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Histórias que nunca foram escritas


Filme brasileiro revela outra face do analfabetismo




Exibido na competição internacional de curtas-metragens do Festival Internacional de Filmes de Friburgo, “A Vida Que a Gente Só ouve Falar”, da jovem cineasta Júlia Tami Ishikawa, mostra uma maneira diferente de perceber as palavras.

O filme é uma obra sensorial que destaca de forma inteligente o contraste entre a tradição oral e a dinâmica do espaço urbano através de histórias contadas por quem navega entre esses dois mundos. (FIFF 2015)

O filme é uma obra sensorial que destaca de forma inteligente o contraste entre a tradição oral e a dinâmica do espaço urbano através de histórias contadas por quem navega entre esses dois mundos.

(FIFF 2015)

Jornalista recém-formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Júlia Tami Ishikawa conversou com swissinfo.ch durante o festival de filmes de Friburgo, onde ela veio defender seu primeiro filme na competição internacional de curtas-metragens.

Jovem, mas com uma boa experiência em projetos de alfabetização e de comunicação para a cidadania, Ishikawa foi estagiária e consultora na Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (UNESCO) e colaborou para veículos de comunicação sobre educação. Em seu filme, ela mostra como Sioneide, uma ex-vereadora do nordeste brasileiro, e Antônio, zelador de uma escola, transformam a percepção da linguagem quando o saber depende de ouvir.

De Manari, em Pernambuco, a Franco da Rocha, em São Paulo, a cineasta procura deixar o registro de histórias que nunca foram escritas.

swissinfo.ch: O que inspirou você a realizar “A Vida Que a Gente Só Ouve Falar”?

Júlia Tami Ishikawa: Acho que inspiração desse filme veio do trabalho que realizo desde muito nova com pessoas em fase de alfabetização. Desde o colégio, eu trabalho em projetos de alfabetização de jovens e adultos, principalmente. Essa realidade sempre me motivou muito a entender as formas como as pessoas enxergam a realidade e convivem na cidade e principalmente os desafios que muitos migrantes que vêm de fora de São Paulo enfrentam quando eles chegam na cidade.

swissinfo.ch: Qual a importância de registrar as histórias contadas pelos dois protagonistas, uma ex-vereadora e um zelador de escola que não sabem ler nem escrever?

J.T.I.: Principalmente porque são pessoas que têm uma dificuldade grande de comunicação, pela limitação da escrita e da leitura, eu achava muito importante ter esse registro também de forma audiovisual. Esse projeto começou como livro-reportagem, na faculdade. Foi um projeto que eu escrevi inteiro, todo o argumento como um livro-reportagem, mas eu senti muita falta de ter uma voz mais ativa e de ter uma participação mais envolvente das pessoas com as quais eu conversava.

Para mim, não bastava ter um material escrito, inclusive porque esse não seria um material ao qual os personagens teriam acesso e o meio audiovisual foi uma solução para vários questionamentos que apareceram durante a produção desse projeto de livro-reportagem. Acho que foi muito mais rico ter trabalhado dessa maneira.

swissinfo.ch: Você mostra uma maneira diferente de perceber as palavras...

J.T.I.: Sim, isso é uma coisa que me intrigou muito, a forma como as pessoas percebem a língua portuguesa de maneiras tão diferentes. Eu sempre fui uma apaixonada pela língua, pela escrita, sempre trabalhei com comunicação, com português, com escrita, redação. Então, essa maneira tão diferente de enxergar a língua, para mim, foi o grande mote do filme. As formas de relacionamento com a linguagem e como isso muda a partir do momento em que a gente conversa com pessoas que têm uma realidade de escrita totalmente diferente.

swissinfo.ch: Sioneide, que chegou a ser vereadora sem saber ler, revela a importância da comunicação no exercício da cidadania. Explique um pouco isso.

