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Na rota de crescimento


Empresa suíça acelera expansão no Brasil e América Latina


Por Dalen Jacomino


A suíça Straumann, líder global de implantes dentários, fechou a aquisição de 100% da brasileira Neodent antes do previsto. O novo CEO da Neodent, o alemão Matthias Schupp, explica o que está por trás do movimento e os planos da companhia para o Brasil e América Latina.

Sede da Neodent, em Curitiba. (Neodent/Straumann)

Sede da Neodent, em Curitiba.

(Neodent/Straumann)

A empresa suíça Straumann, líder mundial de implantes dentários, resolveu acelerar o processo de aquisição da brasileira Neodent e fechou em abril a compra dos 51% restantes da companhia. Numa tacada, desembolsou 210 milhões de francos e completou a aquisição da líder brasileira de implantes. O plano, segundo a liderança da empresa, é turbinar o crescimento no Brasil e avançar na América Latina.

A notícia do restante da compra causou certa surpresa no mercado em abril, já que ao adquirir os 49% da Neodent em 2012 (por 260 milhões de francos suíços), a opção prevista para a Straumann seria de aumentar a participação para 75% em 2015, podendo chegar a 100% até 2018. Mas, segundo o CEO da Neodent e vice-presidente sênior para América Latina, Matthias Schupp, conquistar os 100% da empresa iria facilitar a implementação da estratégia de crescimento.

“Quando de um lado existe o foco no crescimento da empresa e do outro lado, alguns acionistas preferem obter 100% do resultado em vez de investir na expansão, a situação fica complicada.  Chegamos então à conclusão que o melhor seria deixar a organização nas mãos da Straumann para que o crescimento pudesse ser acelerado”, explica Schupp, executivo que nos últimos meses tem liderado a consolidação deste casamento diretamente da sede da Neodent em Curitiba.

Antes de partir com a família para Curitiba, no início de 2014, o executivo de origem alemã vivia em Basel, onde fica a sede da Straumann, e era responsável pelas operações da empresa na Europa. Já viveu em vários países da América Latina, inclusive no Brasil, na década de 80. A seguir, Schupp explica a estratégia da Straumann para a Neodent e os desafios e oportunidades desta nova fase.

 swissinfo.ch: Em que aspecto do negócio a brasileira Neodent despertou a atenção da suíça Straumann?

Matthias Schupp: O Brasil é o segundo maior mercado do mundo em implantes dentários, logo após os Estados Unidos. Há 9 anos, entramos no Brasil com a marca Straumann, atuando no segmento premium, que é mais limitado. Nos últimos anos,  porém, sempre analisávamos a possibilidade de ter uma maior presença na América Latina, sempre pensando no Brasil como porta de entrada. Sabíamos que isso só seria possível usando uma marca local. A Straumann começou então a avaliar as companhias presentes neste mercado. Percebemos que não existiam muitas empresas que oferecessem produtos de alta qualidade e que tivessem capacidade de competir internacionalmente. Acabou sobrando a Neodent, líder de mercado no país.

 swissinfo.ch: Como os suíços avaliam o mercado brasileiro de implantes dentários?

MS: Estamos falando do segundo maior mercado do mundo, com 2,3 milhões de implantes por ano. Se olharmos para os aspectos demográficos do Brasil, a população está cada dia mais velha. Sabemos, por exemplo, que na boca de uma pessoa com 40 anos falta no mínimo um dente. Sabemos que esse mercado será nos próximos 8, 9 anos o maior do mundo, superando até os Estados Unidos.

swissinfo.ch: Além das questões demográficas, o que faz com que o mercado brasileiro tenha tanto potencial?

MS: Os brasileiros gostam muito de comer doce. Tudo isso afeta os dentes. Sempre achamos que o brasileiro, em geral, tem uma higiene bucal muito boa. Mas não é sempre assim. Limpar os dentes 4 vezes por dia não é muito bom para os dentes também. Os dentes, especialmente da população mais madura, que hoje tem 50, 60 anos, estão bastante machucados. A segunda razão é que o número de pessoas que precisam de implantes, mas não têm como pagar, é muito grande. A penetração da implantodontia no país, portanto, ainda é limitada.

