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Robôs


Eles estão entre nós


Por Mirela Tavares, São Paulo


Pode não parecer tão óbvio, mas os robôs já fazem parte do nosso dia a dia. O que há poucas décadas parecia um futuro distante se tornou o presente, e o futuro agora é que toda essa inteligência artificial está ganhando um formato mais humano e tornando evidente o convívio entre pessoas e máquinas. Uma das lideranças mundiais nessa área, o suíço Rolf Pfeifer, esteve recentemente no Brasil e concedeu entrevista para swissinfo.ch.

O ciriador e a criatura "interagem" no laboratório em Zurique. (Keystone)

O ciriador e a criatura "interagem" no laboratório em Zurique.

(Keystone)

Uma amostra dessa realidade é o projeto Robolounge. A ideia prevista para se concretizar em 2016, na Ásia, consiste em um espaço ocupado por humanoides, interagindo com as pessoas e mostrando sua utilidade e eficiência na rotina e bem-estar dos indivíduos.

Uma das lideranças mundiais do assunto é o professor Dr. Rolf Pfeifer, pesquisador em Robótica e Inteligência Artificial, Ph.D em ciência da computação pelo Swiss Federal Institute of Technology (ETH), em Zurique, e criador do Roboy. O robô, com um perfil de uma criança quebrou uma das principais barreiras de aceitação dessas máquinas por seu aspecto mais humano, podendo reproduzir claramente expressões como raiva, tristeza e alegria.

Em uma palestra durante o primeiro encontro Swiss Alumni, em São Paulo, realizado pelo Swissnex – plataforma de promoção e troca de conhecimento e inovação –, Dr. Pfeifer deixou claro que não se trata mais de questionarmos se queremos ou não os robôs entre nós. "Eles já estão, por isso é tão importante debatermos e avaliarmos qual direcionamento queremos dar a isso", diz.

Para os que têm medo do futuro ou que se deixam impressionar por filmes hollywoodianos de robôs que causam destruição ou que controlam humanos, o Dr. Pfeifer lembra dos tantos outros benefícios que essas máquinas já proporcionam e podem proporcionar ainda mais. Seja em serviços domésticos básicos, vigilância ou resgates de alto risco, os robôs podem ser bastante úteis. Embora haja o medo de que toda essa inteligência artificial provoque problemas como desemprego, Dr. Pfeifer ressalta a contribuição deles para melhoria da qualidade de vida de todos.

Exemplos não faltam, como robôs que podem ajudar tetraplégicos a andar, carros com autonomia para dirigirem sozinhos, humanoides que auxiliam na interação com crianças autistas, entre inúmeras outras situações. E quanto mais próximo e intenso esse convívio, mais a necessidade de governos, empresas e indivíduos compreenderem o potencial dessas máquinas e encontrar formas de lidar com elas de forma segura e confortável. Detalhes que ele conta a seguir, ao falar um pouco sobre seu trabalho e carreira em entrevista para swissinfo.ch.

swissinfo.ch: Vemos um interesse crescente pelos jovens em robótica. O que torna essa tecnologia tão interessantes?

Dr. Rolf Pfeifer: Uma das coisas fascinantes da robótica para os jovens e também para mim é que, em contraste com o computador ou um celular, se tem um sistema físico que se move parcialmente ou de forma autônoma. Isso é fascinante. O celular só se move quando você o leva na mão. Já um robô pode fazer isso sozinho.

swissinfo.ch: O que o levou efetivamente a estudar robótica?

RF: Eu trabalhava com inteligência artificial de maneira tradicional, ou seja, apenas com programas de computador. Mas percebi que se estava realmente interessado em inteligência faltava alguma coisa essencial. E essa coisa era a personificação, o corpo físico. Então, para seguir trabalhando em um sistema inteligente que representasse formas biológicas de inteligência tínhamos que construir algo que tivesse um corpo físico. Eu diria que basicamente fui forçado a trabalhar com robótica. Não era minha ideia trabalhar com robótica, mas aí uma sequência de coisas me levaram a isso e me dei conta: Ah! OK! Realmente é fascinante! E acabou se mostrando algo extremamente produtivo na minha vida científica.

swissinfo.ch: O senhor é desses cientistas que demonstrava interesse no que faz hoje desde muito jovem?

RP: Não. Nem tinha ideia do que era robótica nem tinha interesse pelo assunto. Só mesmo mais tarde, quando me dei conta que programação de computador não seria suficiente para reproduzir formas mais naturais de inteligência artificial é que fui forçado a me envolver com isso. O que acabou se mostrando uma coisa muito positiva. Mas quando eu era criança, definitivamente não tinha nenhum interesse.

swissinfo.ch: Pelo que se interessava?

RP: Nem sei dizer. Não lembro. Achava a maioria das escolas chatas. Era mais serendipity (sequência de eventos que ocorrem por acaso que levam a insights ou situações afortunadas). Alguma coisa acontecia, aí eu gostava e me interessava por algo. Toda minha carreira foi uma série de coincidências, de sorte.

swissinfo.ch: O sehor gosta muito desta palavra, não?

