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Histórias de migrantes "O Brasil precisa menos do governo e mais da indústria privada"

O suíço Felix Spiess é um engenheiro mecânico e vive há oito anos no Brasil. Nesse espaço de tempo, já passou por crises econômicas e conturbações políticas, mas descobriu um povo  criativo, "que vem ao encontro da minha personalidade, pois sou um criador". Mas espera que o eleitor faça uma boa escolha.

Homem olhando para a câmera

Felix spiess: "As coisas não estão andando muito bem no País".

(swissinfo.ch)

O boom econômico e social vivido recentemente pelo Brasil, seguido do processo de recessão econômica e insatisfação contra a corrupção e a classe política, de ápice no impeachment de Dilma Rousseff e desdobramentos na agora mais polarizada eleição presidencial dos últimos anos. Momentos efervescentes da sociedade brasileira e acompanhados como testemunha ocular da história pelo engenheiro mecânico suíço Felix Spiess, 43 anos, há quase uma década vivendo no Brasil.

E são as impressões sobre as escolhas pessoais, profissionais e o momento econômico, social e político do Brasil nesse período que levaram a reportagem da swissinfo.ch até São Leopoldo, berço da imigração alemã no Brasil.

Felix Spiess vive em São Leopoldo, cidade próxima de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Trabalha como gestor de R&D (desenvolvimento de produto) na Stihl Ferramentas Motorizadas, gigante germânica do setor. Antes de se mudar para o Rio Grande do Sul, viveu em Curitiba, como colaborador do ThyssenKrupp em R&D e também em "business development".

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swissinfo.ch: Nos fale um pouco da tua origem helvética?

Felix Spiess: Nasci numa cidade chamada Lommis, no cantão Turgóvia, noroeste do País. Passei toda a minha infância lá. Meus pais ainda moram lá.

swissinfo.ch: Como você escolheu sua profissão?

F.S.: Sempre me interessei muito por tecnologia, por máquinas. Meu pai era pesquisador de tecnologia agrícola. Então, máquinas agrícolas, tratores, tecnologia, eu sempre gostei disso. E aliei esse gosto a outro, os negócios. E essas coisas depois passaram a acontecer juntas na minha vida. Como vocês dizem, uni o útil ao agradável. Em geral o que faço é o que eu gosto.

swissinfo.ch: E viveu na Suíça até quando?

F.S.: Fiz toda a minha formação na Suíça, onde fiquei até os 26 anos. Estudei engenharia mecânica na ZHW, em Winterthur. Na minha adolescência eu tive um pequeno negócio. Eu sempre consertei motos, peças, mas não tenho motos aqui no Brasil. Aí passei a trabalhar na ThyssenKrupp, no desenvolvimento de sistemas de direção e depois de dois anos lá, em Liechtenstein, surgiu a oportunidade de um grande negócio nos Estados Unidos, onde eles precisavam de um resident engineer. Nas montadoras grandes é um engenheiro do fornecedor, pago pelo fornecedor, mas dentro do centro de desenvolvimento da montadora. Tive oportunidade de trabalhar com uma Ford, uma Chrysler e alguns projetos com montadoras japonesas. Lá, fiz um MBA na Universidade de Michigan - Ann Arbor.

swissinfo.ch: O que marcou mais nessa experiência norte-americana?

F.S.: Foi bom trabalhar e fazer negócios lá. Num contraste com o Brasil, nos Estados Unidos tudo é muito fácil. Em especial na região de Detroit, onde a indústria automotiva é forte e dá suporte e recursos. É muito fácil de fazer negócios. E o governo dá muito incentivo para fazer as coisas acontecerem. Fiquei nos Estados Unidos de 2002 a 2010. Nesta época que também nasceu meu filho Lionel. Ele mora lá ainda e o visito de uma a duas vezes por ano.

swissinfo.ch: Quando o Brasil surgiu na sua vida?

