Deslocalizações e desindustrialização Suíça tornou-se alvo fácil e vulnerável

A economia suíça tem demonstrado uma resiliência notável à desindustrialização das últimas décadas. Mas o anúncio da demissão de massa da Alstom na Suíça reaviva os temores da produção nacional.

Em Birr, no cantão da Argócia, Alstom produz turbinas hidráulicas. 1300 funcionários devem perder o emprego após a retomada das atividades energéticas do grupo francês pela General Electric.

Em Birr, no cantão da Argócia, Alstom produz turbinas hidráulicas. 1300 funcionários devem perder o emprego após a retomada das atividades energéticas do grupo francês pela General Electric.

(Keystone)

Uma verdadeira bomba foi lançada na quarta-feira, 13 de janeiro, contra os funcionários suíços da General Electric (GE), os políticos, mas também todos os atores da indústria suíça. Dois meses depois de assumir a divisão de energia do grupo francês Alstom, o conglomerado americano anunciou planos de cortar até 1300 dos 5500 postos de trabalho no país.

Além dos cortes de empregos, todo o tecido econômico do cantão da Argóvia (centro) teme o pior, já que a Alstom emprega cerca de 5500 fornecedores na região.

Especialista em competitividade das nações no instituto IMD, em Lausanne, Stéphane Garelli não esconde sua preocupação.

swissinfo.ch: Como é que a Suíça foi afetada pela aquisição das atividades da Alstom na Europa pela General Electric?

Stéphane Garelli: Na França, a General Electric tinha assinado um acordo com o governo no momento da aquisição da Alstom para preservar os locais de produção e os empregos. O grupo foi forçado a analisar as possibilidades de reorganização no resto da Europa. E temos de admitir, infelizmente a Suíça se tornou um alvo fácil e vulnerável.

O problema são os custos de produção tradicionalmente elevados, que pioraram depois da decisão do banco central de remover a taxa mínima do euro, o que levou a uma forte valorização do franco no ano passado. Para um grupo internacional, como a General Electric, o que faz suas contas em dólares, manter as atividades de produção na Suíça, neste contexto, é muito difícil de justificar.

swissinfo.ch: O fantasma da desindustrialização, brandido por sindicatos e federações da indústria, também deixa o senhor preocupado?

S.G.: A Suíça é um dos poucos países ocidentais que conseguiu manter uma forte base industrial. A contribuição da indústria para o produto interno bruto (PIB) manteve-se em torno de 20%, graças principalmente à indústria de relógios, que tem tido um enorme sucesso nos últimos anos. Em comparação, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Japão perderam nas duas últimas décadas quase 20% de suas indústrias e setores inteiros de atividades produtivas.

Nem por isso, atualmente o futuro da indústria suíça levanta sérias preocupações. Os impactos já são conhecidos: há, por um lado, as empresas que deixam nosso país, como a General Electric, mas também as que não vêm mais se instalar nele. Trabalhar para um instituto de promoção econômica é certamente a profissão mais difícil de praticar hoje na Suíça.

Outro impacto que é menos visível, mas mais pernicioso: muitas empresas suíças estão trocando seus fornecedores locais por outros no exterior. Isto tem um impacto real sobre o tecido industrial do nosso país.


swissinfo.ch: As estatísticas oficiais mostram que 31360 empregos foram perdidos na indústria entre 2008 e 2015, mas, ao mesmo tempo, 261700 vagas foram criadas no setor de serviços (saúde, social, educação e formação). Isso não é um fenômeno muito normal e desejável para os países industrializados altamente desenvolvidos como a Suíça?

S.G.: Este desenvolvimento, na verdade, diz respeito a todos os países ocidentais. No entanto, é lamentável que os empregos sejam perdidos na indústria em favor de vagas criadas principalmente nas administrações. Sem a indústria, os serviços se tornam muito vulneráveis. Grande parte das patentes estão relacionadas com a indústria, a única que tem a capacidade de levar ao mercado novos produtos. Além disso, a nível individual, um funcionário da indústria não pode ser convertido rapidamente em funcionário de banco ou de seguradora, por exemplo.

swissinfo.ch: Para o senhor, não é possível ficar sem indústria...

S.G.: A indústria é, não só um grande fator para a criação de riqueza, mas também inovações, avanços científicos e tecnológicos. Todos nossos estudos mostram que a indústria é fundamental para a prosperidade de um país. Este é um dos elementos-chave da competitividade da Suíça. Para continuar a inovar e criar valor agregado, é essencial manter uma relação estreita com a indústria. Mesmo as atividades de baixo ou médio valor agregado, se elas estiverem perto do consumidor final, elas têm um futuro na Suíça. 

swissinfo.ch: Os sindicatos condenam a falta de estratégia industrial do governo, principalmente a passividade do ministro da Economia, Johann Schneider-Ammann. O que o senhor acha disso?

S.G.: A Suíça é de certa forma uma vítima de seu sucesso. Com a Alemanha, é um dos países que melhor resistiram à desindustrialização na Europa. As autoridades, portanto, não acharam que era necessário ter uma política ativa nesta área. Mas desde o ano passado, houve uma aceleração da deterioração das condições de enquadramento. Temos que fazer a pergunta sem tabu: será que oferecemos um ambiente que permite que a indústria produza na Suíça? Alguns políticos continuam argumentando que empresas suíças são muito resistentes e conseguem se adaptar. Vemos hoje que o limite foi atingido.

swissinfo.ch: O que fazer? Reintroduzir uma taxa mínima com o euro?

S.G.: Isso seria, obviamente, um sopro de ar fresco bem-vindo para as empresas de exportação, mas o banco central suíço já não tem credibilidade suficiente para repetir a operação. Ninguém iria levá-lo a sério. A política de câmbio disfarçado que estabiliza o euro em cerca de 1,10 CHF é provavelmente a melhor solução. Sem dizê-lo oficialmente, o banco central também está tentando estabilizar o franco suíço frente a outras moedas, particularmente em relação ao dólar. É uma política inteligente que evita choques importantes para a indústria. Além disso, seria sensato rever a política de atração de empresas estrangeiras à Suíça, estando bem ciente de que será cada vez mais difícil trazer novas empresas.

A Indústria Suíça

De 1960 até o presente, a contribuição do setor secundário no PIB caiu pela metade na Suíça, passando de 40% a 20%. A porcentagem de emprego industrial, entretanto, caiu de 50% para 22%. Em comparação com outras economias avançadas, no entanto, a Suíça conseguiu preservar sua base industrial se voltando para produtos de nicho e de alta qualidade. Setores de engenharia de precisão, relógios, artigos de luxo e produtos farmacêuticos têm tido uma evolução particularmente positiva. 


Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch

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