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Empreendedores portugueses As cozinhas à medida de Miguel Rebelo

Nasceu em Lamego e durante 10 anos visitava os pais na Suíça no período das férias verão e recorda esses três meses com alegria. No verão de 1997, os pais receberam o visto de residência "B" e acabou por ficar no país com eles. Ao longo dos anos, fez de Saillon a sua casa.

Miguel Rebelo com as montanhas do cantão do Valais, ao fundo.

Miguel Rebelo com as montanhas do cantão do Valais, ao fundo.

(swissinfo.ch)

Em 2011 fundou a empresa MulticonceptLink externo, que atua na área da carpintaria. Sob um sol de inverno deslumbrante, a swissinfo.ch encontrou-se com Miguel Rebelo na sua casa em Saillon para partilhar conosco a sua história.

Miguel Rebelo viveu toda a sua infância e adolescência em Lamego, na região de Trás-os-Montes. Os seus pais estiveram emigrados na Suíça durante dez anos e ele vivia com os seus avós. Miguel conta-nos que todos os verões, juntava-se um grupo de crianças e adolescentes que iam visitar os seus pais no cantão do Valais. Desses meses de verão na Suíça lembra-se de ficar feliz por voltar a encontrar a mãe e o pai e das asneiras que fazia com os amigos, "nós não estávamos habituados, aqui acabava por ser um pouco rígido e, naquele tempo, sentia-se alguma xenofobia. No entanto, tudo era divertido".

Quando os seus pais receberam a autorização para terem os filhos com eles, não regressou mais a Portugal, apenas de férias. Na altura, a mudança da vida de estudante para o mundo laboral, não poderia ter sido mais violenta: "o meu primeiro trabalho foi a lavar panelas num restaurante em Lausanne". Como o seu pai era servente na construção civil, Miguel decidiu mudar de área e trabalhou com o seu pai cerca de um ano. Contudo, a oportunidade de trabalhar em carpintaria surgiu e decidiu mudar porque "quando vivia em Portugal, havia uma carpintaria para onde eu gostava de ir", relembra.

A sua formação decorreu toda em contexto laboral e acabou por não ter tirado o certificado profissional. Enquanto Miguel não se estabeleceu como empresário, trabalhou para três empresas de carpintaria. Em simultâneo, costumava fazer trabalhos ocasionais no final do dia e ao sábado, em casa de pessoas que conhecia. A certo momento, o nosso entrevistado percebeu que teria de lançar o seu próprio negócio: "cheguei a um ponto em que tinha muito pedido e só tinha o sábado livre, não podia responder a qualquer momento".

Decisão tomada: fundar a empresa

No momento em que decidiu legalizar a empresa, dirigiu-se à comuna de Saillon para receber algumas informações e apenas teve de efetuar o registo comercial, preencher um formulário com as perspectivas de faturação do primeiro ano de atividade, entre outros assuntos, "foi muito fácil. O que é mais difícil é a concorrência".

Miguel diz-nos que a presença portuguesa na área da construção é muito elevada no cantão do Valais, "diria que deve ser 60% da mão-de-obra", atira. Devido a essa quantidade de pessoas a trabalhar nas áreas adjacentes à construção civil, a concorrência torna-se mais feroz e Miguel Rebelo mostra algum desconforto relativamente à deslealdade de diversos portugueses que tem conhecido na Suíça. Na sua opinião, prefere trabalhar com suíços porque são mais sinceros profissionalmente, e dá o exemplo de que conversa tranquilamente com o seu anterior patrão, mas que tem concorrentes portugueses que passam por ele e preferem não lhe falar.

Os seus trabalhos e a relação com Portugal

O nosso entrevistado diz-nos que há cerca de 10 anos, o mercado suíço de cozinhas, janelas, portas, entre outros, estava muito fechado. Paulatinamente, agregado a uma maior procura por produtos no estrangeiro, a chegada de diversos emigrantes fez com que trouxessem consigo contatos e passassem a importar produtos de outros países para realizarem as obras. No começo não foi fácil porque desconfiavam da qualidade das cozinhas importadas de Portugal, mas lentamente, começaram a ganhar o seu espaço na escolha dos consumidores suíços. Para além de Portugal, também são importadas cozinhas e outros materiais de carpintaria, de Espanha, França e outros países.