F.S.: Ao terminar o meu MBA em 2009, ano da grande crise nos Estados Unidos, mas menor por aqui. Nos Estados Unidos foi bem forte, fiquei no centro desse furacão. A Chrysler e General Motors foram atingidas em cheio, houve falências. Mesmo com o MBA o meu trabalho também reduziu porque houve o congelamento de novos projetos e desenvolvimentos. Eu até estava pensando em voltar para a Suíça, estava com 35 para 36 anos. Mas aí dentro do grupo ThyssenKrupp eu soube dessa oportunidade para gerente de engenharia na unidade do Brasil em Curitiba, capital do Paraná. E eu já conhecia o Brasil, pois havia feito viagens anteriores ao Rio de Janeiro, Salvador, Pantanal e lugares do Nordeste. E como gostava e gosto dos brasileiros, resolvi vir.

swissinfo.ch: Como foi a vida em Curitiba?

F.S.: Fiquei um total de quatro anos em Curitiba. Mas aí, depois de 14 anos na mesma empresa, na ThyssenKrupp, eu também percebi que era o momento de mudar o rumo profissional, de fazer coisas diferentes.

swissinfo.ch: Aí apareceu o Rio Grande do Sul...

F.S.: Sim, apareceu a oportunidade na Stihl em 2014. É uma empresa tradicional alemã de quem eu conhecia os produtos, tradicionais e de alta tecnologia. Como gosto de jardinagem, já conhecia os produtos deles, as pequenas máquinas para jardinagem e seus motores, inclusive a tecnologia usada nesses motores. Eu já conhecia muito bem pequenos motores também pela experiência com as motos.

swissinfo.ch: Motores são também o teu hobby?

F.S.: Tenho como hobbies aqui o kitesurf, porque no litoral norte do Rio Grande do Sul as condições são quase perfeitas, e a mountain bike. Estou montando também um carro antigo. Um carro japonês, mas também brasileiro, a Toyota Bandeirante. Tem tecnologia modernizada, mas é um carro antigo.

swissinfo.ch: Nessa questão profissional o que mais chama a atenção no Brasil? O que há de positivo nele, num comparativo a mercados como o suíço e o americano? Ele precisa se modernizar, estar mais aberto a oportunidades globais?

F.S.: Eu vejo como lado mais positivo de trabalhar aqui as interações com as pessoas. Que não brigam, não gritam, que tem diálogo e vontade de ajudar. Há uma vontade dos brasileiros de querer ajudar e há uma receptividade boa aos estrangeiros. As pessoas se interessam por quem você é. Acho que seria mais difícil para um brasileiro na Suíça, onde as pessoas são mais fechadas. Eu não sou uma pessoa que precise ou faço muitos amigos, mas me entendo muito bem com todos e participo em grupos para praticar mountain bike e kitesurf nos finais de semana.

swissinfo.ch: Nesse período de quase dez anos tu viveste extremos aqui. De um país de crescimento social e econômico até uma recessão e crise política, com milhares de desempregados. Qual teu olhar sobre isso?

F.S.: Pouco tempo depois de eu chegar ao Brasil eu lembro daquela capa, se não me engano do The Economist, que era o Cristo Redentor em forma de foguete e subindo, com o Brasil se colocando como o país do futuro. Depois, teve outra, com o Cristo-foguete caindo. Para mim, lembrar de 2010 e 2011 é muito positivo. Mas há brasileiros que me perguntam hoje o que faço aqui. Há empresas indo bem, outras nem tanto. O câmbio era 1,6 o dólar. Hoje, é 4,5. Meu salário não aumentou, estou mais pobre hoje. O mesmo que todos os brasileiros, que antes viajavam para o exterior, faziam economia e tinham dinheiro na poupança, uma aposentadoria mais tranquila. Hoje está tudo muito mais difícil para a população.

swissinfo.ch: Que ajustes nós devemos fazer para recolocar nos trilhos o trem do desenvolvimento?