J.T.I.: Durante meus estudos na faculdade de jornalismo, e os meus primeiros estágios e trabalhos, eu percebi a importância da comunicação não somente como ofício, mas também como fator essencial para o exercício da cidadania. Por isso, eu acabei trabalhando com projetos que envolviam a escrita como forma de expressão, como forma de manifestação da cidadania, da cultura, do conhecimento. Acho que isso está presente no filme de forma indireta, talvez não é tão explícito, mas essa é uma questão que é também para mim muito cara, como que a comunicação afeta no exercício pleno da cidadania.

swissinfo.ch: O que lhe sensibilizou ao problema do analfabetismo?

J.T.I.: Acho que uma coisa que me sensibilizou foi esse meu primeiro trabalho com alfabetização, mas uma coisa que sempre me incomodou foi o fato do Brasil ter 13 milhões de pessoas analfabetas e ao mesmo tempo tratar dessa temática de uma forma tão trivial. Eu sempre acompanhei muito notícias, artigos e opiniões sobre o tema, mas eu sempre senti isso de uma forma muito corriqueira.

Quando sai o senso do IBGE, a gente entende só “ah, não sei quantos mil analfabetos”, “ah, é um problema na educação” e eu nunca consegui enxergar uma continuidade nesse debate. Muitas vezes a gente vê até o analfabetismo como um ponto já passivo, não é um ponto mais delicado, discutido tanto quanto outros temas. É ainda uma questão muito sensível no Brasil. Acho que a vontade, com esse documentário, foi ir um pouco além e conseguir entender de uma forma mais profunda essa questão do aspecto pessoal e do aspecto dos personagens.

swissinfo.ch: O filme mostra uma relação especial de quem não sabe ler com cada letra do alfabeto...

J.T.I.: Esse foi o ponto mais espontâneo que eu consegui chegar. É um momento alto do filme, quando a gente consegue entender uma forma diferente de enxergar o alfabeto. Demorou muito para chegar nesse ponto nas conversas. A gente começava as perguntas com questões muito práticas do dia a dia, das dificuldades que todo mundo sabe que existem, para chegar numa conversa tão íntima de como as pessoas enxergam as formas, de como elas observam as letras do alfabeto, que é uma forma totalmente diferente de quem já lê desde novo. É uma percepção de descoberta, de novidade, que muitas pessoas do interior se deparam quando elas vêm para São Paulo.

swissinfo.ch: Você se formou mesmo em jornalismo. Por que esse interesse pelo cinema?

J.T.I.: Na verdade, eu sempre gostei muito de documentário, mas foi uma surpresa a realização desse filme. Foi um processo todo. Comecei com ele escrito e foi evoluindo. Eu senti a necessidade de trazer a questão audiovisual e acabei me apaixonando por documentário. É um mundo novo, onde eu aprendi muita coisa e pretendo continuar produzindo.

swissinfo.ch: Ficou mais fácil produzir filmes com a internet?

J.T.I.: Ficou mais fácil divulgar os filmes, ter acesso a festivais como esse. Meu filme foi uma produção bem independente, foi um trabalho de conclusão de curso na universidade, mas mesmo assim eu acabei tendo acesso a festivais de ponta no mundo inteiro, que eu pude me inscrever graças à internet.

A internet ajuda tanto obter informação sobre produção, quanto engajar pessoas ou achar personagens nessa produção. Todos os meus contatos em Pernambuco foram feitos via Facebook. Consegui, por esse meio, um contato lá que me ajudasse na produção.

FIFF 2015

O filme “Gonzáles”, do mexicano Christian Díaz Pardo, ganhou o prêmio "Regard d’or”, principal premiação do Festival Internacional de Filmes de Friburgo (FIFF), no valor de 30 mil francos.

A 29ª edição do festival contou 40 mil entradas durante uma semana e apresentou uma programação rica de 150 filmes.

As obras selecionadas são provenientes principalmente da Ásia, África e América Latina.

swissinfo.ch

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