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Foco e persistência


Apesar da crise empresas suíças ainda investem no Brasil


Por Dalen Jacomino, Zurique


Para as empresas suíças que atuam no Brasil, o momento crítico da economia e política brasileira demanda foco no longo prazo e ajustes frequentes. Apesar de alguns cortes, várias delas estão investindo em novas instalações e ampliando a capacidade de produção, não apenas para atender o mercado interno, mas também para exportar.

A multinacional suíça investiu 200 milhões de reais na construção de uma nova fábrica em Montes Claros (MG).  (Imagem com direitos reservados)

A multinacional suíça investiu 200 milhões de reais na construção de uma nova fábrica em Montes Claros (MG). 

(Imagem com direitos reservados)

Enquanto a economia brasileira entra em seu segundo ano de crescimento negativo e o cenário político é tomado por uma avalanche de incertezas, empresas suíças presentes no país mantêm o foco no longo prazo. A estratégia têm sido, por um lado, reorganizar as estruturas, enxugando e reestruturando áreas menos produtivas. E por outro, investindo em produtos e serviços que apresentam potencial, chegando até à construção de novas plantas no país. A queda do valor do real tem sido também um fator de atração de novos investimentos, já que tornou os ativos brasileiros mais baratos no mercado internacional.

“Acreditamos que quando houver uma definição melhor da situação política haverá uma mudança de expectativas, o que será muito benéfico para a economia. E, por esta razão nós continuamos investindo em novas áreas de negócios que serão fundamentais para o futuro da empresa assim que o ambiente econômico estiver mais favorável”, afirma Marcelo Stenzel, presidente da SGS no Brasil. A multinacional, especializada em inspeções, verificações, testes e certificações, tem sede em Genebra. No mundo, conta com 85000 funcionários. No Brasil, são 4400.

Stenzel explica que a empresa passou por uma reestruturação no segundo semestre de 2015, com redução de cerca de 200 pessoas. “E neste início de ano estamos em processo constante de eliminação de atividades poucos produtivas para adequar nossa estrutura de custos a uma nova realidade de mercado”, diz o executivo. Ele afirma que as expectativas desfavoráveis da economia têm impactado a decisão de lançamento de novos produtos, o que afeta a atividade de testes e ensaios, assim como as atividades de gerenciamento de empreendimentos, supervisão de obras ou homologação de novos produtos.

“Por outro lado, estamos aumentando a capacidade de alguns nichos de atividades novas, como o recém-inaugurado laboratório de quarentena de sementes, em Piracicaba, ou ainda nas atividades de manutenção industrial no Rio de Janeiro, Vitória e Pernambuco e também em serviços de auditoria de segunda parte, principalmente para a indústria automotiva”, afirma. “Uma das grandes fortalezas da SGS é a diversificação, que reduz nossa exposição a oscilações em um mercado específico. ”

Crescimento sustentável

A farmacêutica Roche também tem feito alguns ajustes em sua estrutura. Em fevereiro, a Roche Dignóstica eliminou 27 postos de trabalho, o que, segundo a empresa, representa menos de 10% do total de trabalhadores em atividade desta unidade no Brasil. De acordo com a organização, trata-se de um ajuste para manter o crescimento sustentável do negócio no país. A unidade Farma, que responde por mais de 70% dos colaboradores da Roche no Brasil, não foi afetada.

Mesmo com a crise no país, a Roche fechou 2015 com forte crescimento nas vendas. No total (mundial) do grupo foram 5% de crescimento nas vendas, com faturamento de 48,1 bilhões de francos suíços. No Brasil, melhor ainda. A divisão Farmacêutica registrou crescimento de vendas de 10%, com faturamento de 2,6 bilhões de reais. A Divisão Diagnóstica, que passou pelo corte, cresceu 10,5% nas vendas, com faturamento de 417,4 milhões de reais.

A farmacêutica suíça também está investindo 300 milhões de reais (nos próximos cinco anos) na fábrica de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. O valor será direcionado à modernização e adaptação das instalações da fábrica, que se tornará, segundo a empresa, o hub exportador da Roche para a América Latina. A planta do Rio de Janeiro exporta atualmente cerca de 30% da produção total para 23 países, o que corresponde a 16 milhões de unidades de medicamento.

