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Cinema


O último samurai


Por Luís Guita


Tem um trajecto de vida que se cruza com os anos dourados da 7ª Arte. Nunca realizou um filme mas, no seu percurso, construiu uma  história tão rica que pode inspirar um guião para cinema. Rui Nogueira é o homem cuja existência se funde com o história do cinema e  deu a descobrir o melhor da produção cinematográfica ao servir de elo de ligação entre protagonistas e espectadores.

 (Luís Guita)
(Luís Guita)

O trabalho com Henri Langlois na Cinemateca Francesa, os 33 anos que esteve à frente do CAC-Voltaire, em Genebra, o livro que escreveu sobre Jean-Pierre Melville, o trabalho como assistente de realização de Eric Rohmer e Jean Eustache, a fuga de Lisboa em direcção a Paris para não ser apanhado pela ditadura de Salazar, são apenas alguns dos momentos de uma vida dedicada ao cinema.

Entre Moçambique e Portugal

O encontro com Rui Nogueira aconteceu em Genebra e, como as conversas correm melhor à mesa, levou-me a conhecer a sua pastelaria portuguesa de eleição na cidade. Na companhia de café e pastel-de-belém começou por contar que nasceu no Porto e que foi em criança, com os anos de quem nem tem idade para ir à escola, que partiu de Portugal com a mãe ao encontro do pai, que os aguardava em Moçambique.

A introdução ao mundo do cinema acontece precisamente na ex-colónia portuguesa através dos relatos orais de um casal de enfermeiros,  apaixonados por cinema,  com quem viveu durante alguns meses e que todas as noites lhe contavam um filme diferente.

“Eu cresci não com a Branca de Neve ou algo assim. Tinha 7 ou 8 anos quando ouvi estas histórias. E quando vi o primeiro filme já conhecia os atores, já conhecia tudo. O primeiro filme  que me lembro ver foi o Corsário Negro, do Chano Urutea, com o Pedro Armendariz”   

Com 23 anos, e já casado, deixa Maputo para fazer a Faculdade em Lisboa. Mas a estadia na capital portuguesa é de curta duração. “Cheguei no dia 5 de Outubro e fugi no dia 5 de Dezembro. Cheguei às 5 da manhã e às 10 horas estava na prisão”, lembra Rui Nogueira. Estávamos no ano de 1961 e a ditadura de Salazar não tolerava a mínima oposição. “Era o 5 de Outubro, dia de implantação da República e a oposição manifestava-se sempre. Eu fui à procura dos meus amigos, que estariam certamente a manifestar-se contra o governo. Houve um momento em que todos começaram a correr, eu corri mas fui apanhado.”

Dois meses depois, a presença em mais uma manifestação contra o regime de Salazar acabou por precipitar o virar de uma página de vida ao provocar a fuga de Lisboa em direcção a Paris.

De Paris para o Mundo

A doação de 1800 cópias de filmes à Cinemateca Suíça:

“Tenho uma alma de colecionador. Ao longo da vida fui colecionado coisas. Eu colecionava tudo. Como às vezes não conseguia obter os filmes que queria, comecei a comprar com o meu dinheiro. Nessa altura já estava a ganhar bem a minha vida, o que não acontecia ao principio. A minha mulher também ganhava um bom salário e não tinhamos filhos. Por conseguinte, todo o dinheiro que a gente tinha gastava nisso. Ontem o  Fédéric Maire, Diretor  da Cinemateca Suiça, disse que eu tinha dado à Cinemateca Suíça 1800 cópias. Se a Cinemateca Portuguesa tivesse sido uma Cinemateca que me tivesse tratado como eu merecia, e como sou tratado no estrangeiro, talvez essas cópias hoje estivessem em Lisboa. As cópias eram minhas, comprei-as com o meu dinheiro, punha-as onde eu quisesse. Estão todas na Cinemateca em Lausanne. Genebra queria ficar com elas mas, quando eles quiseram saber onde estavam as cópias, eu  já as tinha depositado na Cinemateca Suíça, organismo nacional. Atualmente o responsável pela cultura do Cantão de Genebra é uma pessoa com quem eu me dou muito bem, mas o anterior era um filho da mãe.”

