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Exposição


Os espíritos da floresta estão em Genebra




O xamã e o pensamento da floresta é uma grande exposição de objetos, fotografias, instalações e filmes dos nove países amazônicos, organizada pelo Museu de Etnografia de Genebra (MEG), até 8 de janeiro de 2017. Visita guiada pelo comissário da exposição e diretor do MEG, Boris Wastiau.

Cocar (1960-1970) e flechas decoradas (1950), ambos do Brasil. (MEG, J. Watts)

Cocar (1960-1970) e flechas decoradas (1950), ambos do Brasil.

(MEG, J. Watts)

O Museu de Etnografia de Genebra começou a colecionar objetos indígenas da Amazônia desde o século 18. Tem uma das maiores coleções da Europa, com 5.000 objetos em excelente estado de conservação. Deles, 500 fazem parte da exposição atual.

Desde o período da conquista e colonização, estima-se que 80% dos indígenas da Amazônia desapareceram. Mesmo assim, e com todos os problemas atuais, estima-se que no Brasil, maior país amazônico, existam cerca de 700.000 indígenas de 237 etnias.

Boris Wastiau, diretor do MEG, explica que, quando estudante, viajou para conhecer as culturas indígenas da Amazônia e queria fazer sua tese sobre eles. “Depois acabei me tornando africanista e, quando cheguei aqui no museu percebi que tínhamos uma grande coleção de objetos dos índios da Amazônia”. Essa exposição é, portanto, uma espécie de volta às origens para o diretor do MEG.

“Mostramos como os índios viviam no passado, com a ajuda de mapas e testemunhos antigos, livros, documentos e fotografias e objetos históricos, mas também como vivem hoje. Temos também muitas fotografias e instalações vídeo”.

Uma das visões incontornáveis da exposição é uma imensa tela com imagens de rios da Amazônia feitas pelo suíço René Fontanet. Ele deitou-se em uma canoa para filmar e cada pessoa que olha tem a ilusão de estar realmente dentro da canoa a navegar por rios e igarapés da Amazônia.

Outra instalação muito interessante, realizada por dois videastas de São Paulo, Gisele Mota e Leandro Lima, “que tentam nessa obra exprimir uma experiência do xamanismo. Em uma tela grande com fitas de tecido sobre a qual são projetadas imagens da selva inclusive com ruídos. De vez em quando surgem imagens que sugerem xamãs e espíritos da floresta que passam”, justamente o tema da exposição.

“Para mim era muito importante ter as fotografias da Claudia Andujar. Ela é uma grande fotógrafa e faz mais de 40 anos que ela se interessa pelos yanomâmis. Ela fotografou o xamanismo e, em princípio, impossível. Porque o xamanismo é o fato de tomar drogas para ficar num estado de transe e depois não se sabe o que acontece. Ela fotografou e depois fez montagens fotográficas que sugerem a experiência do xamanismo.

 Ouça aqui a integralidade das explicações Boris Westiau, diretor do MEG

 

A fotógrafa Claudia Andujar, presente na exposição, explicou para swissinfo.ch que começou a fotografar no Brasil, onde chegou em 1955. “Logo me senti muito bem no Brasil. Já falava várias línguas, mas nem uma palavra de português. Então comecei a utilizar a fotografia como linguagem de comunicação. Com o tempo, comecei a trabalhar para revistas americanas”. Andujar conta que, no começo dos anos 1960, foi mostrar à revista Cruzeiro, a maior na época, seu primeiro trabalho com índios, os carajás. “Propus, mas eles me recusaram por ser estrangeira e por ser mulher; acharam que não tinha lugar para uma mulher eu”, disseram assim mesmo”. Alguns anos mais tarde surgiu a revista Realidade, “com uma mentalidade muito aberta e se interessaram pelo meu trabalho”. Ela conta que trabalhava como “free lancer”, mas continuamente durante cinco anos. “Na Realidade, podíamos viajar e ficar o tempo necessário para fazer uma matéria boa”.

Uma máscara de meados do século 20 do Brasil feita com madeira, talo de palmeira, penas variadas, pérolas, pena de tucuno, cera de abelha, resina, algodão e argila. (MEG, J. Watts)

Uma máscara de meados do século 20 do Brasil feita com madeira, talo de palmeira, penas variadas, pérolas, pena de tucuno, cera de abelha, resina, algodão e argila.

