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Escritores estrangeiros


A Suíça contada em livros


Por Liliana Tinoco-Baeckert


Literatura sobre vida no país desmitifica estereótipos e denota admiração e surpresa com paradoxos nacionais: boa opção para aprender a viver em harmonia com o diferente.

A Suíça vista em diferentes óticas: iluminação do Palácio Federal (Parlamento) em Berna durante um evento especial.  (Keystone)

A Suíça vista em diferentes óticas: iluminação do Palácio Federal (Parlamento) em Berna durante um evento especial. 

(Keystone)

A Suíça parece causar um misto de fascínio e curiosidade aos estrangeiros que vivem no país. O sentimento é literalmente expresso por meio da literatura: existem hoje cerca de mais de 15 livros disponíveis para venda em livrarias ou na internet. O mais interessante é que não se trata de guias de viagem, ou compilações com endereços de restaurantes, mas relatos da cultura local e curiosidades, verdadeiros guias de sobrevivência que parecem orientar os imigrantes mais perdidos e dialogar com os mais ávidos a destrinchar as diferenças culturais. A reportagem levou em consideração somente livros em português, inglês e francês, mas provavelmente há opções em outros idiomas.

A comunidade de língua portuguesa tem à disposição o livro Viver na Suíça, lançado em setembro de 2014, e o novíssimo Vida na Suíça, lançado em setembro último. Em francês, o livro Suis-je devenue Suisse? (Me tornei suíça?) foi escrito pela maranhense Samaritana Pasquier sobre sua experiência de adaptação e transformação cultural em 25 anos no país. Para quem entende inglês, o leque de opções é grande, são cerca de 17 livros: Beyond Chocolate, understanding Swiss culture (Além do chocolate, entendendo a cultura suíça; Swisscellany: facts & figures about Switzerland (Miscelânea suíça, fatos e números sobre o país), Once upon an alp (Era uma vez um alpe), e o famoso Xenophobe’s guide to the Swiss (o guia xenófobo da Suíça), além de outros.

Migrantes descrevem país

A maioria é escrito por pessoas que vivem no país e que sentem uma extrema vontade de dividir as idiossincrasias dessa cultura. De acordo com o britânico Diccon Bewes, na introdução do Swiss Watching (considerado pelo Financial Times como livro do ano em 2010, as imagens clichês de montanhas, vaquinhas, Heidi e chocolate escondem uma comunidade interessante e paradoxal. Bewes explica no livro que seu interesse em escrever se deu justamente pela união de uma sociedade extremamente conservadora, que ele exemplifica com a proibição de reciclagem de lixo aos domingos; e ao mesmo tempo muito liberal, ao ter uma atitude respeitosa em relação ao uso de drogas e ao suicídio assistido.

Para o autor, é curioso que todos reconheçam os símbolos do país, mas ao mesmo tempo não conheçam um nome suíço que represente o esporte, ou um prédio ou monumento importante, até porque a cultura local é discreta e não fomenta grandes obras. Outro ponto que chama muita atenção dos autores é a dificuldade de se fazer amizade, como relata a autora do livro Beyond Chocolate, Margaret Oertig-Davidson. Ela compara a sociedade a um coco: a sua dura casca e a dificuldade de atingir a polpa simbolizam a clara distinção entre a vida pública e privada e a problemática em se conseguir privar da intimidade de um suíço.

Talvez a maior diferença entre os livros de literatura inglesa e os brasileiros sejam, além da língua, claro; a visão particular dos autores sobre o país – que muda de acordo com a cultura de quem escreve. Enquanto os britânicos e americanos relatam com muito humor os comportamentos típicos dos suíços, os brasileiros assumem uma postura mais orientadora, trazendo questões consideradas importantes por esse público, como por exemplo, o frio e como lidar com ele, a dificuldade com a língua e de integração na sociedade. Mas a busca pela perfeição e organização, extrema pontualidade e curiosidades são pontos observados por todos – seja de forma jocosa ou informativa.

Livros ajudam brasileiros no processo de adaptação

A dificuldade com o idioma e a falta de instruções em português diante de tantos costumes diferentes foram o ponta pé inicial para as brasileiras escreverem sobre a Suíça. Mesmo sem patrocínio ou uma editora para vender os livros, elas assumiram os riscos e custos e publicaram os livros Viver na Suíça e Vida na Suíça. A única que publicou seu livro por caminhos convencionais foi Samaritana Pasquier, que escreveu em francês o Suis-Je devenue Suisse? (Me Tornei Suíça?).