RP: Sim. Eu gosto muito (risos). E acho muito importante como conceito.

Serendipity é aquela coisa que você não está esperando, não está prestando atenção em nada particularmente, mas de repente acontece e aí você se dá conta que era o que procurava. Não se pode dizer que é apenas sorte. Na verdade, é algo que você pode moldar na sua vida, no seu ambiente de uma forma que serendipity se torne mais favorável para acontecer.

swissinfo.ch: Então, no final das contas, somos nós mesmos os responsáveis pelo acaso que acontece nas nossas vidas?

RP: Eu acho. É verdade que há pessoas com mais sorte do que outras, mas acho que se você não faz nada, serendipity não irá acontecer. Você tem de trabalhar por isso.

swissinfo.ch: Hoje, Roboy, um robô que consegue demonstrar de forma evidente expressões humanas como alegria, raiva e tristeza é uma realidade. Como se sente criando o futuro?

RP: Como cientistas, somos responsáveis pelo futuro, mas realmente acho que essa responsabilidade não deve ser deixada apenas para nós. Devemos debater isso com a sociedade em geral, envolvendo a todos, ou pelo menos aquelas pessoas que se interessem por desenvolvimento tecnológico. Uma das razões porque queremos realizar o Robolounge é porque queremos promover uma plataforma que realmente motive e envolva as pessoas para discutir esse tema. É a possibilidade de lançarmos um debate para discutir o assunto, discutir um futuro que está chegando e que precisamos decidir sobre ele.

swissinfo.ch: Embora os robôs sejam essencialmente benéficos em várias situações, eles também são usados de forma que ferem pessoas, haja vista o que fazem em guerras. Como o senhor se sente ao vê-los sendo usado para fins como este?

RP: A questão é que qualquer tipo de tecnologia pode ser usada de forma danosa. Não temos como evitar. O que podemos fazer, sim, é sempre lançar o debate, promover a discussão com a sociedade para saber o que queremos, o que esperamos e como devemos regular essas tecnologias.

swissinfo.ch: Muitos ainda temem que robôs venham a substituir trabalhadores no mercado de trabalho causando ainda mais desemprego e outros problemas na economia. O que diria a essas pessoas?

RP: Não se trata de substituir humanos, mas de contribuir para que as pessoas façam o que podem fazer de melhor, deixando o trabalho pesado ou atividades de risco ou que elas não gostam de fazer para os robôs. Assim, mais pessoas podem se dedicar realmente ao que gostam. Os robôs podem fazer uma série de atividades que nem imaginam que eles podem. E dessa forma podem também impactar para melhor. Por exemplo: carros que dirigem sozinhos podem diminuir consideravelmente os acidentes de trânsito, que por sua vez impactam na realidade de hospitais e prontos-socorros. Eles podem interagir muito bem com crianças autistas, porque elas têm muito receio de humanos, mas não medo dos robôs, então essa conexão pode ser muito forte e muito boa, assim como  eles também podem contribuir para que tetraplégicos possam voltar a andar sozinhos (Dr. Pfeifer citou em sua palestra o trabalho da equipe liderada pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis que criou o exoesqueleto, uma veste robótica controlada pelo pensamento apresentada na abertura da Copa de 2014).

swissinfo.ch: Embora lidem com algo tão artificial, para construção de um robô vocês parecem dar muito mais atenção as características, aos sentimentos e movimentos humanos do que as pessoas no dia a dia parecem preocupadas umas com as outras...

RP: A metodologia para construir robôs é a atenção com detalhes mínimos. Quando se constrói uma máquina como essa é necessário um olhar preciso para se observar sutilezas nas expressões humanas quase imperceptíveis, é preciso conhecer o ser humano. Nós realmente aprendemos muito do humano construindo máquinas.

Robótica como pauta social

Ver o professor Dr. Rolf Pfeifer manter os ouvintes de um salão lotado completamente atentos a cada palavra da sua palestra deixa claro que ele é um especialista tanto em máquinas quanto em pessoas. Este talento fica mais evidente quando se sabe da complexidade do tema da sua apresentação: robótica.

Para o "pai" de Roboy – robô criado na Universidade de Zurique com capacidade de falar e imitar gestos e funcionalidades de movimentos humanos –, o crescente desenvolvimento desses homanoides exige mais consciência do papel deles na vida das pessoas. Por conta disso, um de seus desafios no momento é a realização do Robolounge e a inserção da robótica na pauta comum de informação e debate da sociedade.

Com mestrado em Física e Matemática e Ph.D em Ciência da Computação pela Universidade de Zurique, Dr. Pfeifer se tornou reconhecido mundialmente entre os grandes nomes da robótica e inteligência artificial. Ele também é professor na Universidade de Osaka, no Japão, e na Universidade Jiao Tong, na China, além de membro da Comissão de Tecnologia de Inteligência Artificial de Zurique.

Ele também assina títulos como “How the body shapes the way we think: a new view of intelligence”, “Understanding Intelligence”, “Designing intelligence – why brains aren’t enough” e “La révolution de l’intelligence du corps”.

swissinfo.ch

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