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Cultura


A multidão nem sempre é um parceiro confiável


Por Martina Kammermann


A cena cultural é uma das mais beneficiadas pelo crowdfunding na Suíça. No entanto, nem todos os projetos são bem sucedidos. Há sempre aqueles que fracassam. Quem não é bem conectado nas mídias sociais tem muito pouca chance. Formas artísticas menos populares também penam para decolar. A seguir, dois exemplos da Suíça. 

O coral de Helene Haegi teve pouco sucesso com crowdfunding: "Nossos sócios do clube são super conectados, mas não através da Internet." (zVg)

O coral de Helene Haegi teve pouco sucesso com crowdfunding: "Nossos sócios do clube são super conectados, mas não através da Internet."

(zVg)

Em 2015 os suíços despejaram cerca de seis milhões de francos em mais de 500 projetos culturais (v. box), mesmo considerando que o crowdfunding no país ainda engatinha.  “Nos EUA, o mecenato privado possui uma tradição muito maior que aqui“, diz Melina Roshard, 34. Roshard acompanhou o primeiro projeto de crowdfunding da Suíça e hoje é CEO da plataforma Wemakeit. “Mas nos campos da música e do cinema, o crowdfunding conseguiu se consolidar muito bem nos últimos quatro anos e acreditamos que vá crescer com força também em outras áreas.“

O modelo segue de fato a todo vapor: no ano passado, segundo um estudo da Universidade de Lucerna, 90 mil pessoas injetaram 27,3 milhões de francos em projetos – mais que o dobro do que em 2013. A tendência é clara para cima.  

Na internet encontra-se inúmeras dicas de como lançar uma campanha bem sucedida – nos EUA e no Reino Unido desenvolveu-se até o que se pode chamar de uma indústria de consultoria específica. “Crowdfunding dá muito trabalho“, diz o jornalista, DJ e músico amador Markus Krucker, 40, de Zurique. Junto com um amigo, Krucker lançou em julho a bem-sucedida campanha Fred&Walt, na qual ambos liberaram suas próprias composições durante três anos para serem interpretadas por diversos músicos de Zurique. Eles agora querem prensar em vinil o álbum resultante da experiência – e para isso precisam de dinheiro. 

Fred&Walt: "Logo percebemos que PR através da mídia social por si só não é suficiente." (wemakeit)

Fred&Walt: "Logo percebemos que PR através da mídia social por si só não é suficiente."

(wemakeit)

Sempre com um pedido pessoal

O crowfunding na Suíça:

Em 2015 foram levantados 27,3 milhões de francos para 1342 campanhas

- 75% de todos os projetos originaram-se em regiões urbanas

- Cerca de 50% deles foram projetos de Crowdsupporting

-  Iniciadores e apoiadores residem em média a apenas 12 quilômetros de distância uns dos outros

- A taxa de sucesso entre os projetos de crowdsupporting é de 65%

- As categorias de crowdsupporting mais fortes: música/festivais; tecnologia/start-ups; sociais

- Plataformas mais populares: Wemakeit, 100days

Mesmo assim, a campanha não andou sozinha. “Nós logo percebemos que o trabalho de RP (relações públicas) nas redes sociais por si só não era suficiente. Você tem que se endereçar aos doadores pessoalmente“, diz Krucker. Eles então distribuíram flyers e escreveram vários e-mails. Conforme dizem diversos iniciadores de campanhas, o pedido pessoal ainda é claramente o que faz mais efeito. No fim, os dois arrecadaram ainda mais do que os 7.700 francos pedidos.

Quase ao mesmo tempo em que se desenrolava a campanha de Krucker, em Eglisau – 25 quilômetros ao norte de Zurique – a regente de canto coral Helene Haegi deu o “start“ ao seu projeto “Heimatliche Klänge“ (“Sons Pátrios“). Seu objetivo: produzir dois corais masculinos para cantar num festival de Jodler (canto típico suíço), destinando a receita do concerto para associações de caridade. Apesar do vídeo, da boa rede de contatos e brindes criativos, Haegi conseguiu apenas 1.700 dos 10 mil francos necessários.

