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Depois de Hiroshima "A Suíça queria sua própria bomba atômica"

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"Blindado ", 230x170 cm, óleo sobre tela, 2017     

(Gilles Rotzetter)

Durante quatro décadas, a Suíça fez pesquisas para dotar-se da arma nuclear. O artista Gilles Rotzetter se debruçou sobre essa história e conta, na entrevista a seguir, que ele ficou surpreso de ver “como ainda faltam respostas”.

swissinfo.ch: O sr. apresenta uma exposição intitulada “Swiss Atom Love”(*). Do que se trata?

Gilles Rotzetter: Eu conto a história da bomba atômica suíça. Um mês depois de Hiroshima, a Suíça decidiu construir a bomba.

Gilles Rotzetter

(Marc Latzel)

Quem exatamente decidiu? Havia um plano secreto?

É isso que é interessante. Tudo é muito bem documentado. Era parcialmente secreto, mas também parcialmente oficial porque tem duas histórias paralelas. De um lado, o abastecimento em energia e, por baixo do pano, a da bomba atômica suíça. Houve até uma votação sobre o assunto com a  lniciativLink externoa popular “pela interdição das armas atômicas”, em 1962. Com o tempo, numerosos atores surgiram. O programa de armamento nuclear suíço começou em 1945 e durou até 1988. E os planos da bomba atômica só foram definitivamente abandonados em 1996, quando a Suíça assinou o tratado contra as armas nucleares.

Como o sr. trabalhou nesse assunto?

Começou por uma anedota. Um amigo me perguntou “você sabe que a Suíça queria uma bomba atômica? Puxa vida, eu não sabia. Aí comecei a me interessar. Eu pensava que, logicamente, com uma história tão antiga, tudo já tinha sido contado. Mas descobri rápido que tinha zonas obscuras. Entre elas, o papel de Paul Scherrer, que trabalhou com os americanos durante a Segunda Guerra Mundial. É uma figura central dessa história e tem muitas perguntas ainda sem resposta. Ele era líder da comissão de estudos pela energia nuclear mas, ao mesmo tempo – segundo enquetes de jornais dos anos 1990 – ele dirigia os esforços da Suíça para se dotar da bomba atômica.

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"Good morning Herr Züblin", 50x60 cm, huile sur toile, 2016 

(Gilles Rotzetter)

O próprio Paul Scherrer trabalhou na bomba Suíça?

Em todo caso é o sugerem os artigos de imprensa até agora. Em um relatório oficial encomendado em 1996 pelo então ministro da Defesa Adolf Ogi, seu papel não é exatamente precisado. O problema é que Paul ScherrerLink externo a brûlé ses archives personnelles avant sa mort.

Quais são os resultados mais espetaculares de suas pesquisas?

O mais espetacular é o número de respostas que faltam. Memorável é a citação do antigo chefe das forças aéreas. Em pleno escândalo financeiro sobre a compra dos aviões Mirage, ele disse: “Pouco importa que avião de combate você compra, o que conta é que ele seja capaz de levar uma bomba atômica até Moscou”.

Como o sr. teve acesso a essas informações?

Tinha um jornalista do Tages-Anzeiger, de Zurique, que se interessou muito por esse assunto até os anos 1990. Ele transferiu todos os resultados de suas investigações a um arquivo privado. Eu sou um artista, mas também sou leitor. Visitei muitos arquivos, especialmente na ABB, e estou em contato com vários historiadores no mundo inteiro. Só que um historiador pode dificilmente conhecer tudo dessa vasta questão, até porque numerosos documentos ficarão inacessíveis até 2050

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"Réduit national potato blues", huile sur toile, 170x130 cm, 2017

(Gilles Rotzetter)

O sr. traduziu suas pesquisas complexas em imagens muito coloridas, brutas, praticamente infantis. Isso funciona?

Infelizmente, não é possível pintar como uma criança. Todos os meus trabalhos resultam da pesquisa, se alimentam dela. Mas não só pinturas. A exposição apresenta também um vídeo que conta essa história. Por contraste com as pinturas que são metafóricas, o vídeo é mais realista. A tecnologia, a natureza e o homem são sempre componentes de meu trabalho. Nesse tema convergiam todas essas áreas de interesse. Depois, tratava-se de encontrar uma maneira de contar a história. Eu me questionei: como essa história foi contada até agora? E o que falta? De uma certa maneira, eu tomo distância entre a representação histórica, as informações resultantes da pesquisa e a pintura enquanto mídia.

E agora, o sr. sabe por que a Suíça queria a bomba?

Sei, a ideia era que todos os países da Europa teriam a bomba atômica e, portanto, a Suíça também precisava ter. O argumento da neutralidade foi esquecido. Estávamos no auge da guerra fria.

 (*) Gilles Rotzetter ” Swiss Atom Love – a Suíça e sua bomba atômica”, Museu de Belas Artes de Lucerna, de 10 de junho a 20 de agosto de 2017


(Traduction de l’allemand: Marc-André Miserez)

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