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Investir no Brasil


Planejamento e a organização superam o caos


Por Mirela Tavares, São Paulo


Em meio à maior crise econômica brasileira desde a redemocratização do país, o suíço Lodovico Brioschi não só acredita em dias melhores, como investe no Brasil. Junto com os também suíços Dominique Schweingruber e Roberto Thiele, ele é sócio da Amaro, loja com conceito de moda online.

Nova sede da Amaro, onde ficam a fábrica e o showroom, no bairro da Bara Funda, em São Paulo. (swissinfo.ch)

Nova sede da Amaro, onde ficam a fábrica e o showroom, no bairro da Bara Funda, em São Paulo.

(swissinfo.ch)

Especialista no setor financeiro, formado em Administração em St. Gallen e tendo estudado em Londres, Brioschi chegou ao Brasil como executivo do Credit Suisse em 2011 e se tornou empreendedor por acaso, a partir do convite de Schweingruber, embora já tivesse interesse em ter um negócio próprio.

Para Brioschi, além da crise política e econômica, modelos de gestão ultrapassados também são responsáveis pela quebradeira de muitas das empresas que vêm fechando suas portas nos últimos meses. E é nesse cenário que ele acredita haver oportunidades reais para o desenvolvimento de negócios com práticas mais ágeis, estruturas mais modernas de administração, atreladas a um forte planejamento e à tecnologia, como ele detalha a seguir para o swissinfo.ch

swissinfo.ch: Como você enxerga a atual situação do Brasil?

Lodovico Brioschi: O Brasil é um país enorme, com uma população grande, o que para nós, do varejo, é uma grande oportunidade. Além de tudo, é um país muito ineficiente. Há muitas empresas que cresceram no passado devido à boa situação econômica, mas internamente são muito mal gerenciadas, com processos antigos. Então, há crise, sim, mas há grandes oportunidades para empresas mais modernas, mais ágeis, que possam construir uma posição forte neste momento. Quando a crise passar e o país voltar a crescer, vão poder desfrutar de todo o crescimento que ele terá.

swissinfo.ch: Os últimos acontecimentos políticos e econômicos – abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Roussef; críticas ao presidente em exercício Michel Temer; deficit orçamentário de mais de R$ 170 bilhões – não aumentam ainda mais o clima de incerteza?

L.B.: Olhando de fora, pode parecer que sim. Mas percebo internamente bastante otimismo no futuro. O atual governo não tem exatamente uma "ficha limpa", os brasileiros estão cientes disso e não são grandes fãs do presidente em exercício, mas acho que as pessoas acreditam que só a partir disso se pode melhorar. Olhando para a economia e os mercados, a situação atual, mesmo sem ser a solução perfeita, é, com certeza, melhor do que a que tínhamos antes.

swissinfo.ch: Como a Amaro está se protegendo para enfrentar esses tempos difíceis? 

L.B.: Acredito que já chegamos ao fundo e que agora devemos nos preparar para a retomada do crescimento. Estamos montando uma marca de moda do futuro, centrada na tecnologia, no varejo omni-channel e na integração vertical. A Amaro é uma empresa direct to consumer, que corta atacadistas, distribuidores e franquias. Do design à fabricação, passando pelo marketing e a comunicação, tudo é feito no Brasil. Assim, conseguimos oferecer mensalmente uma coleção com as últimas tendências internacionais com preços extremamente acessíveis. Este posicionamento é perfeito durante a crise, quando as pessoas procuram economizar. Nascemos online, que é o setor da indústria de moda que mais cresce e que continua crescendo. Agora, estamos juntando o mundo virtual com a implementação de algumas lojas conceito em São Paulo e no Rio de Janeiro, para que a nossa presença online fique ainda mais poderosa. Neste sentido, a crise trouxe muitas oportunidades para estarmos em shoppings de primeira linha, coisa que alguns anos atrás era bem mais difícil. Outro ponto fundamental é a entrega de uma experiência de compra inesquecível. Em São Paulo entregamos em até duas horas e recebemos as melhores notas em todas as pesquisas de serviço de atendimento ao cliente do país. Esse foco constante no cliente e no investimento em melhorias é fundamental para sobreviver na crise e construir uma das marcas de maior crescimento do mercado de moda no Brasil.

swissinfo.ch: Como você traçaria para outro suíço sua trajetória como empreendedor no Brasil?

L.B.: Depende como se olha. O mundo dos startups que em 2011 era muito otimista no Brasil, agora é muito pessimista. De outro lado, o que está acontecendo na operação Lava Jato, a atuação do juiz Sérgio Moro, está dando esperança aos jovens de que o país possa mudar. Então, tudo isso pode resultar em uma sociedade melhor no futuro, que é o que eu espero. Acho também que mudou bastante como o Brasil é visto no exterior. Criar um startup depende muito de investidores estrangeiros. O interesse sobre o Brasil diminuiu, devido à insegurança. Isso é o que dificulta, mais até do que a crise, porque crise há em todos os lugares do mundo, e as pessoas inteligentes sabem que elas também trazem oportunidades. O que dificulta é a falta de confiança que existe no sistema político e econômico.

swissinfo.ch: É tranquilo para você entender todo esse embate político e econômico?

