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A ex-presidente Dilma Rousseff anda de bicicleta perto do Palácio da Alvorada, em Brasília, no dia 1º de setembro de 2016

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Dilma Rousseff se mudará em breve do Palácio da Alvorada com suas luxuosas instalações esportivas e seu heliporto, mas, apesar de tudo, sua vida não vai ser tão ruim.

Destituída por decisão do Senado na quarta-feira (31), a primeira mulher a ocupar a Presidência do Brasil passa a fazer parte da população de cerca de 12 milhões de desempregado na principal economia da América Latina.

E sairá pela última vez do Palácio da Alvorada, a residência presidencial, junto com sua cadelinha Fafá, da raça Dachshund.

Terá que redescobrir a vida sem o avião presidencial ou o exército de secretários, assessores, cozinheiros e guardas que tinha à disposição. Sem contar com o salário mensal de quase 30.000 reais que recebia junto com outros benefícios, por liderar este país de 206 milhões de habitantes.

Retornará agora para seu modesto apartamento em Porto Alegre, onde construiu sua carreira política e onde vive sua família.

Tem 30 dias para sair do Palácio da Alvorada, com a mudança paga pelo Estado e o direito de usar um avião da Força Aérea pela última vez, segundo o jornal Folha de São Paulo.

Também terá direito, como ex-presidente, a quatro guardas, dois assistentes e dois motoristas.

Vida mais simples?

À medida que o julgamento político ocorria de maneira inexorável até a destituição por manipular ilegalmente as contas do Estado, Dilma já havia começado, há semanas, a enviar livros e roupas para Porto Alegre, informou a Folha.

Seu apartamento fica no bairro litoral de Tristeza, onde, apesar do nome, Dilma sempre disse ter sido muito feliz.

Foi, ao longo do processo de impeachment, um espaço de evasão do furioso ambiente político de Brasília. Lá, Dilma passeava de bicicleta e via sua filha Paula, seu ex-esposo Carlos Araújo e seus netos Gabriel e Guilherme, detalha o jornal Zero Hora.

A brisa do mar "a ajuda a relaxar", assegura o jornal, citando políticos próximos a então chefe de Estado.

Alguns, inclusive, afirmam que ela se sente aliviada por sair do Palácio da Alvorada.

Projetado pelo aclamado arquiteto Oscar Niemeyer, este prédio branco e de corte baixo, situado nos arredores do plano piloto da moderna capital, pode provocar uma sensação de gigantismo e isolamento.

Tem paredes de vidro, um grande jardim, uma piscina imensa e uma capela separada, assim como um centro médico e um cinema. E claro, o Brasil sendo Brasil, não pode faltar um campo de futebol.

"Sentirá pena de ir, tem um médico 24 horas aqui, não deve saber como vivem os brasileiros comuns e como são terríveis os hospitais públicos", afirma Irma Ferreira, uma guia de turismo de 47 anos, que leva turistas ao palácio em visitas semanais.

Mas outros opinam que a mudança para uma escala mais humana será bem-vinda.

"Honestamente, penso que sentirá mais cômoda com uma vida mais simples", sustenta Alexandre Fragos Lacerda, analista de sistemas de 41 anos, que foi aos arredores do Palácio da Alvorada para expressar seu apoio a ex-presidente.

Procurar trabalho?

O que pode fazer agora uma presidente sem emprego, mas viciada em trabalho?

Dilma já recusou duas ofertas para estudar no exterior, uma na França e outra nos Estados Unidos, segundo a Folha.

Mas em uma surpreendente virada na quarta-feira, o Senado votou contra a inabilitação política da ex-presidente por oito anos, que era considerada automática com a condenação do impeachment.

Assim, ao invés de uma "pena de morte política", como ela mesma chamou, Dilma pode, em teoria, começar uma campanha de novo, como opositora aos autores do "golpe de Estado" constitucional, segundo sua definição do impeachment que sofreu.

Um rápido retorno à Presidência nos comícios de 2018 está fora do panorama, porque ganhou duas eleições consecutivas e a Constituição obriga a deixar passar um mandato antes de realizar uma nova tentativa.

Isso sem contar que saiu do poder com níveis baixíssimos de popularidade, em meio a uma profunda recessão econômica.

Entretanto, não pode descartar que busque uma cadeira no Congresso. Uma fonte próxima a Dilma disse à AFP que a batalha do impeachment reavivou a combatividade da ex-guerrilheira. Ela mesma recordou em sua defesa que ao longo de sua vida conseguiu se sobrepor à prisão e à tortura do regime militar, assim como passou por um câncer.

"Essa história não acaba assim. Estou segura de que a interrupção desse processo pelo golpe de Estado não é definitiva. Voltaremos, voltaremos para continuar nossa caminhada até um Brasil em que o povo seja soberano", proclamou após a votação a favor do impeachment.

"Vejo-a muito bem, muito forte, muito decidida. Nada deprimida", disse a fonte. "O impeachment lhe deu um novo impulso", destacou.

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