De olho nas exportações

Não é apenas a Roche que enxerga o Brasil também como base de exportação. “Devido ao atual cenário cambial, há uma boa oportunidade no setor de exportação. Nossa unidade de Londrina, no Paraná, é uma referência para o Grupo Schindler, a única fábrica que produz elevadores, escadas e esteiras rolantes em uma mesma unidade”, explica Fabio Mezzarano, diretor de instalações existentes e modernizações da Atlas Schindler. “Ela (a fábrica) está preparada para atender as demandas internas e futuros pedidos de novos equipamentos para países da América Latina. ”

A Atlas Schindler está no Brasil há mais de 95 anos e conta com aproximadamente 5000 funcionários no país. “Já passamos por outras crises no passado. Trabalhamos sempre com uma visão de longo prazo”, diz Mezzarano. Para 2016, a venda de novos equipamentos deve se mostrar estável, com tendência de queda. “Importante mencionar que as outras linhas de negócio da companhia, como manutenção e modernização de elevadores, escadas, esteiras rolantes, devem continuar a apresentar um resultado positivo e contribuir para a boa performance financeira da empresa.”

A Nestlé inaugurou em dezembro de 2015 a primeira planta fora da Europa para fabricação das cápsulas Nescafé Dolce Gusto. Com um investimento de 220 milhões de reais, a fábrica instalada em Montes Claros, Minas Gerais, deverá atender as demandas do mercado nacional, além de exportar para Argentina, Paraguai e Uruguai.

A nova unidade inicia a produção com 91 funcionários diretos. Segundo a empresa, as operações gerarão cerca de 1 mil empregos indiretos em toda a cadeia produtiva. O sistema Nescafé Dolce Gusto foi lançado no Brasil em 2009 e é líder no mercado nacional de café em cápsulas. A Nestlé instalou sua primeira fábrica no Brasil em 1921 em Araras para a produção de leite condensado Milkmaid, que depois seria conhecido como leite moça.

A Galderma, empresa da Nestlé Skin Health, também anunciou investimentos. Em setembro do ano passado, a empresa divulgou que está destinando 200 milhões de reais para a nova planta em Hortolândia, interior de São Paulo. De acordo com a empresa, a nova fábrica deve começar a rodar em 2018 e deve atender as demandas do mercado brasileiro e da região sul da América Latina. Com uma capacidade de produção de 64 milhões de unidades por ano, a nova estrutura deve gerar 300 empregos diretos e cerca de 450 empregos indiretos, triplicando a atual mão de obra da planta local e aumentando a área para 16 mil metros quadros. 

Oportunidades na crise

Galderma: investimento de 200 milhões de reais na nova planta em Hortolândia, que deve começar a operar em 2018.

Nestlé/Nescafé Dolce Gusto: investimento de 200 milhões de reais na nova fábrica em Montes Claros (MG).

SGS: em março deste ano, inauguração de laboratório de segurança elétrica e eficiência energética do país

Roche: 300 milhões de reais nos próximos cinco anos na fábrica de Jacarepaguá no Rio de Janeiro. 

As pequenas e médias

Enquanto o setor farmacêutico, financeiro, de agronegócio e tecnologia tem sido, em tese, menos afetado pela crise, as empresas da área de petróleo e gás, construção civil, montadoras e a indústria de transformação têm sofrido um impacto maior. 

Segundo a direção do Hub de São Paulo da Switzerland Global Enterprise, organização que promove a expansão da exportação e a Suíça como destino de negócios, as demandas de empresas suíças interessadas em operar no Brasil continuam a existir. Isso acontece porque o Brasil é considerado por essas organizações um projeto de longo prazo. E a estratégia dessas organizações é estabelecer agora as parcerias locais para, depois, se beneficiarem das oportunidades que possam surgir quando o cenário melhorar.

Para o investidor Martin Brenner, que coordena a entrada da rede de restaurantes de comidas saudáveis Not Guilty (em português, algo como, sem culpa) no Brasil, o país tem potencial, mas é preciso ter foco e persistência. Atualmente, a marca conta com 3 restaurantes em São Paulo. Foi fundada na Suíça em 2007 e administra 3 restaurantes na Suíça, sendo dois em Oerlikon e um na região central de Zurique. 

A empresa está presente no Brasil há cerca de quatro anos e pouco a pouco vem conquistando o consumidor com seu cardápio de sucos, sopas, sanduíches e saladas. “O brasileiro, em média, não está habituado à ideia de comer salada como refeição. Mas, aos poucos, essa tendência de uma alimentação mais leve e saudável está ganhando espaço”, afirma Brenner.

Tanto é que a Not Guilty tem registrado crescimento nos últimos anos. “Estamos calculando um aumento nas vendas de mais de 10% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado”, afirma Brenner. O investidor prevê a abertura de cerca de 20 restaurantes pelo país nos próximos 5 anos. “Temos público para o nosso produto e pouca concorrência neste nicho”, afirma.

Para ele, as discussões atuais pelas quais a sociedade brasileira passa são fundamentais para o amadurecimento da democracia no país. “Trata-se de um país jovem. Ainda tem muita coisa para ser feita”, diz. Para a maioria, portanto, a solução continua sendo arregaçar as mangas e seguir em frente. 

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