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Crise


Momento de investir no Brasil?


Por Dalen Jacomino, Zurique


Neste momento de crise econômica e política, os preços estão atraentes e as oportunidades estão lá. Para as empresas suíças de médio e pequeno porte, em busca de expandir seus mercados fora da Europa, o Brasil pode ser uma opção. A questão é o quanto estão dispostas a lidar com os riscos envolvidos.

Participantes do encontro organizado pela Universidade de Ciências Amplicadas de Zurique para discutir sobre as chances de investir no Brasil. (Cortesia)

Participantes do encontro organizado pela Universidade de Ciências Amplicadas de Zurique para discutir sobre as chances de investir no Brasil.

(Cortesia)

Em meio a turbulências econômica e política, o Brasil tem atravessado um período de desafios em diversos níveis. A polarização se intensificou e tem impossibilitado, muitas vezes, o saudável e necessário confronto de ideias.

Pé no freio do consumo e muita cautela nas decisões têm sido a receita de muitos, ou melhor, daqueles que têm um emprego, e, portanto, renda. Para os estrangeiros, especialmente os suíços, com sua moeda forte, a pergunta que fica é: Será esse o momento ideal para investir em terras brasileiras?

Na tentativa de responder tal questão, a Escola de Administração e Direito, da Universidade de Ciências Amplicadas de Zurique (ZHAW, na sigla em alemão) reuniu em junho, em Zurique, professores, advogados, consultores e profissionais do mercado. A resposta, como sempre, não é tão simples. O Brasil não é para iniciantes – e nunca foi – e, para a maioria dos empresários suíços, está longe de ser um projeto de curto prazo.

Momento de investir

Vários aspectos favorecem o sim, agora é hora de investir. Os preços dos ativos brasileiros, para os estrangeiros, estão bastante atraentes, considerando a queda dramática de valor que moeda brasileira vem sofrendo nos últimos anos. Do fim de 2010 ao fim de 2015, o dólar acumulou uma alta de 137,47% em relação ao real.

Outro aspecto que não pode ser ignorado é o tamanho do mercado brasileiro de cerca de 200 milhões de consumidores. Segundo dados divulgados pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, no final de 2012, mais da metade da população fazia parte da classe média. Para a pesquisa, pertencem à classe média aqueles que vivem em famílias com renda per capita mensal entre 291 e 1.019 reais e têm baixa probabilidade de passar a ser pobre no futuro próximo.

Além disso, os consumidores brasileiros são ávidos usuários de internet. “O Brasil é o número 4 em termos de usuários de internet no mundo e o número 1 em horas de navegação diária pela rede”, explica Michael Bornhäusser, diretor geral e chefe do Private Equity, Products & Services, do Sallfort Privatebank AG.

Campeão na internet

Bornhäusser ressalta ainda que na América Latina o Brasil é líder de mercado em vendas por e-commerce. Mesmo com uma redução do crescimento entre 2014 e 2015, o setor fechou o ano passado com 41,3 bilhões de reais em vendas, de acordo com relatório WebShoppers da E-bit. O que representa um crescimento de 15% de crescimento no faturamento em relação a 2014. Entre 2012 e 2013, o setor chegou a crescer 28%.

“O país conta com um parque industrial respeitado e um sistema bancário sólido. A população brasileira é, em média, mais jovem que a europeia. E a demografia faz a diferença, sim”, afirma Ronny Siev, gerente de projeto sênior e pesquisador associado da Escola de Management e Direito da ZHAW. Sem falar no know-how local e na ampla gama de empresas bem-sucedidas operando no país.

O voo da galinha

Conhecida pelos economistas como o “voo da galinha”, a performance da economia brasileira tem se caracterizado por ciclos curtos de crescimento positivo, seguidos de queda, ou seja, tem sido incapaz de alcançar um crescimento sustentável ao longo do tempo. Sendo esse um momento de baixa, a recomendação tem sido: avaliar os ativos e ir às compras, porque, em breve, a galinha deverá alçar novo voo.

