Falta de moradia na Suíça

Multis devem resolver crise imobiliária em Genebra

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Economia
Protesto contra a falta de moradia em Genebra: camas instaladas em paradas de ônibus (2009).Legenda:

Protesto contra a falta de moradia em Genebra: camas instaladas em paradas de ônibus (2009). (Keystone)

Por Simon Bradley, swissinfo.ch

O futuro prefeito de Genebra declara que as multinacionais baseadas na cidade suíça deveriam investir na construção de imóveis para seus funcionários.

Dessa forma, a resolver a "grave" penúria no mercado imobiliário. Nos últimos dez anos os preços dos imóveis locais explodiram.

Enquanto a região atraiu novas empresas e funcionários, a construção de novas moradias não acompanhou o mesmo ritmo. No entanto, observadores consideram que criticar as multinacionais não é a solução ao problema.
 
"É ilógico para as multinacionais que elas se instalem em Genebra, e economizem impostos, sem fazer esforços de se envolver com a comunidade e garantir que os empregados trazidos por elas encontrem moradia", declarou recentemente em uma coletiva de imprensa Rémy Pagani, vereador e secretário municipal de habitação, que assume em junho a prefeitura da cidade helvética.
 
Pagani, membro da coalizão de esquerda "A gauche toute", descreve a situação no mercado imobiliário de Genebra como "desastrosa". "Nossos cidadãos e seus filhos já não conseguem mais encontrar lugares para viver", lamentou, acrescentando que a penúria está prejudicando o status internacional da cidade e sua atratividade.
 
O vereador destacou dois casos envolvendo o gigante dos produtos de higiene Procter & Gamble e o negociante de petróleo Trafigura. Procter & Gamble, que instalou a sua sede para Europa, África e Oriente Médio em Lancy em 1999, pretende transferir 300 funcionários para os novos escritórios no distrito de Praille-Acacias-Vernets. Enquanto isso, Trafigura manifestou interesse em construir novos escritórios ao lado da estação de Eaux-Vives para 450 funcionários.
 
Pagani considera que esses projetos só deveriam ser possibilitados se eles respeitarem regras rigorosas - para cada novo emprego a construção de uma nova moradia - o que foi aprovado pelas autoridades da cidade de Genebra o plano diretor urbano de 2009. Em 2011 a estatística eram de sete novas residências construídas para 10 empregos criados.   
 
Em resposta, a Procter & Gamble disse não ter recebido nenhum pedido formal de ajuda para construir residências para os seus funcionários expatriados. "Apesar de estarmos atentos às preocupações das autoridades, tanto cantonais como municipais, a empresa não têm vocação para investir no mercado imobiliário e usualmente aluga os prédios onde está instalada", declara a porta-voz Irène Kämpfen ao jornal suíço Le Temps. "Atualmente não planejamos abrir mais vagas."

Críticas 

As propostas de Pagani foram suscitaram uma enxurrada de críticas, mas que serviram para destacar os problemas existentes. Christophe Aumeunier, secretário-geral da Câmara Imobiliária Genebrina, descreve suas reivindicações como "ridículas" já que as autorizações de construir ou aprovação de planos urbanísticos são na alçada dos cantões e não das cidades ou comunas.
 
"Não é a falta de investidores, mas sim a disponibilidade de terrenos seria um dos principais problemas para se construir em Genebra. Os políticos devem resolver essa questão e não as multinacionais, a quem o senhor Pagani parece estar querendo dizer 'procurem outro lugar para se instalar'", comenta.
 
Jacques Jeannerat, diretor da Câmara de Comércio de Genebra, afirma que o problema está mais ligado à morosidade dos procedimentos e recursos administrativos do que à questão de finanças."O dia em que os trâmites se tornarem mais flexíveis, estou convencido que a Procter & Gamble estará disposta a investir através do fundo de pensão da empresa", explicou o parlamentar do Partido Radical (centro-direita) à uma rádio local.

Cinturão verde 

No ano passado apenas 1.018 novos apartamentos foram construídos no cantão, menos da metade dos 2.500 necessários para atender a demanda. "Isso é a metade do que foi construído vinte anos atrás, um quinto da quantidade dos anos 1960. Se na época foi possível, por que agora não?", pergunta-se Marco Salvi, um especialista no mercado imobiliário atuante no grupo de reflexão Avenir Suisse.
 
"Temos espaço - Genebra tem um gigantesco cinturão verde. Poderíamos construir e maneira mais densa. Isso não é difícil, mas é uma decisão política e de abertura a novas soluções", acrescenta. O especialista da Avenir Suisse avalia que as multinacionais se tornaram bodes expiatórios fáceis no atual debate provocado pelas propostas "curiosas" de Pagani.
 
"Grandes discussões são necessárias para liberar novos terrenos para construir e de maneira ", concorda Hervé Froidevaux, diretor da empresa de análise do mercado imobiliário Wüest & Partner. "É difícil conseguir essa autorização para as zonas agrícolas."
 
O diretor criticou as autoridades, afirmando que elas subestimaram os prazos de projetos imobiliários e fracassaram em antecipar as tendências dos últimos vinte anos.

Pragmatismo de Zurique 

Os dois especialistas seriam pessimistas quanto à possibilidade de encontrar soluções rápidas ao problemas de falta de moradia Genebra.
 
Os benefícios dos projetos atuais de providenciar 3.300 moradias adicionais só serão sentidos dentro de cinco a quinze anos, acrescenta Froidevaux. "Penso que é necessário muito tempo e, possivelmente, uma ou duas recessões antes que as coisas comecem a se resolver", diz Salvi.
 
Ele destaca Zurique como exemplo do que poderia ser feito através de conversações e pragmatismo. "Em Zurique os bancos trocaram o centro da cidade pelos arredores e isso teve um grande impacto", diz Froidevaux. "O mesmo poderia ocorrer com Genebra, mas não existe uma grande pressão atual para isso. Só escutamos falar de perdas menores de empregos e isso entre as grandes empresas. Salvi concorda: "Zurique teve problemas similares e através de uma cultura de diálogo e consenso encontraram uma solução. Parece-me que isso está faltando em Genebra. Talvez seja apenas uma questão de mentalidade."

Adaptação: Alexander Thoele