“Foi em Paris que tudo começou. Com a Cinemateca Francesa, o Henri Langlois. No fundo, foi aí que comecei a encontrar toda a gente.”

E foi também na Cinemateca que encontrou a sua segunda mulher, Nicoletta Zalaffi. “Encontrei uma moça que era casada e tinha filhos. E eu destrui a casa dela, o casamento dela, tudo. Foi a mulher com quem vivi 31 anos e foi a mulher da minha vida. Sem a minha mulher eu não teria sido ninguém. Foi ela que fez tudo, que me apoiou moralmente, que me ajudou, que trabalhou a meu lado, e deu cabo da saúde dela por causa disso. Eu devo-lhe tudo. Partilhava-mos todos os amores! Tudo!” 

Na altura, escrevia para revistas francesas. Depois foi trabalhar com Henri Langlois na Cinemateca Francesa durante dois anos. “Eu era embaixador da Cinemateca. Ele foi um tipo absolutamente espantoso, um tipo completamente doido mas genial. Tive que o deixar porque  ele não me pagava, não pagava a ninguem porque não tinha dinheiro. Tinha dificuldades por causa de um problema da Cinemateca com o (André) Malraux (ministro da Cultura de França)” lembra Rui Nogueira.

De entre os muitos artigos que escreveu e entrevistas que realizou, Rui Nogueira gosta de realçar a entrevista que acabou por dar origem ao livro “O Cinema segundo Melville”. A encomenda inicial era para um livro/entrevista com François Truffaut mas, “como aquilo não começou lá muito bem”, depois surgiu a ideia de fazer com Jean-Pierre Melville, o que foi aceite pelos editores.

Sobre o desencontro com Truffaut, Rui Noigeuira recorda: ”Nós ficámos  amigos e ele um dia explicou-me: Sabe, sempre sonhei com um livro de entrevistas mas teria gostado se fosse feito por uma mulher. – E eu compreendo isso perfeitamente.”

Otto Preminger, Samuel Fuller, Nicholas Ray e William A. Wellman estão entre aqueles que Rui Nogueira enquandra na classe de “os mais belos encontros” do seu percurso de entrevistador. Percurso composto por “uma colecção de nomes que não tem fim à vista” mas de onde lembra,  com particular carinho, as personalidades de Raoul Walsh, Henry Fonda, Frank Capra, Edward G. Robinson, Gene Kelly, Faye Dunaway, Gloria Swanson, Stephen Boyd e Charlton Heston.

Um passeur português na Suíça

Sobre o seu papel à frente do CAC Voltaire, Rui Nogueira, longe de qualquer tipo de pretensão, afirma: “Servi de passeur, passei. Passei o testemunho.”  E, depois de manifestar a sua aversão a dirigir pessoas - por isso, sempre contou com o apoio da mulher, Nicoletta, para o ajudar na condução do CAC Voltaire - revela: “O que eu gostava era de fazer programção. Escolher os filmes, alinhar os filmes.”

“Saudade” é o titulo da biografia de Rui Nogueira que brevemente será lançada por  Editions Metropolis.

Facebook da Fundação Rui Nogueira para o Cinema

O cinema português:

“Durante dois anos, de 1974 a 1976, ocupei-me da difusão e divulgação do cinema português no mundo. Houve 17 ou 20 prémios para o cinema português enquanto me ocupei dele. E, está claro, os cineastas premiados estavam convencidos que eram génios e que não precisavam de mim, enquanto os não premiados diziam que eu não os ajudava e só ajudava os outros. Por exemplo, Manoel de Oliveira sempre foi um grande senhor. Mas outros como o Seixas Santos e o António Pedro Vasconcelos foram uns sacanas, completamente. O pior de todos foi o António Reis. Tinha muito talento mas era um individuo completamente horrivel, horrivel! O contrário daquilo que eu penso que um homem deve de ser. Eu conheci-os todos nessa altura, todos. Gostava muito do João Botelho, acho que fez filmes muito bons. Eduardo Geada, menos, mas muito simpático. Na altura, durante os anos em que estive no cinema português, o Secretário de Estado era o David Mourão Ferreira, com quem eu não me entendi.” 

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