“Eu coloquei um valor alto demais“, diz Haegi. Ela ainda enfrentou um problema extra, pois seu público é muito pouco presente online. “Os membros da nossa associação são super conectados, mas não pela internet“. É verdade que alguns dos seus cantores possuem contas no Facebook e postaram várias vezes anúncios da campanha, porém não atingiram ninguém. “Além disso, muitos idosos são bastante desconfiados quanto a pagamentos on line.“ O crowdfunding ainda não conseguiu superar as barreiras geracionais.

Os limites entre promoção e assédio

Particularmente difícil, segundo Haegi, foi saber definir o limite entre promoção e assédio.  “Você tem de estar cuidando de tudo o tempo todo, inquirindo as pessoas, insistindo. Mas não se pode exagerar. Muitas vezes nem eu confiava mais em mim mesma quando tinha de ir mendigar novamente.“ A conclusão é quase óbvia: quanto mais pessoas tocam ativamente uma campanha, mais fácil ela deslancha. Com esse conhecimento adquirido, Haegi quer repetir a tentativa no futuro. 

Crowdfunding Crowdfunding

Crowdsupporting: os usuários doam dinheiro para um projeto e recebem em troca bens ou um serviço (modelo mais comum em projetos sociais e culturais). Em alguns casos, os usuários abrem mão do “brinde“, o que se caracteriza então como  Crowddonating.

Crowdinvesting: os usuários dividem entre si o capital da empresa e ganham sua parte nos lucros caso o negócio dê certo.

Crowdlending: os usuários emprestam dinheiro para um projeto e recebem posteriormente os juros. 

Esses exemplos demonstram que o crowdfunding é sempre uma espécie de aventura para coletar dinheiro. Ele possibilita muitas coisas, mas formas artísticas menos populares encontram-se em uma posição difícil e sem bons contatos nas mídias sociais não se tem quase nenhuma chance. O crowdfunding tampouco pode substituir as verbas de fomento existentes, tanto estatais como de fundações privadas. Mesmo assim, o crowdfunding pode preencher vácuos, chamar a atenção e apontar tendências, por isso ele é também frequentemente utilizado como um barômetro mercadológico e como um canal de pré-venda no mundo cultural suíço.

Novos modelos – a cultura se volta para mais perto do consumidor

Um outro modelo, ainda pouco conhecido aqui no país, é o chamado “Matched Crowdfunding“ (“crowdfunding combinado“, em tradução livre), o qual costura o financiamento de instituições de fomento junto com o de usuários. Dessa maneira, uma fundação, por exemplo, pode se comprometer a duplicar seu aporte quando uma campanha de crowdfunding é bem sucedida. Na Inglaterra há o caso da Creative England, plataforma sem fins lucrativos que apoia a indústria criativa por meio deste modelo, enquanto que em Rotterdam (Holanda) criou-se a primeira obra de infraestrutura pública financiada por matchfunding, a ponte de pedestres Luchtsingel.

Na Suíça, os primeiros passos nessa direção já são visíveis. A Swisscom, com seu projeto Music Booster por exemplo, apoia bandas suíças por meio de matchfunding. Na primavera passada, apareceu em Zurique a plataforma Donxt: assim como a norte-americana Patreon, em cujo modelo se baseou, aqui o “crowd“ não financia nenhum produto, mas sim o próprio artista e por meio de aportes mensais. Segundo seus operadores, a Donxt começou com bastante sucesso e se prevê um crescimento forte. O interesse por essa “mesada artística“ confirma uma tendência: a produção cultural volta-se para cada vez mais perto do consumidor. Seja com cinco ou 10 mil francos, hoje em dia qualquer um pode se tornar um mecenas. 


Adaptação: Eduardo Simantob, swissinfo.ch

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