(MEG, J. Watts)

Encontro por acaso

A revista preparava um número especial sobre a Amazônia e mandou Claudia Andujar para lá. “Eles me pediram para fazer algumas coisas e eu fiz. Depois me deram liberdade para fazer o que eu achava importante”, conta ela. “Eu estava em Manaus quando descobri que um padre salesiano que trabalhava num lugar chamado Maturacá tinha morrido e ninguém porquê. Chamei a redação em São Paulo e eles me mandaram ir até lá tentar descobrir como ele morreu”. Maturacá ficava em território ianomâmi, mas a fotógrafa nem sabia. Ela não descobriu a verdade, mas diziam que o padre tomava o alucinógeno que os ianomâmis tomam (aquana) em certas cerimônias. “Diziam que o padre um dia tomou, caiu no rio e se afogou. Ninguém conseguiu provar e acho que os salesianos também não tinham interesse, mas o fato é que conheci os ianomâmis e minhas primeiras fotos deles foi foram feitas lá”. Claudia conta que gostou muito deles, que foi muito bem recebida e que eram índios de primeiro contato. “A revista tinha me pedido para não fotografar índios por causa da censura no regime militar”. Na volta à redação, “Eles adoraram, acharam os índios lindos, as mulheres maravilhosas e me deram seis páginas e a capa da revista”.

Esse encontro primeiro encontro, por acaso, com os ianomâmis mudou a vida de Claudia Andujar que acabou, ao todo passando 20 anos de sua vida ao lado deles. Fundou uma ONG, com outras duas pessoas, para lutar pela demarcação das terras ianomâmis, o que conseguiram em 1992. “Infelizmente para os ianomâmis tem ouro nas terras deles e o garimpo invade, contaminando os índios com o mercúrio”.

 Ouça a íntegra da entrevista com Claudia Andujar

Ao longo da exposição – que começou em maio e vai até 08 de janeiro – houve várias atividades, entre elas uma palestra com o chefe Almir Narayamoga Suruí, que veio falar de desenvolvimento sustentável, da importância das florestas e de um projeto para os próximos 50 anos com a venda de créditos de carbono para proteger a floresta. Os quatro clãs da tribo Paiter-Suruí vivem em uma reserva de 2,480 mil Km quadrados no município de Cacoal, em Rondônia. No mapa, é um retângulo verde, com tudo desmatado em volta. Almir é formado em Biologia e tem dois filhos na universidade.

Ele explicou para uma plateia que lotou uma das salas de conferência do MEG em Genebra que, quando do primeiro contato externo de sua tribo, 45 anos atrás, os Paiter-Suruí eram mais de 5.000. A certa altura, sobraram pouco mais de 250 pessoas. Hoje eles são 1.400.

Almir Suruí disse para swissinfo.ch que “não vim aqui para criticar o Brasil nem a Suíça. Vim para dialogar porque se eles não souberem que produtos compram aqui, acabam ajudando a desmatar a nossa floresta lá. Eles precisam saber do impacto social e econômico lá. As pessoas têm de refletir a que futuro nós queremos chegar”.

Almir também falou do desmatamento, “sem controle, sem critério, sem planejamento e sem respeito”. Disse ao público que veio ouvi-lo que “não somos contra o desenvolvimento, somos contra a maneira com que se faz”. Daí é um passo para falar do projeto de vender créditos de carbono, atividade que ainda está começando. Uma empresa que emite CO2 em qualquer país, pode comprar créditos pela preservação das florestas existentes. Almir vê uma oportunidade de autonomia para os suruís e muito potencial. “Preservar a floresta será muito mais rentável do que desmatar”, afirma. “Tem gente que critica, mas não propõe solução e tem gente que critica porque explora a floresta”. Os suruís estão inclusive reflorestando o que foi desmatado dentro de suas terras. Tem ainda agricultura sustentável de café, castanha e banana.

Eles inclusive utilizam tecnologia moderna para monitorar a floresta: computadores, celulares, GPS e câmeras. O material foi oferecido pelo Google, depois que Almir fez uma palestra nos Estados Unidos, em 2007, e pediu ajuda para monitorar a floresta. Trinta membros da tribo foram formados para operar o material e funciona.

Especialistas em meio ambiente estimam que, quando estiver bem desenvolvido, o potencial de créditos de carbono deve girar em torno de 140 bilhões de dólares. Considerando a área de floresta dos saruís, a 5 dólares por tonelada, o potencial de 37 milhões de dólares nos próximos 30 anos.

 Ouça a íntegra da entrevista com Almir Suruí

 “O meu propósito, enquanto antropólogo e diretor deste museu, é de falar de outras maneiras de viver neste mundo, outros tipos de religiões. As pessoas têm de saber aqui em Genebra e no resto do mundo que, antes da difusão das religiões monoteístas, a maioria das culturas do mundo tinham religiões baseadas no xamanismo ou na possessão. No Brasil tem possessão no cultos afro-brasileiros. Os indígenas têm xamanismo. Mas o xamanismo e a possessão eram práticas comuns nos cinco continentes; inclusive na Europa, às vezes se encontra restos daquelas práticas como no sul da Itália e também no norte da África”, conclui o diretor do Museu de Etnologia de Genebra (MEG), Boris Wastiau.


swissinfo.ch

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