L.B.: Na Suíça, estamos habituados com um sistema político bem tranquilo, calmo, com sistema proporcional. Se não concordarmos com as ações do governo, podemos fazer os referendos e votar, na verdade votamos quatro vezes por ano na Suíça, então, se não concordarmos, temos os meios para tentar outro caminho. Aqui há uma democracia bem desenvolvida, mas uma vez que as pessoas elegeram seus representantes é muito difícil controlar o que fazem. Brasília é muito longe para os brasileiros, física e mentalmente. Falo muito com as pessoas, e elas me dizem que não acreditam no sistema político. Eles votam porque é obrigatório, mas me dizem que todos são a mesma coisa, que uma vez no poder se tornam iguais. Então, acho que há pouca confiança nos políticos.

swissinfo.ch: Mas você enxerga uma brecha de oportunidade?

L.B.: Eu espero. A mudança deve vir de uma nova geração, de jovens que fizeram boas faculdades, que são honestos, que possam entrar na política para mudar o sistema. Vimos isso em alguns países europeus, onde uma nova geração de políticos entrou, tanto na direita quanto na esquerda. Acho que essa é a solução: uma nova geração, que possa tornar isso mais honesto e também mais eficiente, menos burocrático.

swissinfo.ch: E como lida com essa burocracia em uma área tão dinâmica como varejo?   

L.B.: Mal, muito mal. Esse é um dos maiores desafios para nós, empreendedores. A burocracia brasileira existe, é de verdade. A Suíça em si também não é simples, há burocracia. Mas a grande diferença é que lá todo mundo sabe as regras. Por exemplo, você vai na prefeitura, a pessoa com a qual você fala, provavelmente vai poder responder todas as suas dúvidas. Aqui é tudo muito complexo, há muita insegurança, ninguém sabe as regras. Um exemplo: em janeiro passaram a vigorar as novas regras do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços), mudadas em dezembro, no meio das férias, e ninguém sabe, nem os estados nem os contadores, como implementar isso, porque até agora continuam mudando a regulamentação. Então há muita insegurança, ninguém sabe o que fazer, as coisas mudam sempre, é difícil achar as respostas certas. A burocracia aqui é mal organizada e gera muito trabalho para as empresas agirem com compliance, serem corretas com suas práticas.

swissinfo.ch: E aí se cria toda uma barreira para os empreendedores investirem mais...

L.B.: Aqui, muitas pessoas entram em uma carreira de servidor público sem nunca terem trabalhado no setor privado, nunca terem visto os desafios de uma empresa. Na Suíça, em geral, uma pessoa não vai por um caminho e fica ali a vida toda. Outra coisa que acho importante é que lá todos os políticos têm outra profissão. São políticos quase que part-time. Eles são advogados, arquitetos, fazendeiros, então, veem realmente os desafios da população, e podem, de fato, atuar na elaboração de leis que ajudem as pessoas, em vez de fazerem coisas muito distantes da vida real.

swissinfo.ch: E parecem não ter a euforia de estarem no poder, não?

L.B.: Em inglês, há o termo accountability (sem tradução direta para o português, está relacionado ao ato de responsabilizar-se por algo e prestar contas por ele). Eu diria que o político no Brasil não é muito accountability. Mas ainda assim muitos são reeleitos. Não sei porquê! Já nos Estados Unidos e na Suíça, os políticos devem responder muito mais aos eleitores. Mas acho que é algo cultural no Brasil. A campanha eleitoral, por exemplo, é meio um circo – tem música, shows... Talvez 80% das pessoas que votam nem saibam o que estão fazendo, não tenham boa informação e conhecimento suficiente para entender tudo que está acontecendo.

swissinfo.ch: Vocês começaram em 2011, mudaram para um espaço mais amplo em 2015, contam com quiosques em shoppings de luxo de São Paulo. Tudo em plena crise no país. Como se deu isso?

L.B.: Se uma empresa tem capital para crescer, este é o momento, porque é possível achar oportunidades, espaços vazios em shoppings, aluguéis até 30% mais baratos... Há oportunidades para empresas que têm gestão mais flexível, mais moderna. Muitas empresas do nosso ramo abriram falência nos últimos meses. Elas cresceram baseadas apenas em um período de forte crescimento do país. Mesmo não sendo muito bem organizadas, davam certo porque o mercado estava explodindo, todo mundo comprava, então se fossem apenas 60% perfeitas, com "um jeito" dava. Mas na crise, se não se estiver fazendo 100% tudo certo, é muito mais difícil. Quem "dava um jeito" antes são os primeiros que quebram agora.

swissinfo.ch: Quais modelos de gestão ou práticas que podem ser mudadas para se ter mais agilidade e dinâmica?

L.B.: No mundo corporativo brasileiro, essa burocracia que há no governo existe também nas empresas, que são, por exemplo, muito hierárquicas. Não esperava isso, sendo o brasileiro um povo muito aberto, muito amigável. Mas, na verdade, nas empresas há muitos níveis, muitos comitês, muitas reuniões, fala-se muito, e, às vezes, faz-se pouco. E cada um tem uma responsabilidade muito bem definida e bem pequena. Eu acredito em dar poder às pessoas, deixá-las fazer o que sabem e tomar decisões da maneira que acham mais eficiente para a empresa. Assim, é possível ter colaboradores com mais responsabilidade, mais felizes e trabalhando melhor.

swissinfo.ch: Você diria então que não se arrepende de empreender aqui?

L.B.: Temos dificuldade, isso é fato. Mas acho que o que fizemos aqui não poderíamos ter feito na Suíça, seria impossível. Lá, o mercado é menor, o custo da mão de obra é altíssimo. O Brasil é um país que permite ainda fazer empresas, grandes empresas. Talvez seja mais complicado montar, mas há mais espaços. Por enquanto, não me arrependo, não.

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