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Diplomacia


"Consulado é a embaixada do Brasil junto à comunidade"


Por Lourdes Sola


São muitas as histórias com final feliz de brasileiros atendidos pelo Consulado Geral do Brasil em Genebra. As pessoas são bem tratadas e resolvem seus problemas com rapidez. Nas últimas eleições, nada de filas: os funcionários e muitos voluntários recebiam os eleitores em 14 seções no centro Palexpo de Genebra.

A embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo no seu gabinete em Genebra. (swissinfo.ch)

A embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo no seu gabinete em Genebra.

(swissinfo.ch)

O segredo do sucesso está na equipe de atendimento: um time de 18 pessoas, coordenado pela embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo. Desde que assumiu o consulado, em setembro de 2013, a diplomata traçou metas para melhorar o atendimento ao público e o bem-estar de seus funcionários.

Em julho deste ano, o consulado mudou de sede: uma área de 790 metros quadrados, capaz não só de oferecer os serviços notariais, mas também de promover eventos culturais aos brasileiros da suíça francesa. swissinfo.ch entrevistou a embaixadora.

swissinfo.ch: O Consulado de Genebra oferece um ótimo atendimento: mesmo sem agendar as pessoas não gastam mais do que 10 minutos para providenciar passaportes.  Há pessoas que moram na França, mas que puderam registrar seus filhos aqui. Qual é o segredo do bom atendimento ?

Maria Azevêdo: O consulado é a embaixada do Brasil junto à comunidade brasileira. Ele tem de cuidar do brasileiro que está fora, tem de ajudar, buscar soluções. Isso eu sempre passei aos funcionários: sejam sempre gentis e tentem encontrar uma solução para o problema. Nada de dizer aos brasileiros o que muitos deles ouvem na Suíça: “desolée”. A função é ajudar o brasileiro. E mais do que isso: quero que o consulado seja um espaço de lazer também e não só notarial. Hoje tenho uma equipe que está feliz, que se oferece para trabalhos voluntários extras no consulado. O clima é bom e eles gostam disso. Eles veem os elogios no Facebook e se sentem estimulados a fazer um bom trabalho.

swissinfo.ch: De dois anos para cá o que mudou no consulado?

M.A.: Estabeleci algumas prioridades. E a primeira delas foi dar melhores condições de trabalho aos funcionários. Não que eles não as tivessem antes, mas a sede do consulado envelheceu e a comunidade brasileira aumentou drasticamente. Para se ter uma ideia, nas eleições de 2010 tínhamos quatro seções para votar, em 2014 tivemos 14. Vou dar um exemplo de uma cena a que assisti e que comprova o envelhecimento da sede. A funcionária atendia a uma mãe que amamentava um bebê, enquanto o outro filho mexia nos documentos, que, naquele momento, eram de responsabilidade do consulado. Ficava difícil atender: a funcionária tinha de receber os documentos, cuidar do garoto e se concentrar no trabalho. E cada erro custa. Se você erra um passaporte, é custo. Eles precisavam ter melhores condições para trabalhar.

swissinfo.ch: A senhora mudou a sede, tem promovido eventos e quer abrir o consulado aos brasileiros. O cônsul tem total liberdade na sua gestão ou tem de seguir regras do Itamaraty?  

M.A.: Nossa profissão é muito bem regulamentada. Tenho de seguir um orçamento administrativamente rígido: tudo o que eu gasto é público e você pode consultar o Siafi ( Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal, que registra os gastos de embaixadas e consulados).  A verba do consulado está lá. Tudo muito transparente. Seguimos também um procedimento do trabalho notarial, que tem um manual consular. Mas a parte cultural cabe mais ao cônsul. E eu quero estar perto da comunidade e quero que ela esteja presente no consulado. Então eu vou à luta (risos). Busco voluntários na comunidade para fazer os trabalhos  e criar este vínculo. Não gasto um tostão do orçamento público para fazer os eventos que temos feito. Conto com o voluntariado.

swissinfo.ch: Por falar em orçamento, o ministério das relações Exteriores tem menos de 0,2% do faturamento federal. Como a senhora administra isso?

