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História


São Paulo vista pelos olhos da fotógrafa Hildegard Rosenthal


Por Heloísa Broggiato


Autorretrato de Hildegard Rosenthal, anos 1940. ()

Autorretrato de Hildegard Rosenthal, anos 1940.

O fotojornalismo brasileiro é permeado pelo olhar estrangeiro de Hildegard Rosenthal (1913-1990). Parte do trabalho que representou a modernização da linguagem fotográfica no século XX está na exposição “A São Paulo de Hildegard Rosenthal”, que reúne 25 fotos na DOC Galeria, em São Paulo.

Nascida em Zurique, Hildegard viveu na Alemanha e na França antes de fugir do nazismo e aportar em terras brasileiras, em 1937. A partir daí começou a produzir reportagens sobre o Brasil para veículos estrangeiros e locais, reunindo um acervo de 3 mil negativos que hoje pertencem ao Instituto Moreira Sales (IMS).

Leica

As imagens foram escolhidas a dedo pelo curador Sérgio Bürgi, coordenador de de fotografia do IMS. Ele conta que a fotógrafa viveu um momento importante para a fotografia moderna, entre os anos 20 e 30, quando houve a introdução da câmera de pequeno formato, como as da marca Leica. “A partir desse período foi possível reduzir um pouco a consciência de quem estava sendo fotografado”, explica Sérgio Bürgi. “Ficou mais fácil fazer fotos documentais e menos posadas, principalmente imagens no universo da política”, completa.

No final dos anos 30, Hildegard começou a produzir reportagens sobre o Brasil para veículos estrangeiros e locais. Ela fotografou a cidade de São Paulo e outras regiões do país com a visão de quem dominava a técnica e tinha formação influenciada pela Bauhaus, escola alemã de design, artes plásticas, fotografia e arquitetura.

Em Frankfurt, Hildegard foi aluna de Paul Woff, médico que nunca exerceu a profissão porque acabou se dedicando à fotografia integralmente e cuja própria agência fotográfica prosperou durante o regime nazista. As fotos de Hildegard tinham grande teor autoral e documental e, como contratada da agência Press Information, preenchia as páginas dos jornais O Estado de S. Paulo, Folha da Manhã, a Cigarra, entre outros.

Dados biográficos

A fotógrafa Hildegard Rosenthal, cujo nome de solteira era Baum, nasceu em Zurique em 1913 e passou a adolescência em Frankfurt, na Alemanha, onde estudou pedagogia de 1929 até 1933. Em seguida, passou cerca de dois anos em Paris e voltou para Frankfurt para estudar fotografia com Paul Wolff. Com a ascensão do regime nazista, foi convidada a se retirar do país quando chegou ao conhecimento da Gestapo que ela namorava um rapaz judeu. Teve de deixar a Alemanha em 24 horas e veio para o Brasil com a roupa do corpo.  

Estabeleceu-se em São Paulo a partir de 1937. Nesse mesmo ano começou a trabalhar na loja Kosmos, do ramo de material fotográfico. Meses depois foi contratada pela agência Press Information e passou a fotografar São Paulo, cidades do interior do estado, Rio de Janeiro e cidades do sul do Brasil. Mesmo tendo o português como língua estrangeira, também fazia textos para as reportagens. Além disso, fotografou personalidades do cenário cultural da época como o pintor Lasar Segall e o escritor Guilherme de Almeida. Outros colegas do ramo da fotografia, todos imigrantes foram Peter Scheier (1908-1979), Curt Schulze (1917-1985), Hans Günter Flieg (1923), Heinrich “Hejo” Joseph (1912-1981) and Fredi Kleemann (1927-1974). Assim como Hildegard tinham em comum a influência da Bauhaus, as mesmas origens culturais e noções de geografia e política. Segundo o professor de comunicação da Universidade de São Paulo, Boris Kossoy, até que esse grupo se destacasse na fotografia brasileira, essa era uma área dominada por amadores do século XIX.

Em 1948, Hildegard interrompeu as atividades profissional por causa do nascimento da primeira filha. Em 1958, com o falecimento do marido acabou assumindo os negócios da família e o trabalho fotográfico se manteve pouco conhecido até 1974, quando o crítico de arte Walter Zanini organizou uma exposição com as fotos de Hildegard, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). Hildegard Rosenthal faleceu em São Paulo, em 1990.

Bauhaus

Segundo Bürgi, a linguagem da fotografia moderna, já praticada com alguns anos de antecedência na Europa, chegava a provocar um certo estranhamento aqui no Brasil. As influências Bauhaus e do Construtivismo transformaram a maneira de construir a imagem que passou a ser realizada no Brasil a partir dos anos 40. “Hildegard fez parte disso, no Brasil.

“Foi um movimento de renovação”. “Ela tinha pequena estatura mas era muito arrojada como jornalista e fotógrafa”, conta Bürgi. Prova disso é que além do trabalho de fotojornalismo manteve, por meio da linguagem moderna do que produzia, um diálogo constante com artistas contemporâneos no Brasil e na América do Sul, como os do grupo Santa Helena, formado por artistas imigrantes como Alfredo Volpi e Fúlvio Penacchi; ou filhos de imigrantes italianos como Aldo Bonadei, Alfredo Rizzotti, Mario Zanini e Humberto Rosa; ou espanhóis, como Francisco Rebolo; ou portugueses, como Manuel Martins.

Modernistas

Bürgi cita também a relação da produção de Hildegard Rosenthal com a do fotógrafo argentino Horácio Coppola. Ele também passou uma temporada na Alemanha, frequentou a Bauhaus e bebeu na fonte do também suíço Le Corbusier, durante a visitas do arquiteto à Buenos Aires, em 1929.

Enturmado com a intelectualidade paulistana, foi levado por influência do poeta e crítico de arte, Mário de Andrade a documentar a obra de Aleijadinho, artista cuja obra figura como uma das mais significativas expressões da arte colonial no Brasil.

Assim como Hildegard, Coppola mostra São Paulo por meio de elementos da arquitetura local. O argentino enfatiza os ângulos geométricos das fachadas de Buenos Aires e a urbanização do centro da cidade. Esses  mesmos traços podem ser observados no trabalho de Hildegard, o que mostra a instalação permanente de uma noção modernista para a fotografia na América do Sul.


São Paulo, swissinfo.ch



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