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A gambiarra na terra da precisão


Por Marina Wentzel


Uma exposição em Genebra apresenta o design brasileiro aos suíços. A inventividade espontânea do "jeitinho" pode ser conferida em criações exclusivas, que traduzem o espírito da gambiarra verde-amarela.

A cadeira Corallo, dos irmãos Campana, e vestidos da estilista Martha Medeiros na exposição em Genebra (swissinfo.ch)

A cadeira Corallo, dos irmãos Campana, e vestidos da estilista Martha Medeiros na exposição em Genebra

(swissinfo.ch)

Os olhos de Philip Berchtold brilham de curiosidade e ele parece não acreditar na peça que está vendo. "É como se fosse um ser vivo, que se eu deixar na sala lá de casa vou acordar no dia seguinte e ela estará se mexendo. Acho interessante. Transmite tudo isso, mas se você for observar é só um monte de arame". A admiração do suíço de Berna ao ver de perto a cadeira Corallo, design dos brasileiros irmãos Campana, traduz a fascinação pelos resultados inusitados obtidos com materiais simples.

No Brasil, a capacidade de transformar o pouco em muito, fazer o máximo com recursos mínimos, é tão comum no dia-a-dia que já tem até nome próprio: gambiarra.

Essa inventividade espontânea que cria, adapta e reutiliza materiais por meio de um "jeitinho" foi celebrada internacionalmente perante os milhões de telespectadores na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio em agosto, que, apesar do orçamento restrito, conseguiu encantar multidões.

"A gambiarra eu digo que é criatividade e diversidade. Esses são dois atributos dos quais temos que nos orgulhar muito e estimulá-los cada vez mais", define o Ministro da Cultura do Brasil, Marcelo Calero. Ele esteve em Genebra participando da inauguração da exposição de design brasileiro na sede da Organização Mundial de Propriedade Intelectual, WIPO na sigla em inglês.

A mostra tem como tema a inovação brasileira. Em exposição estão peças dos irmãos Campana, vestidos da estilista Martha Medeiros, juntamente com exemplos de produtos da fabricante de aviões Embraer e da oficina de robótica RioBootz.

"A cultura, esse modo de viver do brasileiro, sobretudo o design é um produto não apenas admirável, e portanto vendável, mas também capaz de criar um conjunto de percepções que pode ajudar a inserção do Brasil no mercado internacional", acredita o ministro Caleiro.

A embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo explica que gambiarra é um conceito que supera o estereotipo negativo da malandragem. Não se trata do "jeitinho" malicioso, mas sim do "jeitinho" criativo, apto a adaptações. Essa flexibilidade, maleabilidade e fluidez é a imagem que o Brasil deseja projetar à Suíça e ao mundo.

"A gambiarra é o sinônimo da nossa criatividade no bom sentido, da capacidade do brasileiro de reinventar, de adaptar as coisas", resume.

Estrela da noite, o chefe paraense Thiago Castanho teve que adaptar. Ele preparou quitutes do norte brasileiro utilizando ingredientes 100% suíços. "Na culinária existe até uma expressão própria: rasgueiragem, que é a gambiarra na cozinha. Hoje foi assim, utilizei peixes daqui nas receitas do Pará". Acrescentando que para manter a autenticidade teve que dar um "jeitinho" nos temperos, trazendo 150kg deles na bagagem.

Revolução Industrial

Atualmente, às portas da quarta revolução industrial, quando computadores, robôs e inteligência artificial efetivamente substituirão o trabalho humano, a criatividade é o principal diferencial competitivo das nações.

Estudos do Fórum Econômico Mundial, WEF na sigla em inglês, apontam que as sociedades bem-sucedidas do futuro serão as que dedicarem prioridade aos investimentos em pesquisa e desenvolvimento de design e novas tecnologias.

A Suíça certamente está bem preparada. Posicionada entre os dez países que mais submetem registros de propriedade intelectual à WIPO, ela faz da inovação uma prioridade estratégica. Somente em 2015, encaminhou à WIPO mais de 4200 registros de patentes, três mil de marcas comerciais e 3300 de design industrial.

Na categoria marcas comerciais, a Novartis liderou o ranking mundial com quase 200 solicitações, enquanto que a fabricante de relógios Swatch foi a vice-campeã de registros de design industrial, com 511 solicitações. 

Com uma população de apenas oito milhões, esses números mostram o quão adiantada a Suíça está. Somado o histórico 2000-2014, o país já submeteu mais de 44 mil registros de patentes. É um registro para cada 181 habitantes, em números arredondados.

O Brasil, nesse mesmo período, conseguiu submeter apenas cerca de 6700 patentes, frente a uma população de 200 milhões.

"Temos um acúmulo de processos de registro intelectual dentro do país que não nos permite avançar. Estamos nos esforçando para modernizar, rever processos para um escritório de patentes à altura da criatividade brasileira", explica Luiz Otávio Pimentel do Instituto Nacional de Propriedade Industrial.

Adaptação e serviços

Popular entre as estrelas de Hollywood, os vestidos da estilista Martha Medeiros personificam o encontro entre precisão e gambiarra.

Se por um lado, as delicadas e ricas rendas demandam infalibilidade das bordadeiras nordestinas; por outro, esbanjam espontaneidade na composição contemporânea em que se alinham.

Apreciadas por celebridades como Sofia Vergara, Jessica Alba e Byoncé, as peças exclusivas também devem o seu sucesso ao autêntico "jeitinho" aplicado aos serviços, revelou a estilista.

Medeiros acredita que o diferencial competitivo da gambiarra brasileira está justamente na capacidade de improvisar para bem atender. "A gente faz o possível agora e o impossível daqui cinco minutos", brinca.

Ela relembra quando a atriz Sofia Vergara se encantou com um vestido muito grande. Faltando apenas 45 minutos para começar uma importante festa, Medeiros cortou e costurou a peça à mão diretamente sobre o corpo da atriz.

"O mundo deseja serviço e o brasileiro sabe entregar. Servir é nobre", afirma Medeiros.

Curadora da exposição, a diplomata Erika Watanabe Patriota conta a gambiarra que fez para contornar o orçamento apertado: "amigos que estavam vindo a Genebra trouxeram os vestidos de Martha na bagagem de mão. Economizamos o custo da transportadora".

Mas numa terra suíça, conhecida pela precisão, organização, previsibilidade e profissionalismo, a gambiarra tem vez? Philip Berchtold acredita que sim.

"Acho que nós suíços somos muito pé-no-chão, procuramos por soluções práticas ao invés de beleza. Mas muitos de nós estão esperando pela chegada de algo novo, que nos acorde por dentro. Esse tipo de "jeitinho" faz bem para a gente".

Os registros de Propriedade Intelectual se dividem em três categorias: patentes, marcas comerciais e design industrial.

Entre 2000 e 2014 a Suíça submeteu solicitações para:

- 44.417 registros de patentes

- 182.013 marcas comerciais

- 36,733 design industriais.

Entre 2000 e 2014 o Brasil submeteu solicitações para:

- 4659 registros de patentes

- 138.881 marcas comerciais

- 5.150 designs industriais


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