Segundo a brasileira Liana Soares, autora do livro Viver na Suíça, a vontade de escrever surgiu basicamente do seu olhar curioso sobre a forma como os locais levam a vida no dia a dia, algo tão interessante de se observar. “A minha curiosidade me fez enxergar além da organização desse país, que chama a minha atenção por ser imbatível. O dia a dia sem contratempos é consequência de uma rotina de trabalho diário, tomada a sério por toda sociedade, para que todos levem uma vida com sistemas que funcionem, gerando menos estresse possível”, explica Liana, que saiu de Brasil há sete anos e trabalha como gerente de testes de software de projetos de tecnologia da Informação em uma empresa suíça.

Ainda admirada com o país e feliz por viver em Berna, a escritora compara a fácil fluência do cotidiano com um quebra cabeça que se encaixa perfeitamente, seja com a conexão do ônibus que atende perfeitamente a do trem, refletida até mesmo na língua alemã, tão exata e metódica. A autora começou a compartilhar suas observações em seu blog Ela é Americana… da América do Sul, há quase sete anos e fez tanto sucesso que resolveu resumir as dicas mais importantes, os tópicos mais pedidos e escreveu o livro há pouco mais de um ano. Viver na Suíça relata suas experiências no dia a dia, as comidas típicas, a cultura, informações práticas sobre como encontrar um apartamento, por exemplo. O livro não é vendido em livrarias, mas pode ser adquirido diretamente no blog www.elaeamericana.net.

Explicar a Suíça

As brasileiras Fabiana Mayume Kuriki, Maria Carolina Aeschlimann e Patricia Lobmaier lançaram em setembro, em Genebra, o livro Vida na Suíça. As três amigas (duas advogadas e uma empreendedora social) decidiram escrever após encontrarem tantas dificuldades para se informar sobre o país onde moram atualmente. De acordo com Fabiana Kuriki, a falta de informação em português e a dificuldade de encontrar dicas e orientações em alemão a intrigou de tal maneira que nasceu a ideia de escrever o guia. “A nossa incessante busca nos fez escrever para ajudar os outros brasileiros que muitas vezes não tem acesso a sites ou que não falam outro idioma, mas ao mesmo tempo nos ajudou a nos integrar nesse país”, explica. Segundo Patricia Lobmaier, apesar de já morar na Suíça há oito anos, a experiência de escrever trouxe um enorme aprendizado, tanto de trabalho em conjunto quanto a de saber mais sobre a Suíça.

De acordo com Fabiana, a dificuldade em obter informação é muito séria, mas infelizmente alguns as prefeituras e cantões suíços ainda não atentaram para a gravidade do assunto, principalmente na parte alemã, onde o idioma é uma barreira à integração. “Uma vez recebi mensagem de uma pessoa dizendo que tinha recebido a cartela de iodo na sua caixa de correio e que já tinha até tomado o medicamento”, explica ao relatar o caso das caixas de remédio que o governo distribui para a população tomar em caso de acidente nuclear. Apesar de reconhecer os esforços do governo na integração dos estrangeiros, a brasileira acredita que é importante que a informação para a comunidade de língua portuguesa chegue ao público alvo, de maneira que estimule a integração no país.

Produção independente

Sem patrocínio, as três brasileiras se voluntariaram para escrever e disponibilizaram o livro para download no site www.vidanasuica.com, que criaram em agosto com o mesmo objetivo.

Sem dinheiro para imprimir os livros, elas fizeram apenas algumas cópias e levaram às embaixadas de países de língua portuguesa, informando sobre o canal de comunicação. Foram seis meses de escrita, lançamento e distribuição gratuita. Sacrifício que, segundo Maria Carolina Aeschlimann, valeu. “Foi muito gratificante saber que, além de brasileiros, estamos ajudando a toda uma comunidade de língua portuguesa, inclusive de africanos, que não tem meios para obter informações. Muitas embaixadas não têm página na internet e estamos felizes em saber que conseguimos contribuir com o nosso trabalho”.

Lista de Livros:

- Vida na Suíça (Fabiana Mayume Kuriki, Maria Carolina Aeschlimann e Patricia Lobmaier)e site www.vidanasuica.com

- Viver na Suíça (Liana Soares) e blog Ela é Americana… da América do Sul -  www.elaeamericana.net

- Suis-Je devenue Suisse? (Samaritana Pasquier)

- Swisscellany: facts & Figures about Switzerland (Diccon Bewes)

- Swiss Watching: Inside the land of Milk & Money

- Beyond Chocolate: understanding Swiss Culture (Margaret Oertig-Davidson)

- Once Upon an Alp (Eugene Epstein)

- Ticking along with the Swiss (Dianne Dicks)

- Ticking along too (Dianne Dicks)

- Ticking along free (Dianne Dicks)

- Cupid’s wild arrows (Dianne Dicks)

- Laughing along with the Swiss (Paul Bilton)

- Inside Outlandish (Susan Turttle)

- Swiss me (Roger Bonne)

- Culture Smart! Switzerland (Kendall Maycock)

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