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Festival de Cinema de Locarno


Quando santos ajudam a quebrar tabus


Por Alexander Thoele, Locarno


O segundo filme português em disputa na mostra competitiva do Festival Internacional de Filme de Locarno, "O Ornitólogo", do realizador João Pedro Rodrigues, é uma intepretação pessoal da vida de Santo Antônio de Lisboa, onde não faltam elementos de faroeste, homoerotismo e espiritualismo. 

Cena do filme "O Ornitólogo", no qual o ator Paul Hamy faz o papel de "Fernando". (Festival de Locarno)

Cena do filme "O Ornitólogo", no qual o ator Paul Hamy faz o papel de "Fernando".

(Festival de Locarno)

Pássaros chocando ovos às margens da lagoa. Um aventureiro de binoculo dentro de um caiaque. Águas cristalinas percorrendo um canyon de matas densas e montanhas áridas. As primeiras cenas do "O Ornitólogo" lembram mais um documentário científico.

O diretor português João Pedro Rodrigues não esconde ter uma grande paixão pela natureza. "Antes de estudar cinema me formei em biologia. Desde a infância gostava de observar pássaros", contou à swissinfo.ch. Porém sua intenção não é alertar para espécies ameaçadas, mas sim voltar às origens de um dos mais importantes mitos de Portugal, Santo Antônio de Lisboa. E essa é a segunda vez que compete ao "Leopardo de Ouro" em Locarno.

Não existem registros históricos, mas acredita-se que o frade português tenha nascido em Lisboa por volta do ano de 1200 e falecido em Pádua, na Itália, em 13 de junho de 1231. O santo das casamenteiras, protetor dos animais, grande orador e milagreiro, também era um intelectual e poliglota, dizem os relatos. Seu nome de batismo era "Fernando", como também é o nome do principal personagem do filme de João Pedro Rodrigues, interpretado pelo ator francês Paul Hamy.

Em sua moderna versão, ele é um pesquisador que vai a uma reserva florestal de Trás-os-Montes, na fronteira entre Portugal e Espanha, para investigar as raras cegonhas negras e termina sofrendo um naufrágio. Perdido e inconsciente nas matas, tem-se o início da sua conversão.

Sentido da espiritualidade

Duas peregrinas chinesas perderam-se a caminho de Santiago de Compostela e o salvam. Mas elas não são o que parecem e terminam o aprisionando para um posterior sacrifício. Fuga, ruídos nas matas, medo e provações. Ele perdeu seu caiaque, mapas e rede no celular e, o mais importante, medicamentos imprescindíveis.

Fernando encontra um pastor mudo, com quem relações sexuais. Ele o assassina à faca em uma briga passional. A fuga continua. "É evidente que o filme se passa na atualidade. Portanto, não tem muito a ver com a história de Santo Antônio. No filme eu faço uma espécie de reflexão: se a espiritualidade faz sentido nos dias de hoje, em um mundo tão dividido e com tantas intolerâncias", decifra o cineasta.

É o que explica a utilização de simbologias que surgem alegoricamente durante o roteiro. Fernando é um acossado. Assim como Santo Antônio, ele passa por diversas provas nas florestas densas do norte de Portugal. Depois de enterrar a faca no pastor, ele termina sendo alvejado por amazonas topless que chegam a cavalo, mas que o liberam. Ele também é perseguido por homens fantasiados de "careto", o tradicional personagem mascarado do carnaval de Trás-os-Montes, que falam mirandês, o segundo idioma de Portugal, falado por pouco mais de oito mil pessoas nas regiões montanhosas do Norte.

Ao queimar as impressões digitais com um prego incandescente, Fernando indica que quer se desprender dos laços terreno. Ao meditar na beira de um lago, ele reúne centenas de peixes para escutá-lo. A cena é uma referência às experiências de Santo Antônio quando se questionou sobre a frequente aparição da imagem do peixe nas Escrituras. João Pedro Rodrigues, que se declara não religioso, tem uma explicação. "Penso que todos nos ansiamos por alguma transcendência e ter algum sentido qualquer na nossa vida."

Blasfêmia alegre

A procura de Fernando começa a se definir ao final do filme. O personagem reencontra o pastor assassinado, talvez um herege, enfia o dedo em sua ferida e prova do seu sangue. Ele lhe sopra na sua boca e expulsa as tentações, confirmando-o em sua vocação. Uma provocação adicional para o público? É muito mais do que isso.

"Eu gosto de chamar alegremente de blasfêmia. É como ocorreu com a maior parte da arte religiosa. Pense no Michelangelo ou o Caravaggio: Michelangelo pintou a Capela Sistina e depois os sexos todos foram tapados, só a pouco tempo é que voltaram a descobrir. Havia essa carnalidade de representar figuras mitológicas em que há uma evidência física do interdito", declara João Pedro Rodrigues.

Na coletiva de imprensa, o cineasta chegou a falar em "faroeste" e "um filme de super-heróis", mas relativiza. "Quando falei em super-herói, estava brincando. Mas o fato é que um santo é sempre um super-herói". E o faroeste em "O Ornitólogo" se explica pela escolha de um cenário absolutamente selvagem, em suas palavras "uma zona onde ainda resiste uma espécie de força original da natureza", onde o trabalho exigiu licenças especiais do governo português por se tratar de uma área de proteção ambiental.

Nas suas matas, João Pedro Rodrigues realizou duas filmagens independentes: uma para registrar os pássaros em 2014 e, a segunda, com os atores, no verão de 2015. As últimas cenas foram gravadas em Pádua, na Itália.

No final, como na história, Santo Antônio chega em Pádua. No filme, Fernando chega com o pastor ressuscitado, cujo nome é, nada mais nada menos, Jesus. E encontra no caminho oposto das suas peregrinas chinesas. Ironia? Humor negro? O sincretismo católico está cheio delas.

Biografia

João Pedro Rodrigues nasceu em 1966 em Lisboa.

Formado em biologia, ele decidiu se dedicar ao cinema. Estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema e foi assistente de realização e montagem de realizadores como Alberto Seixas Santos, Teresa Villaverde e Jorge Silva Melo.

Filmografia

- O Ornitólogo (2016), selecionado para a competição oficial do Festival de Locarno
- A Última Vez que Vi Macau (2012), longa-metragem co-dirigido com João Rui Guerra da Mata e selecionado para a competição oficial do Festival de Locarno e ganhador de um prêmio do júri especial.
- Manhã de Santo António (2012), curta-metragem
- Alvorada Vermelha (2011), curta-metragem co-dirigido com o diretor e parceiro de longas datas João Rui Guerra da
Mata.
- Morrer como um Homem (2009), longa-metragem selecionado para a seção "Un Certain Regard" no Festival de
Cannes.
- China China (2007) - curta-metragem
- Odete (2005) – longa-metragem
- O Fantasma (2000), longa-metragem selecionado para a competição oficial do Festival de Veneza.
- Viagem à Expo (1998) – curta-metragem
- Esta É a Minha Casa (1997) – média-metragem
- Parabéns! (1997) – curta-metragem, 54.º Festival Internacional de Cinema de Veneza

O filme Ornitólogo foi uma co-produção da produtora portuguesa Blackmaria, com a francesa House on Fire e a brasileira Ítaca Filmes

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