Do outro lado da balança, vários aspectos acabam pesando contra. E nesta lista entram a instabilidade econômica e política atual, os altos índices de corrupção do país, a infraestrutura precária, a burocracia e o sistema de impostos. Segundo dados do Banco Mundial (Doing Business 2016), para começar um negócio no Brasil são necessários 101,5 dias e 11 procedimentos. Nos Estados Unidos, por exemplo, são necessários 4 dias e 6 procedimentos.

No que se refere ao pagamento de tributos, o empresário brasileiro gasta por ano 2,6 mil horas para preparar, apresentar e pagar as taxas. A média da América Latina é de 361 horas por ano. O resultado é que muitas empresas acabam optando por buscar um parceiro local, que já conheça o mercado e saiba o “caminho das pedras”.

Em 2015, os investidores estrangeiros estiveram presentes em 51% das transações de fusões e aquisições, acima da participação em 2014, que foi de 38%, de acordo com relatório da consultoria PwC. Os setores que mais registraram fusões e aquisições foram: IT, serviços auxiliares, financeiro, varejo e serviços públicos.

A Suíça entre os investidores

A Suíça está entre os 10 maiores investidores no Brasil em 2014 e 2015, segundo o mesmo relatório de fusões e aquisições da PwC. Em 2014 foram 12 negociações e em 2015, 9 de capital suíço no Brasil.

“Os clientes que temos são empresas suíças que querem entrar no mercado e ficar lá, focam no longo prazo. E a pergunta que se fazem é se realmente esse é o melhor momento. Eles não consideram apenas a questão dos preços mais atraentes, eles valorizam a estabilidade do país. Estão observando as decisões do novo governo. E se questionam sobre as reais chances de ter o investimento de volta”, explica Stephan Neidhardt, advogado e partner da Walder Wyss Attorneys at Law.

O desafio, é claro, é sempre maior para as pequenas e médias empresas. Nessa hora, vale a pena ressaltar que a crise não afeta todos os setores da mesma forma. Os setores de infraestrutura, saúde e energia renovável, por exemplo, têm apresentado forte potencial de crescimento.

Mesmo com tantas interrogações e incertezas, a maioria dos especialistas reunidos em Zurique defende que é, sim, possível fazer negócios no Brasil, mesmo em momentos de crise.

E como lidar com os altos índices de corrupção? “Temos 65% de clientes estrangeiros e nossa recomendação é sempre seguir os processos e não fazer concessões”, afirma o advogado Ronaldo Veirano, fundador da Veirano Advogados, com sede no Rio de Janeiro. “Existe uma mudança ocorrendo no país, mas ela não vai se completar da noite para o dia. As instituições estão funcionando. A justiça está funcionando.”

E ele continua: “crises não duram para sempre. Queremos estar em melhores condições do que quando entramos na crise. O Brasil realmente não é para os que têm problemas de coração, ou não têm certo apetite ao risco. Mas por outro lado, é grande. As oportunidades estão lá.”

Para quem quer investir

Um plano muito cuidadoso de ação é fundamental para quem pensa em desbravar o mercado brasileiro, principalmente num momento de muitas incertezas. Eis algumas dicas reunidas por Peter Qvist-Sørensen, chefe do Centro para Negócios nas Américas da ZHAW: Assuma a presença e a liderança do projeto, não adianta administrar o processo à distância. O contato com os stakeholders é fundamental. Aprenda com os CEOs e gerentes do Brasil. Aceite que haverá diferenças, mas também similaridades. Treine os profissionais brasileiros na Suíça. Garanta que os controladores suíços aprendam português. Capacite e dê autoridade às pessoas fundamentais ao negócio – e depois acompanhe seu trabalho. Misture a precisão e ética suíça com a criatividade e agilidade brasileira.  

Apesar da crise as empresas suíças deveriam investir no Brasil? Dê a sua opinião.

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