F.S.: Mesmo com as dificuldades eu gosto muito do Brasil, das pessoas, da natureza, da informalidade dos brasileiros. Aqui o povo é criativo, o que vem ao encontro da minha personalidade, eu sou um criador. Na Suíça há mais regras e formalidade e isso me atrapalha lá. Leio sobre a história do Brasil e acredito que o Brasil pode tomar uma boa dose de gestão. Como foi feito na China, que era um país extremamente pobre até a metade dos anos 70. Não estou falando do aspecto comunista, mas de reformas estruturais profundas, de meritocracia, que é um exemplo na China, e de estímulo ao empreendedorismo. Deixar quem quer empreender o fazê-lo. Isso não é ruim, é bom. Vai aumentar oferta de empregos, aumento de salários e fazer girar a economia. O Brasil não precisa mais de programas sociais para tentar restituir direitos. Precisa é mais para todos, de uma economia maior que vai resolver isso.

swissinfo.ch: Há exemplos mais próximos de nós além da China?

F.S.: Olhando um pouco para a América Latina, um outro exemplo de desenvolvimento é o Paraguai. Um país que o brasileiro não acha nada, mas vem se desenvolvendo muito bem, onde o governo interfere muito menos. Deixar que as pessoas resolvam as coisas. Eu pago 28,5% de imposto de renda. Na Suíça é metade disso e os serviços são muito melhores. Da educação à segurança. Temos tudo isso aqui, mas funciona muito pouco.

swissinfo.ch: Desde 2010 no Brasil, você vive a sua terceira eleição presidencial. Te preocupa esse quadro eleitoral polarizado, mais passional entre os brasileiros e que também divide o país?

F.S.: No momento em que tem uma condução básica da economia, como uma economia mais liberal, acredito que o Brasil precise menos do governo e mais da indústria privada. Ou seja, mais competência, ser mais produtivo, ter salários mais justos. O governo absorve muito das melhores cabeças do Brasil, muita gente quer trabalhar para o governo porque paga os melhores salários. Mas uma vez que você está dentro não pode ser demitido, não precisa fazer muito. E isso é ruim para os brasileiros. Isso custa para todos. Você paga impostos altos para receber pouco de serviços. Acredito que os melhores anos do Brasil, de 2000 a 2010, isso não foi por mérito do governo, mas porque houve uma grande demanda por produtos brasileiros na economia mundial. As coisas andavam bem. Mas o que aquele governo fez, quando teve oportunidade de reduzir o aparelho de governo, de melhorar as escolas, as coisas mais fundamentais para melhorar o Brasil, eles não fizeram. Não, eles gastavam tudo, colocaram mais empregos (na máquina pública) e não podiam tirar quando as coisas ficaram ruins e gastavam tudo. Você ganha o seu 13º e gasta tudo, depois chega a fatura da escola do filho e você não tem como pagar. Foi o que o governo brasileiro fez.

swissinfo.ch: A tua expectativa segue em ficar no Brasil?

F.S.: As coisas não estão andando muito bem no país. Me sinto mais pobre hoje, ou menos rico. Tenho 43 anos, ainda posso fazer muita coisa. Mas para os próximos anos terei que decidir se fico aqui para sempre ou retorno para a Suíça. Ainda não cheguei a uma conclusão, mas depende de como as coisas serão daqui para frente. Mas se for para mudar voltaria para a Suíça, onde tenho família e amigos.

swissinfo.ch: Qual o recado daria aos brasileiros como um estrangeiro residente no país?

F.S.: Em especial neste momento de eleição escolham bem em quem vocês votarão. Tomem a sua vida nas suas mãos e cobrem do governo que faça certo sempre. Mas também se esforcem o suficiente. Se vocês quiserem andar para frente tenham o controle. Não será o governo que fará por vocês.

swissinfo.ch: O que você diria aos seus concidadãos como suíço do estrangeiro?

F.S.: Voltei de lá na semana passada. Fiquei 20 dias. Vou de duas a três vezes por ano lá. Posso dizer que cuidem do que vocês têm de bom. A Suíça como funciona, com um governo eficiente, quase sem corrupção, como o país é bem cuidado, também na cultura, isso é um conjunto que você não encontra em outros locais do mundo. Você pode até ganhar mais em outro país, achar melhor qualidade ambiental ou de vida mesmo, mas o conjunto suíço é excepcional. Cuidem disso, não façam nada absurdo que possa ferir o que aí está posto.

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