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Democracia direta Suíça: "Um país populista na melhor acepção da palavra"

group of populist politicians

Um encontro de líderes populistas europeus em Milão, Itália, em maio de 2019.

(Copyright 2019 The Associated Press. All Rights Reserved.)

O populismo é algo a ser erradicado? O jornalista alemão Ralf Schuler, autor do livro "Sejamos populistas", afirma que esses movimentos são expressões saudáveis da discórdia nas democracias. Os políticos precisam escutar os populistas, diz Schuler.

swissinfo.ch: O "populismo" existe?

Ralf Schuler: O populismo existe, sem dúvida. Mas a palavra é utilizada erroneamente. "Populismo" não é uma categoria política como liberalismo, socialismo ou conservadorismo. É uma técnica política de importância crescente que oferece respostas simples para questões complexas e conduzem as pessoas na direção errada. A democracia é o governo do medíocre, da mediana; nem os idiotas nem (infelizmente) os mais inteligentes conseguem fazer a maioria nela. Assim, em lugar de oferecer soluções complexas, a tentação é oferecer soluções simples que pareçam boas para atrair o maior número possível de eleitores. 

swissinfo.ch: O populismo está crescendo na Europa?

R.S.: Sim. Movimentos sob a denominação geral de populistas estão claramente em ascensão. Há exemplos nos países nórdicos (o Partido dos Finlandeses, o Partido dos Democratas Suecos), na França (a Frente Nacional), na Grã-Bretanha (o UKIP, o Partido do Brexit) e também no sul da Europa, com grupos esquerdistas como o Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia.

Mas não devemos tentar acabar com eles. Em vez disso, temos de considerar é que os "populistas" são uma espécie de sinal de alerta para as democracias: são movimentos levantam questões que os partidos tradicionais ignoravam. Frequentemente, nas sociedades ocidentais, esses temas são a migração, a identidade nacional ou a integração do Islã. A ascensão do populismo também representa uma grave crise de confiança nos partidos tradicionais, nos seus políticos e em suas políticas.

swissinfo.ch: Como você chegou a essa conclusão de que o populismo não é um fenômeno negativo?

R.S.: Onde o populismo é forte, as pessoas se manifestam porque querem que os políticos resolvam determinados problemas. É um sinal positivo: em vez de cair na apatia ou deixar de votar, as pessoas se expressam democraticamente. Na maioria dos casos, o populismo leva a um comparecimento maior às urnas, porque também obriga seus adversários a agir.

Os problemas começam quando os outros partidos não aceitam os populistas como concorrentes legítimos no mercado de opiniões. Tentam excluir os populistas e restringir seu acesso a plataformas. Só que esse cordão de isolamento não funciona na era digital: os populistas simplesmente criam seus próprios espaços na internet e neles criam suas próprias verdades – e é progressivamente mais difícil lidar com essas verdades quando elas retornam à arena política "real". Os resultados são a polarização e as diferenças irreconciliáveis.

Ralf Schuler, nascido em Berlim Oriental em 1965, é o editor da seção parlamentar do diário Bild, da Alemanha. Seu livro "Lass uns Populisten sein: Zehn Thesen für eine neue StreitkulturLink externo" ("Sejamos populistas: dez teses para uma nova cultura de debate") foi publicado pela editora Herder.

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swissinfo.ch: Que mudanças você espera quando diz "sejamos populistas"?

R.S.: Em termos bastante simplificados, o populismo é um ingrediente básico de todo sistema político e diz respeito ao centro da sociedade, não às suas margens. A política, como arte de conduzir a "polis" (a cidade, em grego), precisa representar as preocupações das pessoas. A política tradicional precisa voltar para o povo.

Muitas vezes parece que os eleitores são vistos pelos políticos como uma chateação. Mas é assim que tem de ser. Os políticos precisam ser mais conscientes, escutar mais, observar mais, olhar os problemas que estão agitando a internet. Precisam reconhecer quando a migração provoca divisões na sociedade, quando as vendas de armas de festim e spray de pimenta disparam, quando o medo está no ar.

A globalização, o comércio internacional, a União Europeia – os bons políticos não entregam essas questões de bandeja para aqueles que estão gritando nas margens da sociedade; eles as colocam no centro dos debates, onde podem ser tratadas com princípios humanitários e claramente democráticos. 

swissinfo.ch: Deixando de lado a expressão "populista", qual seria a melhor maneira de descrever as semelhanças entre políticos como Marine Le Pen, Matteo Salvini e Geert Wilders, entre outros?

R.S.: Muitos desses chamados populistas são, na realidade, conservadores nacionalistas. Geert Wilders [do holandês Partido da Liberdade], por exemplo, se concentra quase exclusivamente em uma questão, o Islã. Mas, embora o termo conservadorismo nacionalista seja politicamente mais preciso, eu entendo por que o termo "populista" é utilizado no debate político. É uma expressão pejorativa, excludente, muito útil aos adversários desses movimentos.