Um retrato das empresas

Neodent

Líder do mercado brasileiro com 37% de participação

Sede: Curitiba, Brasil

980 funcionários

22 unidades no Brasil e 4 no exterior

258 milhões de reais de receita (2014)

Previsão de crescimento para 2015: entre 10% e 14%

Straumann

Líder global em implantes dentários, dentística restauradora e regeneradora

Sede: Basel, Suíça

2.400 funcionários em todo o mundo

Produtos e serviços presentes em 70 países

Faturamento de 710 milhões de francos suíços em 2014

swissnfo.ch: Qual o desafio do mercado brasileiro?

MS: O desafio é muito grande. É preciso que o mercado trabalhe com princípios éticos. Hoje no Brasil atuam mais de 100 empresas que produzem material para implantes. Muitas copiam as peças e não oferecem qualidade alguma. Algumas chegam a produzir o material numa garagem. Então, o mercado precisa ser mais regulamentado. Nós da Straumann e da Neodent trabalhamos com um sistema de passaporte, que garante ao paciente um produto de alta qualidade e original. Além disso, focamos na informação. Temos uma campanha que visa preparar o paciente para que entenda melhor os produtos e procedimentos.  Se for o caso, ele estará pronto para questionar até o dentista. Afinal, um implante no osso é para toda a vida.

swissinfo.ch: Por que fechar a compra dos 100% da Neodent em 2015? A queda do valor da moeda brasileira nos últimos meses foi um fator relevante?

MS: Definitivamente não. Nós tínhamos uma opção em 2015 para aumentar a participação a 75%, e em 2018 fechar os 100%. A decisão de completar os 100% foi tomada no início do ano porque queremos investir no crescimento e internacionalização da companhia. O momento é agora. Vamos investir em novas máquinas, a produção vai crescer. Vamos abrir novas sucursais na América Latina. Além disso, quando por um lado existe esse foco no investimento e por outro lado, alguns acionistas preferem obter 100% do resultado em vez de investir na expansão, a situação fica complicada.  Chegamos então à conclusão que o melhor seria deixar a organização nas mãos da Straumann para que o crescimento pudesse ser acelerado.

swissinfo.ch: Qual a sua missão nesta história?

Cheguei em janeiro de 2014 em Curitiba para preparar a transição. E mais recentemente assumi a posição de CEO do Brasil paralelamente à minha posição de líder para a América Latina. Quando você compara uma grande empresa internacional e uma empresa familiar, existem diferenças, é claro. Mas neste processo de fusão, queremos manter esse ‘coração brasileiro’ da Neodent, e adicionar as boas práticas da Straumann. Já estamos trabalhando um pouco mais profissionalmente, um pouco mais organizados. Também queremos manter a motivação de toda a equipe, de quase 1.000 pessoas da Neodent, para o crescimento que está por vir.  Temos potencial não apenas de crescimento internacional, mas no Brasil também. Enquanto muitos falam de crise no país, nós estamos crescendo.

swissinfo.ch: E qual o foco do crescimento?

MS: No nível internacional, um dos focos é a América Latina, que também está sob minha responsabilidade. Vamos abrir uma subsidiária na Colômbia, outra em Buenos Aires e no México vamos juntar a Neodent com a Straumann. Dessas unidades atenderemos os mercados vizinhos. Da Colômbia, atenderemos Peru, Equador e Venezuela. Do México, atenderemos América Central e da Argentina, Chile e Uruguai. Teremos quatro pilares juntamente com o Brasil para atender melhor os mercados.

swissinfo.ch: Qual o papel da Instradent?

MS: A Instradent é uma organização de distribuição, pertencente 100% à Straumann, que vai trabalhar os produtos da Neodent na Itália, Espanha, Estados Unidos, ou seja, em mercados fora da América Latina.

