. Aprendi a me calar a duras penas aqui na Suíça e na Alemanha”.

Não basta ser descendente de Frei Galvão para ter acesso a milagres. Talvez por ser da décima quarta geração - na linha direta da quinta filha do pai português do primeiro santo brasileiro - o tenha afastado de eventos extraordinários. A saída está no talento e na perseverança.

Marcelot está à espera de uma residência artística na prestigiosa Villa Massimo, em Roma, na Itália. E aproveita a ressonância do seu trabalho para ganhar espaço no seleto universo das artes visuais.

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