Até mesmo o Centro Federal Alemão para Educação Política classifica o populismo como "palavra estigmatizada", que serve para desacreditar adversários políticos. O termo é bastante vago e abstrato, e existe o perigo implícito de que seja usado para delinear uma espécie de zona de exclusão política, separada da política séria. Isso não vai dar certo.

swissinfo.ch: Como a mídia deve utilizar a palavra "populismo"?

R.S.: Acima de tudo, deve usá-la com moderação. E, quando o fizer, deve usá-la para descrever o que significa: a simplificação exagerada, a venda de soluções fáceis que provavelmente não vão resolver o problema, a alimentação de falsas esperanças, a determinação de manter os eleitores presos na ignorância.

Para a democracia, o perigo é que muitos eleitores são seduzidos por essas soluções fáceis e, quando elas fracassam, isso gera ainda mais frustração e radicalização. Mas, embora a maioria dos movimentos populistas possa ser analisada [pela mídia] sem o uso dessa expressão matadora, "populismo", entendo que seja difícil.

swissinfo.ch: Você considera a Suíça um país populista?

R.S.: Se eu tivesse de usar a expressão, diria que a Suíça é um país populista na melhor acepção da palavra. A tradição que permite que as pessoas decidam pelo voto temas atuais e importantes garante uma conexão sólida entre os políticos e os cidadãos. Sou um grande admirador do modelo suíço, mas sei que não é fácil transplantar essa tradição para países que não estão acostumados com ela.

swissinfo.ch: Existem países, culturas ou idiomas mais suscetíveis que outros à política populista?

R.S.: Não. Não vejo conexão entre populismo e nações, idiomas ou culturas. De outro lado, é importante notar que os movimentos populistas sempre florescem onde problemas evidentes não são resolvidos; na maioria dos países europeus, isso significa migração, integração, Islã e coesão social.

Outro fator importante é a grande divisão entre as áreas urbanas e rurais. Não é o caso só dos Estados Unidos, mas também da Grã-Bretanha, da Alemanha e da França. Nesses lugares, uma elite metropolitana concluiu erroneamente que sua visão de mundo e seu estilo de vida eram representativos de todos. Mas temas como a abertura à globalização, a sustentabilidade, a migração e a diversidade de gênero são encaradas de modos muito diferentes nas cidades e no campo. E é fácil esquecer que, em uma democracia, a maioria é que decide, não a moralidade ou as atitudes.

swissinfo.ch: Existe conexão direta entre a retórica e a política populistas e a democracia direta?

R.S.: Para os políticos, a democracia direta implica o desafio extra de tornar suas propostas claras, atraentes, de ir diretamente ao ponto, até de modo exagerado. Mas a democracia direta não está necessariamente ligada a retórica agressiva, ataques ou perseguição.

De novo, vejo que a retórica fica mais radical onde a política tradicional insistentemente se recusa a lidar com questões controversas. Os movimentos populistas atraem pessoas das margens que são sensíveis aos seus argumentos.

swissinfo.ch: Você diz que a era digital expandiu as vozes e o debate público, o que contribuiu para as atuais fraturas da política europeia.

R.S.: Sim. Vinte anos atrás, os meios de comunicação de massa detinham o monopólio da informação, ao passo que hoje as massas tomaram os meios em suas próprias mãos. Hoje, no que diz respeito aos debates em sociedade, a questão não é mais saber se um tema será debatido, mas onde.

Quando o rádio, a televisão e os jornais não tratam desses temas, eles se deslocam para as redes, onde desenvolvem uma dinâmica própria, que às vezes volta – com mais força – para a sociedade.

O melhor exemplo foi o debate em torno do Pacto de Migração da ONU, que no verão de 2018 já estava fervendo na internet e não era tratado nem pela mídia tradicional nem pelos parlamentos. O resultado foi uma desconfiança desse tipo de acordo internacional, e vários Estados se retiraram dele.

swissinfo.ch: Que mudanças podemos esperar no futuro?

R.S.: Se quisermos evitar mais polarização e mais radicalização na sociedade, a política terá de ser mais rápida, mais direta e mais confiável no tratamento das questões urgentes. Por exemplo: os políticos precisam estabelecer limites efetivos de migração para a Europa e dentro dela, para não tensionar o nível de aceitação da população que recebe os migrantes e para que a integração destes contribua para o crescimento orgânico da sociedade.

Os protestos contra o TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento) entre os Estados Unidos e a União Europeia mostraram que é preciso explicar ampla e claramente o livre comércio e os benefícios mútuos que ele traz. Talvez a cooperação europeia e internacional tenha de ser redefinida: menos centrada em unanimidade e mais aberta a divergências nacionais e identidades.

A Europa precisa se concentrar na regulação das coisas importantes, aquelas que estão além da capacidade dos estados-nações, e não na regulação da vida cotidiana das pessoas. O G7 ou o G20 precisam enxergar o diálogo e a troca como fins em si mesmos, em vez de produzir documentos com conclusões vazias. A retórica política precisa se tornar simples e compreensível, os atores políticos têm de transmitir credibilidade e devem estar sempre atentos ao que as pessoas estão dizendo.


Adaptação: Lucia Boldrini

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