A Straumann comprou várias outras empresas pelo mundo, não tão grandes como a Neodent, nem sempre com 100% participação, como a Medentika na Alemanha e a Createch na Espanha. E acredito que ocorrerão mais aquisições no futuro. Então, todas essas operações estarão também sob o teto da Instradent.

swissinfo.ch: Sua missão então é orquestrar esse plano de expansão?

MS: Meu desafio, como para qualquer CEO, é transformar uma empresa familiar em uma empresa transparente e internacional, e levar esta empresa em tempos difíceis – sabemos que o mercado brasileiro não é fácil – ao crescimento. Hoje somos uma empresa pública, junto com a Straumann, e isso significa que temos que publicar os resultados a cada trimestre. Então, você pode imaginar que a pressão por parte dos investidores e acionistas é grande.

Atualmente, 80% do meu tempo vai para a Neodent e 20% para a Straumann América Latina, porque muito do trabalho da Neodent abrange também a Straumann. Por exemplo, neste momento estamos integrando todas as operações da Straumann Brasil, que ficavam em São Paulo, na sede da Neodent em Curitiba. Para lidar com todos os desafios, tenho uma equipe forte. Conto também com uma linha direta com o CEO da companhia Marco Gadola em Basileia, o que me ajuda bastante. Somos bastante pragmáticos, bastante rápidos.

swissinfo.ch: Como está sendo o processo de fusão das duas culturas, que são bem diferentes?

Se falarmos de mim, eu me sinto mais latino que alemão, porque já vivi muito no América Latina, inclusive no Brasil nos anos 80. Espero que esse trabalho em conjunto seja uma inspiração para as pessoas. Muitas vezes o alemão ou o suíço parecem ser muito rígidos, mas não é sempre assim. Nós podemos, sim, ser abertos. Por outro lado, esse é um projeto que vai levar um certo tempo. Não conseguimos tudo de um dia para o outro. O mais importante é que as pessoas na Neodent saibam que estão trabalhando numa empresa excelente, que fez um trabalho excepcional nos últimos anos. E que ninguém vai perder o emprego. Ou que vai haver uma invasão da Straumann para tomar os postos de trabalho. Essa mensagem foi passada. As pessoas estão motivadas. E se adaptando.

Agora se falamos da diretoria, do meu time direto, já tenho um ano de empresa. Eles já tiveram tempo para me conhecer. Nós temos mais comunicação, mais reuniões, trocamos mais ideias.  Cada pessoa que trabalha na empresa é importante, não importa o cargo. Eu espero uma comunicação aberta, transparente. E estou muito feliz com os avanços que estamos fazendo. 

Um caso de sucesso brasileiro

A Neodent é um caso de sucesso de empreendedorismo brasileiro. A companhia foi fundada em 1993 pelo dentista paranaense Geninho Thomé, hoje um dos 54 bilionários brasileiros. Ele decidiu começar a fabricar implantes depois de participar de um curso de especialização nos Estados Unidos e entender que a fabricação não era tão impossível. Importou a tecnologia e as máquinas e começou a produzir implantes para atender as necessidades de seu próprio consultório. Com o processo, ainda que artesanal, o preço dos implantes caiu cerca de 80%.

A demanda não parou de crescer. Em 1998 o dentista abriu a primeira fábrica em Curitiba. Em 2007, uma nova unidade com capacidade para produzir 1,3 milhão de peças foi construída.  “Eu não tinha nenhuma ambição de fazer uma grande empresa. Queria apenas atender às minhas necessidades”, afirma Thomé, em artigo publicado na revista Exame.

A Neodent é a líder do mercado brasileiro, com 37% de participação, o que garantiu à empresa um faturamento de 258 milhões de reais em 2014. Com a compra pela Straumann, Thomé assume o papel de presidente científico e permanece como presidente do conselho de administração da Neodent.

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