Miguel Rebelo recorre à produção de fábricas portuguesas para se abastecer de peças: portas, janelas, componentes para cozinhas, soalhos, tetos. Dessa forma, dedica-se maioritariamente ao assentamento. Também trabalha na área da renovação, que deverá ser uma área que poderá manter algumas empresas vivas nos próximos tempos porque, segundo o nosso entrevistado, a construção civil no cantão do Valais está a abrandar. Na sua opinião, a sua empresa tenderá a resistir a esta queda da procura porque são quatro funcionários, todos eles portugueses, e costumam atuar seja na montagem de peças novas seja no restauro de madeiras.

Na opinião de Miguel, o facto de importar produtos de Portugal permite-lhe praticar preços mais competitivos. Assume que teve de limar algumas arestas em conjunto com os fornecedores porque não havia o hábito de cumprir os prazos e, nisso, os suíços são muito rigorosos. Em virtude de ter uma empresa, consegue importar os produtos de Portugal sem IVA, que tem uma taxa de 23%, e pagar apenas o IVA na Suíça, com uma taxa de 8%; deve-se apenas acrescentar os custos alfandegários e de transporte.  

Ao contrário do que costuma ser comum, os preços para montar uma cozinha à medida do cliente desceram bastante. Miguel diz-nos que essa queda rondará, em média, os 25%. Para essa queda contribuiu a importação de matérias-primas e a mão-de-obra estrangeira. E nisso, os portugueses tiveram um papel indiscutível.

A sua clientela

No início, a sua clientela era praticamente toda portuguesa, "as pessoas sabiam que eu tinha preços bons, então vinham ter comigo. Através do boca-a-boca fui construindo a minha rede de clientes". Mesmo sendo o passa-palavra a forma que mais garantias lhe tem dado, Miguel Rebelo apostou em construir um website e divulgar a sua empresa em alguns meios de comunicação locais.

 No presente, reconhece que tem mais clientes suíços do que portugueses. Para além de clientes privados, também realiza trabalhos de carpintaria para a comuna de Saillon e escola pública, "aí foi através de concurso público, sendo avaliados três orçamentos. Julgo que ganhei o concurso inicial devido aos preços. No entanto, após conhecerem o meu trabalho, reconhecem-lhe qualidade".

A experiência de empresário

Quando desafiamos Miguel Rebelo a refletir sobre a sua experiência empresarial, não hesita em dizer que se fosse hoje não voltaria a fazer a façanha, "roubou-me muitas horas de sono e tempo com a família. Mas, sinceramente, não estou arrependido de tê-lo feito". Quando começou a dar os primeiros passos, foi complicado gerir questões burocráticas e contabilidade, mas também isso foi um desafio. Miguel reconhece que lhe permite ter uma vida financeiramente desafogada, talvez melhor do que muitos suíços, e que "às vezes, posso ficar em casa com a minha filha e o meu filho, quando não têm aulas à tarde", sorri.

Quando é questionado quais são as perspectivas que tem para o seu negócio, Miguel é peremptório a responder, "não quero expandir o negócio. O trabalho que tenho é suficiente, vai-se vivendo o dia-a-dia com saúde". Conta-nos que já tem a sua clientela estabelecida na região e que aos poucos vão chegando novos, sem ter a preocupação em aumentar a sua carteira de clientes.

Viver em Saillon

Para Miguel Rebelo, Saillon é o seu "cantinho", desde que chegou no ano de 1997. Daí não voltou a sair. Gosta de viver na vila e espera por lá continuar. Sem que nos perguntássemos Miguel partilha espontaneamente que não tem interesse em voltar para Portugal, "gosto de ir lá de férias, mas já me habituei à Suíça, estou muito bem integrado. Depois, tenho aqui os filhos na escola, o que iria fazer para lá?".

Assume que se habituou por completo aos hábitos suíços e está confortável no seu cantinho, em Saillon. Dificilmente, sairá do Valais mas irá continuar a fazer a ponte entre os dois países.

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