M.A.: Há algumas semanas, fizemos aqui o “Domingo da culinária”, que reuniu umas 500 pessoas na sede.  Não gastei um centavo do tesouro. Precisamos só de tempo e de boa vontade. Eu chamei o conselho da cidadania, que foi eleito pela comunidade, e é minha primeira via de comunicação com os brasileiros. Falei da minha ideia e tudo foi acontecendo: as pessoas conheciam outras que gostariam de participar, fizeram algumas reuniões e o evento estava pronto. Comida mineira, baiana, pernambucana, além de show de gafieira e de apresentações de alguns centros culturais. Cada um fez a sua comida e vendeu. Foi uma festa! O que o consulado fez? Abriu as portas para a comunidade. Não uso a verba para isso porque nem posso. Tudo está definido: luz, água, manutenção, etc.

swissinfo.ch: Há uma ligação com departamento cultural do Itamaraty?

M.A.: Sim. Eles sugerem alguns projetos. Por exemplo, fizemos um curso de formação de professores para ensinar português como língua de herança. Um curso desse tem efeito dominó e multiplicador. Temos hoje várias associações na Suíça francesa que ensinam o português. Recentemente tivemos um evento em Neuchâtel, o Festival Internacional de Capoeira, com vários mestres brasileiros radicados em outros países. Mostramos a cultura brasileira, e o Itamaraty ofereceu uma passagem a um mestre brasileiro para participar do evento. Foi lindo!

swissinfo.ch: A criação de atividades culturais é uma decisão do cônsul?

M.A.: Sim. Tenho liberdade para criar atividades culturais, educacionais, associativas, de cidadania. Posso não fazer nada disso e deixar que o consulado seja apenas um serviço notarial, mas acho que o meu governo tem a expectativa de que eu faça mais do que isso. Espera isso de mim.

swissinfo.ch: O conceito de diplomacia mudou?

M.A.: Acho que no Brasil mudou. No Itamaraty  e na área consular existe a noção  e a perspectiva de que a nossa comunidade aumentou no exterior e ela precisa ser atendida não só no aspecto notarial, mas também é importante que ela não perca o contato com a cultura brasileira. Temos de cuidar da cultura brasileira.  Existe uma determinação muito maior da rede consular em fazer isso.

Por exemplo, uma atividade que vamos fazer aqui, que faz parte da diplomacia consular de segunda geração, é trabalhar a questão da violência contra a mulher. Sabe-se que a violência contra a mulher imigrante é um problema. Ela mora fora, em geral atraída por um sonho do príncipe encantado e, muitas vezes, enfrenta problemas de violência. Nem sempre fala o idioma e nem sabe como se defender. Quando estão desesperadas, procuram o consulado.

O Itamaraty e a secretaria de política para as mulheres assinaram um convênio para a divulgação do ligue 180. E vamos organizar aqui algumas palestras com entidades de defesa das mulheres, como o Solidarité Femmes, por exemplo, para informar e auxiliar essas brasileiras. O mês de março também será dedicado às mulheres.

swissinfo.ch? A senhora pensa em abrir espaço para os artistas suíços?

M.A.: Não. Nossa prioridade é para artistas brasileiros radicados na suíça francesa. Atualmente há a exposição da Cristina Oiticica, mas já estamos preparando outra exposição, uma mostra de arte naif com o tema olimpíadas, que será sediada pelo Brasil em 2016. Receberemos  escolas para trabalhar o tema.

swissinfo.ch: Existe algum programa para auxiliar o brasileiro no mercado de trabalho?

M.A.: Sim. Queremos ajudar a capacitar os brasileiros. Mas claro que não temos uma estrutura grande e pensamos em coisas simples que podemos fazer. Por exemplo, cuidados com criança. Se uma pessoa quer trabalhar com criança, ela terá um documento do consulado, explicando que ela participou de um curso nessa área. Ajuda a construir uma confiança entre a pessoas que está contratando e a contratada. Fizemos também um curso de cuidados de idosos, de manicure. São várias vertentes para trabalharmos: da capacitação, da cultura, da família.

Biografia

A diplomata Maria Nazareth Farani Azevêdo tem 58 anos, nasceu em Alegre, no Espírito Santo, e cresceu em Brasília.

Entrou para a Academia diplomática em 1980, antes de terminar a faculdade de Direito – na época, o Itamaraty não exigia o curso universitário para o ingresso na diplomacia.

O primeiro posto foi Washington. Depois passou por Montevideo, Brasília e Genebra, de onde saiu em 2001.

Voltou a Genebra em 2008, como embaixadora brasileira na Organização das Nações Unidas – ONU.

É casada há 34 anos com o também diplomata Roberto Azevêdo, diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), tem duas filhas, Paula e Luísa, e duas netas.

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